Gonçalves Viana: ‘Quase caindo…’

25/01/2020 14:39

Gonçalves Viana

Quase caindo…

Esse negócio de publicar livros é uma tarefa difícil e ingrata em nosso país, pois uma edição com tiragem por menor que seja – 100, 200 ou 300 exemplares – é proibitiva para bolsos menos abastados, como é o meu caso.

Podemos esquecer qualquer possibilidade de retorno que porventura esperássemos ter, o brasileiro não gosta de ler e muito menos comprar livros, principalmente de poesias.

Mas independentemente de qualquer coisa, essa atividade – escrever e publicar livros – muitas vezes nos proporciona gratas surpresas ou emoções, daquelas que não se esquece jamais.

Após muitas marchas e contramarchas, tempos e contratempos, eu havia conseguido enfim, publicar o meu tão almejado primeiro livro: Vertentes (2006), e já tinha material para um segundo livro.

Mas nesse ínterim, num lance fortuito, encontrei em um sebo um livro há muito esgotado, fora de catálogo mesmo: “Bashô: a lágrima do peixe”, uma biografia de Matsuo Bashô, o lendário criador do haicai, como é conhecido até os nossos dias. Era escrito por um dos meus autores contemporâneos preferidos: Paulo Leminski.

Eu já conhecia o haicai, mas fiquei fascinado com a síntese (que a simplicidade e exiguidade desse poema com uma estrofe de 3 versos exige) e as muitas possibilidades que ele nos proporciona.

Pesquisando um pouco mais, descobri o haicai de Guilherme de Almeida; com isso, desandei a escrever haicais e quando dei por mim, já tinha um número de haicais suficiente para um livro. Então, aqueles poemas tradicionais, com os quais eu pretendia que perfizessem o meu segundo livro, ficaram on standby. E todo orgulhoso, publiquei o meu 2º livro – só de haicais.

Fosse atualmente, eu pensaria um pouquinho mais antes de lançá-lo. Pois eu gostei tanto desse gênero poético, que continuei pesquisando, que descobri vários poetas haicaistas, muitos brasileiros e uma gama enorme de poetas japoneses: Buson, Issa, Shiki, Nenpuku Sato, Masuda Goga, Teruko Oda, etc.

Aí, consternado, constatei que aquilo que eu havia escrito, não tinha nada a ver com o haicai tradicional – um amigo, apreciador de haicais, sugeriu que os denominasse de haicais urbanos – mas já estava feito e assim ficou.

Mas na realidade, o que eu queria relatar é que quando do lançamento desse livro, que chamei de “Quase Cai… – Hai-Kais” que ocorreu em um evento denominado de “Semana do Escritor” realizado na FUNDEC em Sorocaba e idealizado por Douglas Lara, aconteceu um fato que marcou-me profundamente. Muitos escritores já consagrados talvez tenham passados por vários momentos, até mais interessantes do que esse que me ocorreu, mas para mim, um neófito e desconhecido poeta amador, foi deveras marcante.

Zuleika Sucupira Kenworthy

Na noite do lançamento – havia outros escritores lançando seus livros também – eu ausentei-me momentaneamente do local onde estavam expostos meus livros, quando vieram me chamar, pois havia uma pessoa que queria conhecer o autor. Voltei apressadamente e encontrei uma senhorinha com um livro meu nas mãos, que passou a me elogiar, citando um dos haicais:

 plantei um luar

dentro do meu coração,

 resta esperar. 

Disse-me assim:

– Mas que lindo este poema, fala da natureza, fala em plantio, em esperança…

– Meu jovem! Eu vou levar um livro… um não, vou levar dois!

Ao escrever a dedicatória, perguntei o seu nome e ela disse-me ser Zuleika. Posteriormente, ao pesquisar, descobri surpreso, quem era a tal senhorinha. Seu nome completo: Zuleika Sucupira Kenworthy. Ela, na década de 30 do século passado, havia sido a primeira Promotora Pública do Brasil, até mesmo da América Latina. Nessa época – do lançamento – ela contava com 95 anos e estava totalmente lúcida

Algum tempo depois participei de um evento no Instituto Histórico e Geográfico de Sorocaba: o Dia Internacional da Mulher, onde ela foi homenageada, então fiquei sabendo de mais detalhes sobre a sua atribulada vida. Contava ela que quando cursava a Faculdade de Direito do Largo São Francisco em São Paulo, mulher que estudasse, principalmente Direito, não era vista com bons olhos, era considerada “mulher livre”.

Depois de formada prestou concurso para a promotoria, não foi aprovada, justamente por ser mulher e a carreira era eminentemente masculina. Na segunda vez também não foi aprovada. Mas na terceira, não houve como não aprová-la, só que destinaram-na para uma cidadezinha nos – em suas próprias palavras – “cafundós do Judas”, onde ela enfrentou tudo que se possa imaginar, para que desistisse da carreira: uma pensãozinha miserável que arrumaram para ela ficar; chegavam a colocar asas e pernas de barata em sua sopa; molhavam a rua que era de terra, para formar lamaçal e impedir que ela  pudesse sair para trabalhar ou ir à missa. E se os homens tinham preconceito contra ela, suas esposas não permitiam que eles conversassem com ela ou sequer a cumprimentassem-na. Mas ela enfrentou galhardamente a tudo e a todos e encerrou brilhantemente sua carreira após 32 anos de promotoria, exercidos com muita honra e denodo.

Pois sim! Foi simplesmente essa personagem histórica que houve por bem um dia gostar e elogiar um poema deste mero poetinha. Só por este fato valeu a pena ter escrito esse livro.

Ela faleceu em 13/12/2017, aos 105 anos de idade. Em 30/05/2019, inaugurou-se um viaduto sobre a Rodovia Raposo Tavares – Km 101 (SP – 270), que a Prefeitura de Sorocaba, em homenagem a ela, batizou de Viaduto Zuleika Sucupira Kenworthy.

 

 Gonçalves Viana

viana.gaparecido@gmail.com

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