Gonçalves Viana: ‘Princípios do Rock’n’Roll, no Brasil’

06/01/2019 10:58

No princípio era o Verbo. E o Verbo era negro e era livre. Mas, de repente, em um lugar bem distante, ao norte do planeta, o Verbo se tornou escravo, e gritou bem alto a sua dor. E desse lamento, o Verbo se fez Rocha, se fez Rock.”

No princípio era o Verbo. E o Verbo era negro e era livre. Mas, de repente, em um lugar bem distante, ao norte do planeta, o Verbo se tornou escravo, e gritou bem alto a sua dor. E desse lamento, o Verbo se fez Rocha, se fez Rock.

Muito tempo depois, ele voltou-se para o Sul, um pouco para o Oeste, para o Brasil.

E assim, o Verbo cumpriu o seu destino, o seu desígnio, disseminando-se pelos quatro cantos do mundo.

No Brasil, o rock começou incipiente, sem a conotação de rebeldia e contestação, como acontecia nos EUA. Mesmo quando passaram por aqui, os primeiros filmes sobre esse fenômeno musical: Sementes da Violência (Blackboard Jungle) e Ao Balanço das Horas (Rock Around The Clock), não houve tanto quebra-quebra, como ocorreu nas exibições dos mesmos, nas salas de cinema dos EUA. As esparsas manifestações que por aqui houveram, não estavam revestidas das mesmas características, tal como acontecia por lá. Eram simples e reles imitações.

Bill Haley And His Comets

Nesses dois filmes citados acima, a principal atração era um gorducho, não tão jovem assim, e que ostentava um ridículo topete, que na época era conhecido como “pega-rapaz”, o nome dele, Bill Haley, devidamente acompanhado pelo seu conjunto, His Comets. Apresentava, nos dois filmes, o indefectível “Rock Around The Clock”. E mesmo assim, no filme Sementes… a música era tocada apenas na abertura, quando da exibição dos créditos do filme.

Essa mesma banda, Bill Haley and His Comets, esteve em Sorocaba, em 1958, apresentando-se no Ginásio de Esportes, então recém-inaugurado, E eu tive a oportunidade de assistir a esse show, porém, com apenas catorze anos não curtia ainda o gênero, o que só foi acontecer quando descobri que existia um roqueiro que se chamava Elvis Presley.

Nora Ney

No Brasil o primeiro rock gravado, foi justamente esse ‘Rock Around The Clock’ em novembro de 1955, em inglês mesmo, na voz de uma cantora de boleros e canções: Nora Ney. Já, o primeiro rock composto no Brasil foi “Enrolando o Rock” (Betinho / Heitor Carillo) com Betinho e seu conjunto, gravado em abril de 1957.

Outros cantores se aventuraram no gênero, talvez, só para ver como se sairiam e também sondar o mercado, nas não deram continuidade, foi o caso de Cauby Peixoto que gravou o mesmo Enrolando o Rock do Betinho e, também, um rock composto por Miguel Gustavo, “Rock’n’Roll em Copacabana”. Agostinho dos Santos chegou a gravar “Até Logo, Jacaré”, uma versão de Júlio Nagib para “See You Later, Alligator” do Bill Haley e seus Cometas.

Então, o que havia começado timidamente, deslanchou. Surgiram vários cantores, cantoras e, embora prevalecessem as versões, muitos compositores.

Baby Santiago

Entre esses, houve um, pouco lembrado atualmente, mas que teve uma importância fundamental no processo de afirmação do rock entre nós: Fulgêncio Santiago, na época conhecido como Baby Santiago.

Baby Santiago é a quintessência do rock nacional. Com um visual a la “Fats Domino”, suas composições tinham aquele descompromisso do início do rock. Era pura alegria, sem nada a ver com o trinômio que caracterizaria o rock posteriormente: “Sexo, Drogas e Rock’n’Roll”. Era apenas e tão somente diversão.

Suas letras, de uma simplicidade ingênua, mas encantadoras, retratavam o anseio da juventude de então, sem nenhum compromisso, quase que, por assim dizer, alienada. Podemos afirmar, sem a menor sombra de dúvida, que Baby é uma síntese – pois tem muito a ver – com Little Richard e Chuck Berry, e uma pitada de Larry Williams.

Little Richard

Pois esse trio (Richard, Chuck e Larry) mais aquele do inspirado “look” de Baby, o Fats Domino, eram a principal coluna do rock, o veio mais negro do movimento. E essa negritude do rock foi muito bem representada por Baby Santiago, no Brasil.

Do conhecimento que temos, Baby gravou muito pouco, talvez dois compactos simples (33 rpm). Mas seus rocks, ingênuos ou não, foram gravados pela nata dos cantores jovens, da época pré-jovem-guarda (1955-1965), entre eles: Demétrius, Wilson Miranda, Tony Campello, George Freedman, Sérgio Murilo, Roberto Barreiros, etc.

Tony Campello

Em um dos compactos que Baby Santiago gravou está a sua composição “Xaxado Rock”, onde ele ousou mesclar o lamento negro do sofrido Sul dos Estados Unidos (rock), ao lamento musical que caracteriza e catalisa todo o sofrimento – sofrimento sim, porém, com uma grande dose de aceitação e, até certa alegria – do Nordeste ou Norte do Brasil, o xaxado. Dez anos depois, Raul Seixas gravaria, no mesmo tema, o seu “Let me Sing, Let me Sing”. Já em outra gravação, “Bola no Taco”, ele mostra que não era bom só no rock, e faz valer suas raízes brasileiras, apresentando-nos um autêntico samba de gafieira, bem no estilo de Germano Mathias, sambista da velha-guarda.

Kid Vinil

De vez em quando, alguém se lembra, e regrava Baby, como aconteceu com a banda Magazine e seu histriônico vocalista: Kid Vinil, que regravou “Adivinhão”, em 1983. Cokeluxe (1987), Cyro Aguiar (1993) e Jerry Adriani (1955) também o regravaram.

Há pouco tempo, assistindo a um vídeo na internet, lá estava esse eternamente jovem e eternamente injustiçado e esquecido Baby Santiago, acompanhado por um grupo de rock, formado por jovens, os Ready Teds. Ele continua esbanjando irreverência, bom-humor e gaiatice. Longa vida ao rock’n’roll! Longa vida ao Baby Santiago!

                                                   Gonçalves Viana – viana.gaparecido@gmail.com

                                                                                

ADIVINHÃO

Você anda namorando a minha filha

Com segunda intenção

(Adivinhão, adivinhão)

 

Você anda namorando a minha filha

Pra querer botar a mão

(Adivinhão, adivinhão)

 

O teu negócio é andar de lambreta

Quando fala em casamento

Você faz careta

Vai dando o fora playboy

Caso contrário eu lhe meto a mão

 

À noite, ela falta à aula

Pra encontrar contigo

Tomar Coca-Cola

 

Quando chega o fim do ano

Ela leva bomba

Você nem dá bola

 

Você anda namorando a minha filha…

(Fulgêncio Santiago)

Tags: