Gonçalves Viana: ‘O sangue latino dos Secos & Molhados’

25/05/2020 17:41

Gonçalves Viana

O sangue latino dos Secos & Molhados

Secos & Molhados, foi um conjunto de rock nacional surgido em 1973. Era formado por João Ricardo – idealizador do grupo – no contrabaixo, Gérson Conrad, violões de 6 e 12 cordas; nos vocais um desconhecido, um tal de Ney de Souza Pereira, cantor, dançarino e ator, dono de uma voz peculiar, bem andrógina mesmo (posteriormente ele ficou conhecido como Ney Matogrosso). Para a bateria e percussão, eles convidaram Marcelo Frias, que participou apenas da gravação do 1º disco, mas não quis continuar no grupo.

João Ricardo calcou a imagem do grupo em cima da androginia do conjunto norte-americano, New York Dolls e do glitter ou gram rock de Alice Cooper e o grupo Kiss, também com resquícios dos grupos nacionais Dzi Croquetes e Made in Brazil.

Em agosto de 1973, eles gravaram o seu primeiro LP: Secos & Molhados. Nesse álbum eles uniram a poesia de poetas como Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, Cassiano Ricardo e João Apolinário – que era pai do idealizador do grupo, João Ricardo – com danças e canções do folclore português e das tradições brasileiras. O disco trazia músicas que se tornaram sucessos instantâneos, tais como ‘Sangue Latino’, ‘O Vira’, ‘Assim Assado’ e ‘Rosa de Hiroshima’.

A banda, e, por conseguinte, o disco, surgiram em meio à censura radical do que convencionou-se chamar de Ditadura Militar, mas mesmo assim o LP foi um fenômeno de vendas: mais de um milhão de cópias pelo país (mais de 1500 só na primeira semana). O grupo foi oferecido pelo seu empresário, Moracy do Val, a várias gravadoras, que não se interessaram devido ao visual e o repertório da banda, mais por conta da censura então vigente. A Continental, cujo catálogo de disco era mais voltado para a música regional e sertaneja, resolveu apostar nessa novidade. Inicialmente, a Continental produziu apenas 1500 discos, julgando que venderia em um ano: Vendeu em uma semana! Como o mercado vivia uma crise de vinil, a gravadora começou a pegar os discos que não estavam vendendo e derreter para fazer mais cópias do LP.

Ricardo havia visto uma placa de um armazém em Ubatuba, que vendia secos e molhados e criou o nome da marca. Outro lance de puro marketing, foi a maquiagem forte que utilizavam. Mas o ponto antológico, definitivo, foi a capa – em 2001 o jornal Folha de São Paulo a elegeu como a melhor capa de LP de toda a história da MPB – um fotógrafo do jornal Última Hora, Antônio Carlos Rodrigues, produziu uma mesa de jantar com produtos vendidos em armazéns, onde vemos pão, linguiças, grãos de feijão, garrafa de vinho barato, sabonete, enfim: secos e molhados.

O nome do grupo, em cima da mesa, em letras roxas brilhantes. Dentro de bandejas, estão as cabeças de Ney Matogrosso, João Ricardo, Gérson Conrad e Marcelo Frias (o baterista que não aceitou integrar o grupo).

Alguns críticos notam que já na capa do disco existe uma cena e um comprometimento antropofágico, com as cabeças sobre bandejas numa mesa “para o deleite gastronômico dos ouvintes”.

Em 2007, a revista Rolling Stone Brasil posicionou o primeiro LP do Secos & Molhados em quinto lugar na sua lista dos 100 maiores discos da música brasileira. Em 2008 a “Los 250 Essential Albuns of All Time Latin Alternative – Rock Iberoamericano” o colocou na 97ª posição mundial.

Ney Matogrosso

Em fevereiro de 1974, eles realizaram um concerto no Maracanãzinho que bateu todos os índices de público jamais visto no Brasil – enquanto o estádio comportava 30 mil pessoas, outras 90 mil ficaram do lado de fora.

Em agosto do mesmo ano, sai o segundo disco de estúdio da banda, que tinha em destaque ‘Flores Astrais’, único sucesso do disco. Logo em seguida a banda chegaria ao fim, devido a desavenças internas de natureza financeiras.

Após o fim do grupo, os três membros seguiram em carreiras solos. Ney Matogrosso foi o mais bem-sucedido, desenvolvendo uma sólida carreira e mantendo-se em evidência até os nossos dias.

João Ricardo lançou um disco em 1975, sem nenhuma repercussão. Mas como havia adquirido os direitos autorais do nome ‘Secos & Molhados’, lançou vários discos com o nome do grupo, mas com outras formações, porém, sem conseguir sucesso.

Quanto a Gerson Conrado juntou-se à Zezé Motta e lançaram um disco também em 1975. Após isso nunca mais ouviu-se falar dele.

O grupo Secos & Molhados foi um divisor de águas levando o Brasil da Bossa Nova à Tropicália para o rock brasileiro que começou a evoluir nos anos 80. Seus dois primeiros álbuns incorporavam novos elementos à MPB, desde a poesia de poetas consagrados – Vinicius de Moraes, Oswald de Andrade, Fernando Pessoa, entre outros –, o gram ou glitter rock e o rock progressivo. Eles serviram de referência para uma legião de grupos underground, que não se enquadravam nos parâmetros da MPB de então.

As canções desses dois discos iniciais são passadas para frente de geração a geração e até hoje, quase 50 anos depois do fim da primeira formação original do grupo, são frequentemente executadas nas rádio e programas de TV. E volta e meia, artistas atuais apresentam suas versões desse repertório.

 

                                    Gonçalves Viana – viana.gaparecido@gmail.com

 

SANGUE LATINO

Jurei mentiras e sigo sozinho

Assumo os pecados

Os ventos do norte não movem moinhos

E o que me resta é só um gemido.

 

Minha vida, meus mortos,

Meus caminhos tortos,

Meu sangue latino,

Minha alma cativa.

 

Rompi tratados, traí os ritos,

Quebrei a lança, lancei no espaço

Um grito, um desabafo.

E o que me importa é não estar vencido.

 

Minha vida, meus mortos,

Meus caminhos tortos,

Meu sangue latino,

Minha alma cativa.

(João Ricardo / Paulinho Mendonça)

 

 

 

 

 

 

 

 

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