Gonçalves Viana: ‘Negrinha’

12/01/2019 13:15

Adiléia Silva da Rocha, nasceu em 07 de junho de 1930, na cidade do Rio de Janeiro. Desde criança gostava de cantar e sonhava em ser famosa.”

Adiléia Silva da Rocha, nasceu em 07 de junho de 1930, na cidade do Rio de Janeiro. Desde criança gostava de cantar e sonhava em ser famosa.

Aos doze anos, influenciada pelos amigos e convicta de seus sonhos pessoais, resolveu, com a permissão da mãe, inscrever-se num concurso de calouros. Conquistou o primeiro lugar no programa  Calouros em Desfile de ninguém mais nem menos que o super exigente Ary Barroso.

No final dos anos 40 do século passado, ela conheceu um casal rico e influente, Lauro e Heloisa Paes de Andrade, que resolveram ajudá-la a se tornar realmente uma cantora e a levam em diversos lugares frequentados por famosos, e Lauro passa a chamá-la de Dolores Duran.

Sem nunca ter estudado línguas, aprendeu a cantar em inglês, francês, italiano, espanhol e até em esperanto. Dolores jamais estudou canto e música, mas sua voz não precisava de correção através de aulas, havia nascida com o dom da música e o sua missão era cantar.

Ella Fitzgerald

Ella Fitzgerald* durante sua passagem pelo Rio de Janeiro, nos anos 1950, foi à boate Baccarat especialmente para ouvir Dolores e entusiasmou-se com a sua interpretação de “My Funny Valentine” – a melhor que já ouvira, declarou Fitzgerald.

Ela cantava em diversas boates no mais boêmio bairro daquela época, a Lapa, na área central do Rio. Sua fama se espalhou tanto que logo foi contratada pela Rádio Nacional, que era o que a Rede Globo é atualmente, era a rádio mais disputada naquela época, só escolhia os melhores cantores. Qualquer artista brasileiro para fazer sucesso tinha que estar no Rio e na Rádio Nacional.

Certa vez, Dolores estava se apresentando na boate Little Club, era no “Beco do Joga a Chave”, em Copacabana, que se chamava assim por causa de um imbecil que, às quatro da manhã, sussurrou (gritou): “Joga a chave, meu amor!” e quase morreu sufocado pela avalanche de chaves jogadas.

Havia um cavalheiro solitário que ia lá de segunda a quinta – dizia ele que sexta e sábado tinha muita gente – a figura ocupava a segunda mesa depois do microfone. Não olhava nunca para Dolores, mas pedia ao garçom: “Manda a negrinha cantar o Nunca.” E lá ia o garçom falar ao ouvido dela: “O home tá pedindo pra tu cantá aquela do Lupicínio,” Ela cantava, e dali a pouco o sujeito pedia ao maitre: “Alberico, manda a negrinha cantar o Menino Grande.” O Alberico ia lá e falava: “Dolores, o cara quer que você cante aquela do Fernando Lobo e do Antônio Maria. Canta! Ele está tomando uísque escocês de 25 anos.” E ela cantava. Mais ou menos às quatro horas o bom freguês de paletó e gravata, pedia a conta e um sanduíche de filé “para viagem”. Ele pagava e ia embora, deixando o embrulho do sanduíche em cima da mesa, que o garçom tinha que levar para ele até o carro.

Billy Blanco

Dolores, nessa época estava namorando Billy Blanco, e contou essa história para ele, dizendo: “Eu fico fula da vida com esse cara, porque ele vem aqui para me escutar, mas não fala comigo, não diz meu nome; se ao menos dissesse ao garçom, ‘neguinha’…” – mas não, era “negrinha” mesmo!

Billy acrescentou mais um tipo curioso à sua já extensa galeria de tipos exóticos, que vivia a retratar no Rio:

 

A BANCA DO DISTINTO

Não fala com pobre,

não dá mão a preto,

não carrega embrulho,

pra que tanta pose, doutor,

pra que esse orgulho.

A bruxa que é cega esbarra na gente,

e a vida estanca,

o enfarte lhe pega doutor

e acaba essa banca.

 

A vaidade é assim,

põe o bobo no alto e retira a escada,

mas fica por perto esperando sentada,

mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão.

Mais alto o coqueiro,

maior é o tombo do coco afinal,

todo é igual, quando o tombo termina

com terra por cima e na horizontal.

(Billy Blanco)

 

Algum tempo depois, Dolores confidenciou a Billy: “Pô! Cantei olhando pro cara e ele nem se mancou.”

 

NOTA:

* Ella Fitzgerald (1917-1966), foi considerada unanimemente pela crítica e pelos amantes da música em geral, como a maior cantora de jazz de todos os tempos. Transitava majestosa pelos diversos estilos de jazz, desde baladas românticas ao ‘cool’; do ‘bebop’ ao rock (ouça em sua interpretação “Can’t Buy Me Love” dos Beatles, ou “Sunshine Of Your Love” do grupo Cream), acompanhada pelas Big Bands ou nas improvisações em “scat singing”, que ela praticamente inventou.

Para quem não conhece, scat singing, consiste em usar a voz como instrumento nos improvisos. Louis Armstrong também lançava mão desse recurso, Elza Soares, no início de sua carreira musical, chegou a empregar também e muito bem, o scat singing.