Gonçalves Viana: ‘Os sabiás do sertão’

22/06/2019 22:08

Gonçalves Viana

Os sabiás do sertão

Cascatinha e Inhana

Aquele mulatinho, com cerca de dez anos, para fazer o que mais gostava na vida, pulava o muro da escola em que cursava o Ensino Primário, para cabular as aulas, indo tomar banho e nadar na pequena cascata que, ali perto, existia. Seu nome, Francisco dos Santos. Mas, por causa desse prazer,  acabou por ganhar o apelido de “Cascatinha”. Sua família havia mudado, a pouco, de Marília, para a cidade de Garça, ambas, no Estado de São Paulo, onde aconteceu esse fato.

Mais tarde, ele voltou para Marília, onde trabalhou como servente de pedreiro. Mas como ele gostava muito de música, foi admitido na banda local, como percussionista (tocava caixa). Alguns músicos da banda formaram um conjunto para animar os bailes da cidade, e lá foi ser Cascatinha o baterista do conjunto.

A essa altura dos acontecimentos, contava ele 18 anos. Passou, então, por Marília o Circo Nova Iorque, tornando-se e ele o baterista do circo. Decidiu, também, aprender a tocar violão. Pouco a pouco, foi revelando as suas qualidades como interprete, ao cantar sambas e boleros, em dupla com o trapezista, o paraibano Natalício Fermino dos Santos, o Chopp.  

Devido a isso, alguns afirmavam que o apelido ‘Cascatinha’ era em razão à parceria com Chopp, pois, na época, existia uma cerveja muito famosa, a Cerveja Cascatinha, daí a dupla Cascatinha e Chopp.

Destino ou não, em 1941, o Circo Nova Iorque passou pela cidade de Araras/SP e, nessa cidade, ele conheceu uma jovem muito bonita, nascida naquele local que, junto com a irmã, cantava no Jazz-Band de Araras, e que se chamava Ana Eufrosina da Silva.

Mais tarde, ela diria: “Quando vi aquele mulato bonito, tocando violão, me apaixonei…”. Ana rompeu um noivado de mais de um ano, e seguiu com Cascatinha e o circo. Mesmo contrariando os pais que não queriam aquela união, pois, segundo eles, “artista de circo tinha um amor em cada praça

No entanto, o medo da família revelou-se infundado, visto que, após cinco meses da fuga, os dois acabaram por casar-se, tendo uma união super estável, que só terminou com o falecimento dela em 1981.

César Ladeira

Em 1942, já no Rio de Janeiro, Ana, Cascatinha e Chopp formaram o Trio Esmeralda  que, além de cantar em circos, também frequentavam programas de calouros que, àquela altura, eram apresentados por Paulo Gracindo, César Ladeira, Ary Barroso, entre outros.

Porém, ainda  em 1942, após um desentendimento com Chopp, em Volta Redonda/RJ, quando o trio fazia ali algumas apresentações, Chopp deixou o trio, que passou a ser a futura e vitoriosa dupla “Cascatinha e Inhana”. Porque Cascatinha rebatizou Ana Eufrosina de “Inhana”, uma corruptela de “Sinhá Ana”, como é costume em nosso interior.

A dupla foi contratada pelo Circo Estrela Dalva, que realizou várias excursões pelo Brasil. Atuando, também no Parque de Diversões Imperial. Em 1947, quando o parque passou por Bauru/SP, assinaram um contrato de um ano com a Rádio Clube de Bauru, afinal, já estavam cansados de tantas andanças e resolveram dar uma parada.

Em 1948, foram para a Capital Paulista, contratados pela Rádio América. Moravam em um ‘quarto e cozinha’ no bairro Ipiranga. Dois anos depois, nova mudança, foram para a Rádio Record, onde ficaram por doze anos.

Dalva de Oliveira

Em 1951, Raul Torres, Florêncio e Rielli, famoso trio caipira, tinha um show marcado na cidade de Jundiaí, mas Raul adoeceu e, como já conhecia, há muito tempo, Cascatinha e Inhana, sugeriu que a dupla os substituíssem. Nesse show, a dupla interpretaria apenas uma música, a célebre “Ave-Maria no Morro” – somente Inhana poderia suplantar, em beleza, a voz de Dalva de Oliveira, que cantava essa música no ‘Trio de Ouro’ – no entanto, foram aplaudidos de tal modo que só conseguiram sair do palco após cantar mais de meia dúzia de outros sucessos.

Raul Torres, que tinha grande influência na gravadora Todamérica, quando soube do sucesso do casal em Jundiaí, conseguiu a gravação de um disco – o primeiro da dupla – um 78 RPM contendo “La Paloma” (S. Yradier-vs. Pedro Almeida) e “Fronteiriça” (José Fortuna), foi lançado em julho de 1951.

No quinto disco, também pela Todamérica, enfim a consagração total, o maior sucesso da carreira da dupla: “Índia” (M. Ortiz Guerrero-José Asunción Flores-vs. José Fortuna) no lado A e, “Meu Primeiro Amor (Lejania)” (Hermínio Giménez-vs. José Fortuna-Pinheirinho Junior) no lado B. Esse disco atingiu uma vendagem superior a 2.500.000 de cópias! Marco histórico na indústria fonográfica brasileira – principalmente na época – pois foi a primeira vez que um disco de música sertaneja atingiu tal cifra, ainda mais, levando-se em conta que, nos anos 1950, poucas pessoas tinham aparelhos fonográficos em casa.

Esse disco, campeão de vendagens, quase não foi gravado, pois o diretor artístico da Todamérica , Henrique Dantas  não queria gravá-lo, pois não acreditava que faria sucesso. Argumentava que a versão original em castelhano era conhecida demais, para surgir de repente com uma nova letra diferente.

Mas, o diretor acabou cedendo aos insistentes pedidos dos ouvintes que ouviam as músicas que a dupla cantava ao vivo, na Rádio Record, e procuravam inutilmente os discos nas lojas, as quais, por sua vez, os encomendavam à gravadora.

Gal Costa

Índia” e “Meu Primeiro Amor”, foram regravadas à exaustão, ao longo do tempo – e ainda são – por grandes nomes da nossa MPB, tais como Gal Costa, Nara Leão, Taiguara, Paulo Sérgio, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Tetê Espíndola e Roberto Carlos, apenas para citar alguns.

Em 1954, a dupla recebeu a Medalha de Ouro da revista “Equipe”, e passou     a ser conhecida como “Os Sábias do Sertão”, pelos recursos vocais e agradáveis nuances desenvolvidas.  

Téo Azevedo considera a voz de Inhana como: “a mais bonita e afinada que já surgiu no Brasil desde que Cabral pisou nesta terra. Gal Costa, Tetê Espíndola e Elis Regina, as quais são consideradas por muitos como as melhores cantoras do país, são muito boas, mas afinação e voz bonita igual a da Inhana nunca mais apareceu. Era perfeita”.

A dupla “terçava” as vozes como fazem as duplas caipiras, porem, a beleza em particular do timbre das duas vozes, aliada à facilidade com que Inhana conseguia “alcançar e passar pelas notas agudas”, mais a sofisticação da “segunda voz” de Cascatinha, deram a Cascatinha e Inhana uma liberdade incomum, para a escolha do repertório.

Em sua carreira, eles gravaram 34 discos 78 RPM e cerca de 30 LPs, tanto na Todamérica, quanto na Continental. E não foram apenas versões de guarânias paraguaias e músicas sertanejas, mas, também gravaram grandes compositores brasileiros, caso de: “Guacyra” (Hekel Tavares-Joracy Camargo), “Quero Beijar-te as Mãos” (Lourival Faissal-Arsênio de Carvalho), “Flor do Cafezal” (Luiz Carlos Paraná), “Chuá, Chuá” (Pedro Sá Pereira- Marques Porto-Ary Paiva), “Serra da Boa Esperança” (Lamartine Babo), etc.

Cascatinha e Inhana ganharam também o Troféu Roquete Pinto em 1951, 1953 e 1954, além de seis Discos de Ouro que obtiveram por vendagens de mais de 100.000 exemplares de cada um de seis de seus discos.

Em 11 de junho de 1981, véspera do Dia dos Namorados, Inhana passou mal em um salão de beleza, quando se preparava para comemorar a data. Faleceu no Hospital Leão XIII em São Paulo, para onde foi levada às pressas. Isso pôs fim a uma brilhante carreira e a um casamento de 40 anos.

Cascatinha continuou a se apresentar sozinho em Votuporanga/SP e depois em São José do Rio Preto, onde veio a falecer em 1996.

                                                                  Gonçalves Viana – viana.gaparecido@gmail.com

ÍNDIA

Índia seus cabelos nos ombros caídos

Negros como a noite que não tem luar

Seus lábio de rosa, para mim sorrindo

E a doce meiguice desse seu olhar,

 

Índia da pele morena,

Sua boca pequena eu quero beijar

Índia, sangue tupi,

Tem o cheiro da flor

Vem, eu quero lhe dar

Todo o meu grande amor.

 

Quando eu for embora para bem distante

E chegar a hora de dizer adeus,

Fique nos meus braços só mais um instante,

Deixa os meus lábios se unirem aos seus!

 

Índia, levarei saudade

Da felicidade que você me deu

Índia, a sua imagem sempre comigo vai,

Dentro do meu coração,

Flor do meu Paraguai!

(M. Ortiz Guerrero-José Asunción Flores-

                                     vs, José Fortuna)

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