Gonçalves Viana: ‘Na glória! Na glória!…’

09/04/2019 08:20

Gonçalves Viana

‘Na glória! Na glória!…’

 

Chorinho (1942) – Candido Portinari (1903 – 1962)

O choro, como já vimos anteriormente, é um gênero de música popular e instrumental brasileira, surgido no Rio de Janeiro em 1870.

O choro ou chorinho, como é popularmente chamado, é considerado a primeira música urbana tipicamente brasileira e reconhecido pela excelência e requinte.

Tem como origem o lundu, ritmo de inspiração africana, à base de percussão, mesclada com gêneros europeus, principalmente a polca.

Apesar de ser originária do lundu, inicialmente, os músicos não utilizavam a percussão. O choro baseava-se na trinca flauta, violão e cavaquinho, denominado de ‘trio de pau e corda’. Com o desenvolvimento do gênero, outros instrumentos de corda e sopro foram incorporados ao trio.

A percussão só foi acrescentada 50 anos após o inicio (~1920). Primeiramente o pandeiro e, posteriormente, a bateria. O piano não se coloca nesse quesito, embora muitos o considerem um instrumento de percussão, outros o julgam como instrumento de corda.

Raul de Barros

Mas o que queremos comentar aqui é sobre alguém que acrescentou o trombone aos instrumentos do choro: Raul de Barros (1919-2009).

Raul era de família muito humilde, filho de pai índio e mãe escrava. Quando menino, gostava de passear pelas ruas do centro do Rio. Ele sempre passava por uma loja de instrumentos musicais, na esquina da rua do Ouvidor, com a rua Gonçalves Dias. Ele ficava olhando, embevecido, para os instrumentos, principalmente os de sopro.

Certo dia, o dono da loja, que há muito vinha observando o entusiasmo do menino com os instrumentos e com os sons que vinham de dentro da loja, aproximou-se e lhe perguntou se tocava algum instrumento, ele respondeu que não, que apenas gostava muito de música.

O dono da loja, com sua experiência e uma enorme intuição, pegou o instrumento mais próximo – um trombone – e insistiu para o menino soprar. Bendita intuição, Raul soprou logo um si bemol. Nascia ali um músico que se tornaria extraordinário mais tarde. O dono, então, emocionado, presenteou o menino com o trombone.

Gilda de Barros

Em 1935, começou a carreira de músico tocando em gafieiras de bairros e subúrbios do Rio de Janeiro. Seu trombone tocava alto na gafieira, a ponto de se tornar um instrumento fundamental em qualquer casa de baile do gênero. Gafieira sem trombone não era mais gafieira.

A partir dos anos 40, trabalhou em várias emissoras de rádios: Tupi, Globo, Nacional, etc. Para participar na Rádio Globo, formou sua própria orquestra que tinha como ‘crooner’ sua esposa, a cantora Gilda de Barros.

Em 1949, compôs o seu famoso choro Na Glória, que se tornaria seu prefixo musical. Esse choro tem uma história muito interessante, se não vejamos:

Um dia, após um show, um velho amigo de Raul, convidou-o para o seu casamento – “Raul, vai ser neste dia, será que você pode ir?” Raul consultou sua agenda de shows e respondeu ao amigo – “Não só vou, como vou compor uma música pra você!” O amigo ficou exultante, afinal Raul de Barros já era um músico muito famoso.

O tempo passou, e Raul esqueceu do compromisso. Quando um dia, seu telefone tocou, era o noivo, já na igreja cobrando sua presença. Raul pediu – “Atrase um pouco a cerimônia, que em alguns minutos estarei aí, mas, onde que é mesmo?” O amigo exasperado respondeu –“É na Glória, é na Glória, Raul!”.

Raul chamou um táxi, onde embarcou, terminando ainda de se vestir e, carregando um reluzente trombone. Falou ao assustado taxista – “Toca voando para a Igreja da Glória, que eu estou atrasado para um casamento!”.

Enquanto o taxista ia a toda, ultrapassando vários sinais vermelhos, Raul ia soprando seu trombone e fazendo anotações numa improvisada partitura, sempre com aquele refrão do amigo martelando em sua cabeça: na Glória, na Glória! Dentro daquele sacolejante táxi, Raul compôs durante o trajeto, uma das músicas instrumentais mais tocada no Brasil. Posteriormente, Ary Santos colocou letra na música.

Miguel Gustavo

Antigamente, qualquer cantor ao afinar sua voz com a orquestra ou com o conjunto, primeiramente entoava o bordão, na glória, a que os músicos ecoavam: Sol-dó-DO. Até hoje, muitos cantores da velha guarda, ainda se valem desse recurso para poderem pegar o tom.

A seleção brasileira de 1970, um das melhores de todos os tempos – nos deu o tricampeonato mundial de futebol – recebeu uma homenagem musical, quem não se lembra: “Noventa milhões em ação / pra frente Brasil do meu coração”. Pois sim! A música é de autoria do nosso Raul de Barros e, a letra é de Miguel Gustavo. Só que ninguém registrou no seu nome, ficou só no nome do Miguel.

Em 1954, Raul gravou uma música que foi considerada por muitos como o primeiro rock brasileiro, Neurastênico!

Em 1955, foi eleito num concurso promovido pela revista O Cruzeiro, como o melhor trombonista brasileiro.

Já em 1960, foi convidado pelo então presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek, para tocar na inauguração de Brasília.

Foi um dos músicos em destaque no LP gravado em 1964 por Sérgio Mendes: Sérgio Mendes e Brasil 66.

Em 1966, participou do Festival de Arte Negra de Dacar, no Senegal; na delegação brasileira também estavam Clementina de Jesus, Ataulfo Alves, Paulinho da Viola, Elton Medeiros. Nesse evento tocou com Louis Armstrong.

Ele acabou influenciando vários outros trombonistas, entre eles João José de Souza, que mudou seu nome, seguindo uma sugestão de Ary Barroso, para Raul de Souza, numa homenagem a Raul de Barros.

Nos seus últimos anos, Raul ficou isolado e esquecido em Maricá, no litoral do Estado do Rio, onde vivia desde os anos 80. Com problemas de saúde e financeiros, os convites foram rareando cada vez mais. Eventualmente, algum músico lembrava-se dele e o chamava, como fez Rildo Hora, em 2004.

Raul de Barros faleceu de insuficiência renal e enfisema pulmonar, em 08 de junho de 2009, aos 93 anos.

Gonçalves Viana – viana.gaparecido@gmail.com

 

NA GLÓRIA

 Meu coração me diz

Que estou vivendo o momento de um sonho feliz

Meu coração me diz

Que esse choro-gafieira é o que sempre quis

Meu coração me diz

Esqueça as mágoas espalhando o amor

E a doce vida é ilusão contida

Nos versos breves desta canção

 

Estou me sentindo assim, na glória

Cantando sempre assim, na glória

Ah! Coração é um luxo ouvir

Seu silêncio por assim dizer

Cantando sempre assim, na glória

Estou me sentindo assim, na glória

Ah! Coração é um luxo ouvir

Seu silêncio assim ser

 

Meu coração me diz

Que estou vivendo o momento de um sonho feliz

Meu coração me diz

Que esse choro-gafieira é o que sempre quis

Meu coração me diz

Esqueça as mágoas espalhando amor

E a doce vida é ilusão sentida

Nos versos breves desta canção

 

(Raul de Barros / Ary Santos)