Gonçalves Viana: ‘Pesadelo’

19/01/2019 13:41

Pesadelo é uma composição de Paulo César Pinheiro, em parceria com Maurício Tapajós, essa música entrou para a história da MPB, devido às circunstâncias em que foi gravada.”

Paulo César Pinheiro

Pesadelo é uma composição de Paulo César Pinheiro, em parceria com Maurício Tapajós, essa música entrou para a história da MPB, devido às circunstâncias em que foi gravada.

No início dos anos 70, do século passado, a ditadura militar estava no auge e, em sua truculência, coibia qualquer manifestação que ousasse contestar seus princípios. E os mais perseguidos era a classe artística, notadamente os músicos e os compositores.

Maurício Tapajós

Todos tinham que submeter suas composições à Censura, para que fossem liberadas. Inicialmente, analisavam apenas as letras, mas posteriormente, passaram a exigir as gravações, pois, as mesmas, poderiam conter uma segunda intenção.

Os compositores escreviam por metáforas, faziam o que era possível para que a música fosse aprovada. Mas era como se uma lupa fosse aplicada sobre o que era escrito, principalmente naqueles compositores que já estavam marcados (como ocorria com Chico Buarque, Caetano e Gil), se a música fosse de carnaval ou daquelas rotuladas como “brega”, sempre passavam batidas, eram carimbadas e liberadas.

Mas, Paulo César estava cansado de usar desses recursos, e de fazer, e refazer suas letras, então decidiu escrever uma letra que fosse diretamente ao ponto, sem rodeios. Quando terminou a letra, e o Maurício Tapajós a música, levaram-na para o MPB-4, que foram enfáticos: “Não adianta nem pensar na gravação, não vai dar pé, não passa pela Censura”. Aí Paulo rebateu: “Se passar vocês gravam?”. Um tanto descrentes, responderam que sim.

Agnaldo Timóteo

Bem, Paulo havia sido contratado pela Odeon e já tinha feito um disco em 1972. Então começou a entender o funcionamento das gravadoras, e via como elas mandavam as músicas para a Censura. Então ele pensou: “Olha, eu vou fazer uma malandragem. Vou mandar essa música no meio de um bolo que a Odeon sempre manda”. Era um período em que havia muito material para mandar. Tinha um disco do Agnaldo Timóteo, com aquelas canções derramadas, e outras coisas românticas. Pedi a um funcionário da casa que enfiasse Pesadelo no meio desses discos. A música voltou liberada.

Mesmo depois de liberada, as pessoas tinham medo de gravar, mas o MPB-4 sempre foi valente e gravou Pesadelo. Apesar disso, toda vez que eles a cantavam, ninguém entendia como tinha passado pela Censura. As emissoras de rádio e televisão começaram a não tocá-la.

Os militantes na Guerrilha do Araguaia, na selva, cantavam a música, que se tornou um hino, um canto de guerra. Diziam ter sido a música que mais ajudou, nessa fase de luta armada. Motivava e levantava o moral deles.

Essa foi a música mais forte politicamente que nós já fizemos, e a única direta, sem subterfúgios, sem metáforas, que já passou pela Censura, nessa época que foi denominada de “Anos de Chumbo”.

                                                           Gonçalves Viana – viana.gaparecido@gmail.com

 

PESADELO

Quando um muro separa, uma ponte une

Se a vingança encara, o remorso pune

Você vem me agarra, alguém me solta

Você vai na marra, ela um dia volta

E se a força é tua, ela um dia é nossa

Olha o muro, olha a ponte

Olha o dia de ontem, chegando

Que medo você tem de nós

Olha aí…

 

Você corta um verso, eu escrevo outro

Você me prende vivo, eu escapo morto

De repente… olha eu de novo

Perturbando a paz, exigindo o troco

Vamos por aí, eu e meu cachorro

Olha um verso, olha o outro

Olha o vento, olha o moço chegando

Que medo você tem de nós

Olha aí…

 

O muro caiu, olha a ponte

Da liberdade guardiã

O braço do Cristo-horizonte

Abraça o dia de amanhã

Olha aí…

(Maurício Tapajós – Paulo Cesar Pinheiro)

 

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