Gonçalves Viana: ‘Outra vez’

29/04/2019 06:08

Gonçalves Viana

‘Outra vez’

 

A Jovem Guarda foi um movimento cultural brasileiro surgido em meados da década de 1960.

Em 1965, aconteceu a proibição das transmissões ao vivo das partidas de futebol nas tardes de domingo. Tornou-se necessário preencher aquele vazio. Em função disso, surge, então, a Jovem Guarda.

O nome foi inspirado em uma frase do líder revolucionário russo Vladimir Lênin que disse: “O futuro pertence à jovem guarda porque a velha está ultrapassada”.

O programa, que era comandado pelo emergente Roberto Carlos, coadjuvado por Erasmo Carlos e Wanderléia, foi um tremendo sucesso. Mas, no final de 1968, começou a perder a popularidade, e Roberto deixou o programa. Sem seu ídolo principal, o programa foi retirado do ar, e o movimento foi perdendo a força, até desaparecer, no final da década de 1960.

Luiz Ayrão

No entanto, Roberto já havia assumido o status de Rei, estendendo o seu reinado para música romântica, que passou, então, a ser o seu caminho. Desde a sua ascensão, passando dos roquinhos juvenis para o iê iê iê mais alienado ainda, e desembocando no mais desbragado romantismo, sempre fez muito sucesso, com composições suas, em parceria com o eterno amigo de fé e irmão camarada, Erasmo Carlos; e também com outros compositores.

Campeão de venda de discos, quem tivesse uma música gravada pelo Rei estava com a vida feita. Que o digam Getúlio Cortes, Helena dos Santos, Edson Ribeiro, Luiz Ayrão e tantos outros que ficaram famosos e angariaram fortuna, na esteira do estrondoso sucesso do Rei Roberto.

Eduardo Araújo

Devido a isso, quando, de certa feita, estavam conversando nos estúdios da RCA Victor, o já famoso Eduardo Araújo, e um ilustre desconhecido cantor e compositor, que lutava por um lugar ao sol, Eduardo comentou que precisava ir embora, pois, iria levar umas músicas para o Roberto Carlos. O desconhecido cantor e compositor, então, falou – Bem que você poderia levar também uma fita com uma composição minha e da minha irmã! – Responde Eduardo, brincando – Mas o que eu ganho com isso? Ao que retrucou o outro – Bem, tudo o que eu tenho é um fusca. Se o Roberto gravar minha música, dou o meu fusca pra você!

Então Eduardo Araújo deixou duas fitas – a sua e a do desconhecido – com Roberto Carlos e foi descansar na sua fazenda no interior de Minas Gerais.

Na volta, ligou para Roberto ─ E aí, bicho vai gravar minha música ou não vai? Roberto ─ Dudu, sua música é bonita, mas acho que ela não é pra mim. Mas eu gostei daquela outra com a mulher cantando! Eduardo ─ Mulher cantando? Roberto ─ É bicho, aquela que fala de um cara apaixonado por uma amiga. Eduardo ─ Mas não é mulher, Roberto, é um rapaz que tem voz fina.

Pois é, o rapaz de voz fina, o compositor desconhecido, era o Milton Carlos, e a música era Amigos, Amigos, composta em parceria com sua irmã Isolda Bourdot. Roberto gravou-a no seu álbum de 1973.

A voz fina de Milton não era falsete, sua voz não desenvolveu desde quando ele era criança e, com o passar do tempo, ficou feminina, tornando-se uma voz peculiar, que chamava a atenção das gravadoras por sua beleza esfuziante e certa androginia.

Voltando ao assunto. Depois de falar com Roberto, Eduardo ligou para o Milton ─ Você pode passar aqui em casa e deixar a chave do fusca, porque o Roberto Carlos vai gravar sua música.

Isolda Bourdot

Milton Carlos ficou alguns segundos em silêncio, respirou fundo e perguntou ─ Isso não é brincadeira sua não? Ele vai mesmo gravar minha música?

Mais tarde sua irmã, Isolda contou em uma entrevista:

“Pra gente foi uma loucura, a gente não queria acreditar. Mas quando vimos a confirmação no jornal, com a lista das músicas do novo disco de Roberto, fizemos a maior comemoração. Chamamos os amigos e saímos pagando chopes para todo mundo”.

Essa música, lançada por Roberto e mais o atrativo da voz de Milton, alavancou, não só a carreira da dupla compositora, como a de cantor, de Milton Carlos.

Isso ensejou a que a gravadora RCA Victor lhe propusesse um contrato para a gravação, em 1975, do LP Samba Quadrado, que fez grande sucesso em todo o país. Também pudera, com a chancela do Rei e o trabalho de divulgação e de distribuição da poderosa RCA, só poderia resultar nisso.

Concomitantemente, a dupla Milton Carlos e Isolda, continuavam abastecendo Roberto com inspiradas composições: Jogo de Damas (1974), Elas Por Elas (1975). No LP de 1976, eles emplacaram duas, Pelo Avesso e Um Jeito Estúpido de Te Amar.

Os Incríveis

Com a agenda repleta de shows e compromissos musicais, Milton também teve suas composições – em parceria com a irmã Isolda – gravadas pelos mais diversos intérpretes. Essas composições se tornaram praticamente sinônimos de sucesso e reconhecimento popular. Entre os que gravaram suas músicas estão: Os Incríveis, Nilton César, Nalva Aguiar, Antônio Marcos, Silvinha, Wando, Ângela Maria, Agnaldo Rayol, Joana, e outros.

No início de 1976, Milton Carlos lança mais um LP, Largo do Boticário. Roberto inclui, não uma, mas duas músicas da dupla no seu disco anual, “Pelo Avesso” e “Um Jeito Estúpido de Te Amar”. Milton estava no auge de sua carreira como cantor e compositor.

Vinte e dois anos de idade, com 80 músicas gravadas, Milton não chegou a mostrar todo o seu talento, pois a sua carreira foi bruscamente encerrada na madrugada do dia 22 de outubro de 1976, num acidente automobilístico na altura do km 20 da via Anhanguera, próximo à cidade de Jundiaí. Com ele morreram, a sua noiva, Marineide, também cantora e um amigo,

Com a morte do irmão e parceiro, Isolda, isolou-se por quase dois anos. Ante a insistência do Rei, que queria algo dela para gravar, lembrou-se de uma que tentou fazer seis meses depois do infausto acontecimento, terminou-a e enviou a Roberto que, incontinente a gravou. Essa música, “Outra Vez” constituiu-se no seu maior sucesso e também um dos maiores da carreira de Roberto, só encontrando paralelo em “Detalhes” de autoria do Rei. Ganhou o prêmio de música do ano.

Sobre essa canção existem várias histórias, Paulo César Araújo, em seu livro Roberto Carlos em Detalhes – livro esse, que teve sua comercialização interditada por Roberto Carlos – afirma que a música foi inspirada em um romance do passado e cita inclusive o nome da pessoa.

Mas Isolda, posteriormente, relatou que a música foi composta por ela, exatamente seis meses depois de ter perdido o irmão, parceiro e melhor amigo, no mesmo ano em que se separou do primeiro marido e pai dos seus filhos. Não teria lógica nenhuma, compor uma canção de amor, no momento em que se encontrava emocionalmente muito triste, portanto ela é muito mais fruto das lembranças que tinha do seu querido irmão, do que qualquer outra coisa.

Pepino di Capri

Isolda teve mais uma composição sola, gravada por Roberto em 1983, Tente Esquecer, além de outras três com outros parceiros. Mas, Outra Vez, eternizou o nome dela no Panteão da MPB, essa canção teve mais de 160 gravações. Entre os cantores nacionais temos: Altemar Dutra, Simone, Emílio Santiago, Maria Bethânia, Gal Costa, Roberta Miranda, Agnaldo Timóteo, Wanderley Cardoso, Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto, Sérgio Reis, Trio Irakitan, etc. internacionalmente foi gravada por Pepino di Capri, Armando Manzanero e Ray Conniff, entre outros.

Lá pelos anos 1990, a mídia noticiou que Isolda estava magoada, pois Roberto Carlos não estava mais gravando suas composições. Ela lamentava muito ter perdido a sua galinha dos ovos de ouro.

Em 2007, Isolda comprovou que não era apenas compositora, mas também uma excelente cantora. Lançou o seu primeiro CD, “Tudo Exatamente Assim”, uma das faixas é Outra Vez, que ela gravou do jeito que gostava de cantar, e com um arranjo diferente e sensível.

Em 16 de dezembro de 2018, um infarto privou-nos da nossa querida compositora e cantora, Isolda Bordout. Ela tinha 61 anos.

                                                                 Gonçalves Viana – viana.gaparecido@gmail.com

 

OUTRA VEZ

Você foi o maior dos meus casos

De todos os abraços o que eu nunca esqueci

Você foi dos amores que eu tive

O mais complicado e o mais simples pra mim

Você foi o melhor dos meus erros

A mais estranha estória que alguém já escreveu

E é por essas e outras

Que a minha saudade faz lembrar de tudo outra vez

 

Você foi a mentira sincera

Brincadeira mais séria que me aconteceu

Você foi o caso mais antigo

O amor mais amigo que me apareceu

Das lembranças que eu trago na vida

Você é a saudade que eu gosto de ter

Só assim sinto você bem perto de mim outra vez

 

Esqueci de tentar te esquecer

Resolvi te querer por querer

Decidi te lembrar quantas vezes

Eu tenha vontade sem nada perder

 

Você foi toda a felicidade

Você foi a maldade que só me fez bem

Você foi o melhor dos meus planos

E o maior dos enganos que eu pude fazer

Das lembranças que eu trago na vida

Você é a saudade que eu gosto de ter

Só assim sinto você bem perto de mim outra vez. 

(Isolda)

Tags: