Gonçalves Viana: ‘Os pregões que vêm da rua’

13/06/2019 08:44

 

Gonçalves Viana

Os pregões que vêm da rua

Dorival Caymmi

Os vendedores de rua se utilizam pregões, para anunciar suas mercadorias. São gritos que se apegam à nossa mente e não mais saem. Reconhecemo-los de longe. Tal recurso não poderia deixar de ser utilizado pelos compositores do nosso cancioneiro. Na música, o pregão é tomado como ponto de partida para um quadro sonoro digno de ser lembrado.

Foi exatamente o estilo empregado, no ano de 1939, por Dorival Caymmi, no samba “A Preta do Acarajé¹, em que fez registrar, no selo do disco, a esclarecedora indicação: “cena típica baiana”. Nessa obra, gravado por ele, com Carmen Miranda, ele fazia a preparação da cena: “Dez horas na noite / na rua deserta / a preta mercando / parece um lamento”, aí entrava a voz da cantora, imitando o pregão da vendedora: “Oôô acarajé é bom / Ia Ia iô / vem benzêêê / tá quentinho…”.

Theo de Barros Filho

No que se refere ao aproveitamento do som dos refrões na música popular, na década de 1960, o paulista Theo de Barros Filho lembrou-se de evocar o tema em sua composição “O Menino das Laranjas² no grito de um pequeno vendedor:

“Compra laranja, laranja, laranja, doutor,

 Ainda dou uma de quebra pro senhor”

Algum tempo depois, Jorge Ben – ainda não era Benjor – praticamente copiou Theo, quando compôs o samba-rock “O Vendedor de Bananas³, cujo refrão era:

“Olha a banana

 Olha o bananeiro”

Heitor dos Prazeres

Porém o aproveitamento musicalmente mais bem sucedido de um pregão, por parte de um compositor popular, ainda seria o de Heitor dos Prazeres, na “Canção do Jornaleiro”, de 1933.

Oferecida ao jornal A Noite, do Rio de Janeiro, que se batia pela criação de um órgão de assistência aos meninos vendedores de jornais da, então capital do País. Heitor dos Prazeres transformou o pregão de “Olha A Noite…” dos próprios jornaleiros, num grito tão comovedor, que se tornou capaz de abater a indiferença da população da cidade. Graças em boa parte ao sucesso dessa “Canção do Jornaleiro” (o menino, Jonas Tinoco, comoveria, em 15 de junho de 1933, toda a plateia do Teatro Recreio, cantando-a durante o espetáculo destinado a recolher fundos para a campanha da Casa do Garoto). Os meninos  cariocas, jornaleiros, conseguiram, afinal, a sua instituição, a mesma que, desde 1940, se conhece como Casa do Pequeno Jornaleiro.

Paulo da Portela

Heitor dos Prazeres (1898-1966), compositor e pintor, ficou órfão de pai, aos sete anos. Sobrinho do pioneiro dos ranchos cariocas, Hilário Jovino Ferreira, ganha do tio, seu primeiro cavaquinho. Aos doze anos, trabalha como engraxate, jornaleiro e lustrador de móveis. Vive constantemente em companhia do tio e frequenta a casa das tias baianas, Tia Ciata e Tia Esther, onde tem contato com músicos como Donga (1890-1974), João da Baiana (1887-1974), Sinhô (1888-1930), Pixinguinha (1897-1973), Paulo da Portela (1901-1949) entre outros.

Com boa circulação entre os sambistas, firma relações com compositores da Mangueira, principalmente Cartola (1908-1980) e Paulo da Portela. Por meio dessas relações, Heitor compõe sambas em parceria e participa da fundação de escolas de samba, que se tornaram importantes referências: Mangueira, Portela e Deixa Falar (futura Estácio de Sá).

Em 1927, envolve-se em uma polêmica com o compositor Sinhô, acusando-o de ter roubado partes de seus sambas Ora Vejam Só e Gosto Que me Enrosco – que havia sido gravada como Cassino Maxixe, por Francisco Alves. Sinhô já havia se envolvido em outra questão com o samba Pelo Telefone, que teria sido composto coletivamente nas reuniões, na casa da Tia Ciata, e que ele registrou em seu nome. Sinhô, então, pronunciou a sua célebre pérola: “Samba é que nem passarinho, é de quem pegar”. Porém, no seu caso, Heitor conseguiu indenização e reconhecimento público da parceria.

Consolidado como um dos mais talentosos sambistas da primeira metade do século passado, Heitor dos Prazeres descobriu outro dom, até então adormecido, a pintura. A partir de 1937, Heitor começou a se projetar como pintor e, incentivado pelos amigos, marcou presença em diversas exposições.

Moenda – Heitor dos Prazeres

Um dos pontos mais importantes da sua carreira na pintura foi a Primeira Bienal de Arte Moderna de São Paulo, em 1951, quando ganhou um prêmio pelo seu trabalho Moenda, um dos quadros mais cultuados de Heitor.

Ele foi convidado a participar de uma exposição organizada pela RAF, em benefício das vítimas da II Guerra Mundial, na qual expôs sua tela “Festa de São João”. Esse quadro foi adquirido por ninguém nada menos que, a então Princesa Elizabeth, que veio a se tornar  Rainha da Inglaterra. Com isso a fama do pintor atingiu os píncaros da glória.

Mas voltemos à Canção do Jornaleiro, que Heitor dos Prazeres compôs com toda propriedade, pois, ele mesmo, quando criança, havia sido jornaleiro. Em 1959, Mario Zan gravou o LP “Brincando de Escola com Mario Zan”, onze faixas, cada uma interpretada por um garoto. Dentre as faixas, constava a Canção do Jornaleiro, cantada por um garoto de doze anos de nome Wanderley, e esse era seu primeiro trabalho como cantor profissional. Ele havia começado, amadoristicamente, com dez anos, participando de programas infantis, como “Clube do Papai Noel”, “Grêmio do Sesinho” e “Gincana Kibon”. Aos treze, parou de cantar, pois sua voz estava mudando.

Esse garoto, em 1965, agora com 18 anos, tornou-se um dos grandes ídolos da Jovem Guarda, passando a ser conhecido como Wanderley Cardoso.  

                    

                                  Gonçalves Viana – viana.gaparecido@gmail.com

 

                     Canção do Jornaleiro

Olha a noite! Olha a noite!

Eu sou um pobre jornaleiro,

Que não tenho paradeiro,

Ai, ninguém tem vida assim,

Digo adeus a toda a gente,

Às vezes fico contente,

Ninguém tem pena de mim.

 

Eu vivo sempre a sofrer,

Oh, que destino é o meu,

Eu que fui sempre jogado,

Vou vivendo amargurado,

Oh, que sorte Deus me deu.

Olha a noite! Olha a noite!

Quando o sol vai se escondendo,

Eu vou me entristecendo,

Porque tenho coração

Vivo sempre amargurado,

Como as folhas ao meu lado

Cumpri com a minha missão.

 

Eu vivo sempre a sofrer,

Oh, que destino é o meu,

Eu, que fui tão maltratado,

Vou vivendo amargurado,

Oh, que sorte Deus me deu.

Olha a noite! Olha a noite!

(Heitor dos Prazeres)

NOTAS:

1- “A Preta do Acarajé”, cena típica baiana, samba de Dorival Caymmi, gravado pelo autor em dupla com Carmen Miranda, no disco Odeon 11710, lado B, abril de 1939.

O “vem benzê” do pregão da baiana vendedora de acarajés equivale a dizer: seja o primeiro a comprar, foi feito agora, está quentinho.

2- “Menino das Laranjas” composta por Theo de Barros, com um arranjo melódico que dá beleza à vida cruel de um menino que, tendo sua infância minada, vende laranjas para sustentar a si e à família.

Lançada inicialmente por Geraldo Vandré, sem nenhum sucesso, em seu primeiro LP. Então, Elis Regina gravou-a no seu LP de estreia na gravadora Philips, “Samba eu canto assim”. Foi o seu primeiro sucesso nacional.

3- Na mesma linha do “Menino das Laranjas”, Jorge Ben compôs “Vendedor de Bananas”. Gravada pelo conjunto Os Incríveis, no LP “Os Incríveis” da gravadora RCA Victor de 1969. Tornou-se um mega-hit nacional. Posteriormente Jorge a gravou, e bem depois, Ney Matogrosso também lançou a sua versão. Porém, não obtiveram o mesmo sucesso dos Incríveis.  

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