Gonçalves Viana: ‘Mano a mano con Gardel’

04/07/2018 20:37

“Assim como o samba, o tango começou nas camadas mais humildes, num bairro de descendentes de escravos africanos, mas esse assunto nunca foi bem estudado e compreendido, era quase que um ‘segredo’ guardado à sete chaves pelos argentinos, que faziam questão de enfatizar suas raízes europeias.”

 

Carlos Gardel

Nossos vizinhos, los hermanos argentinos, sempre foram ciosos da sua hegemonia no continente sul-americano. E alardeiam isso aos quatro cantos do mundo.

No futebol, por exemplo, eles inflam os peitos e proclamam orgulhosos e irônicos:

ʖPelé, quien és Pelé? Nosotros tenemos Don Di Stefano, Maradona – aquello de la manito de Diós – e por fin, ¡Lionel Messi, cinco veces El mejor del mundo! Porisso preguntamos ʖQuien és Pele?

Na literatura, dicen los hermanos: tenemos Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares, Julio Cortázar (nasceu em Bruxelas – Bélgica, de pais argentinos), Ricardo Piglia, Ernesto Sabato, Manuel Puig, Silvina Ocampo, Alfonsina Stormi y muchos más. ʖYusted a quien tenes?

De nada adianta citarmos: Machado de Assis, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado, Vinicius de Moraes, eles alegam que não conhecem, nunca ouviram falar.

Em se tratando de música, então, eles chegam às raias do absurdo quando comparam o tango ao samba. Dizem: “O samba não passa de um ritmo bárbaro, selvagem, onde, ao som de tambores, os brasileiros se põem a pular. E depois se zangam quando os chamamos de ‘macaquitos’. Já com o tango, tal não acontece, é um dança sofisticada, elegante, bem aceita em todos os lugares do mundo, especialmente em Paris, na França, desde a década de 20 do século passado”.

Talvez, eles se esquecem ou não fazem questão de lembrar, que o tango, assim como o samba, têm a mesma origem, como também acontece com o blues (e por extensão, o rock) nos Estados Unidos; o fado em Portugal; o flamenco andaluz, na Espanha e a habanera cubana: são todos originários da eterna Mama África.

Assim como o samba, o tango começou nas camadas mais humildes, num bairro de descendentes de escravos africanos, mas esse assunto nunca foi bem estudado e compreendido, era quase que um “segredo” guardado à sete chaves pelos argentinos, que faziam questão de enfatizar suas raízes europeias. Mas, há pouco tempo, o antropólogo Norberto Pablo Círio resgatou esse fato histórico.

Inicialmente, o tango era instrumental e muito interpretado nos prostíbulos de Buenos Aires, nas duas últimas décadas do século XIX (1880 e 1890) e era dançado por dois homens, daí o fato de dançarem com os rostos virados, sem se fitar.

Então surgiu aquele que seria sinônimo de tango: Carlos Gardel. Começou sua carreira aos 17 anos, formando uma dupla com o uruguaio José Razzano. Suas performances, no cabaré Armenoville de Buenos Aires, os tornaram um fenômeno de vendas e público. Em 1925 iniciou uma carreira solo de imenso sucesso, tornando-se o maior cantor de tangos de todos os tempos, um ídolo imortal.

Havia um fato que muito incomodou os argentinos: Gardel, praticamente o criador do tango argentino, ao acrescentar letras àquela música, antes, apenas instrumental e, interpretá-las de modo magistral, não era argentino. Seu nascimento deu-se em 11 de dezembro de 1890, na cidade de Toulouse (França) e seu nome: Charles Romuald Gardés.

Alfredo Le Pera

É aí que nossos hermanos sofrem mais um rude golpe em seu orgulho, pois um dos tangos imortalizado por Gardel, a obra prima “Mi Buenos Aires Querido”, um tango que exalta a capital portenha e o povo argentino, um monumento da música argentina, foi escrita por quem? Alfredo Le Pera, um brasileiro! Abro aqui um parêntese, para tecer um ligeiro comentário: imaginem se “Aquarela do Brasil”, o nosso segundo hino nacional, fosse composta por um argentino, que tragédia não seria?

Alfredo Le Pera, nasceu em 7 de junho de 1900, em São Paulo, no bairro do Bexiga. Era filho de imigrantes italianos que, após seu nascimento, migraram para Buenos Aires em 1902.

Na capital argentina, Le Pera escreveu a maior parte da sua história. Na juventude, estudou Medicina, que abandonou para dedicar-se exclusivamente ao jornalismo.

Le Pera conheceu Gardel no ano de 1932, quando foi convidado pela Paramount para escrever roteiros para os filmes de Garde lem Paris. A partir desse encontro, os dois tornaram-se amigos inseparáveis e Alfredo Le Pera passou a fazer letras para os tangos de Carlos Gardel.

Le Pera era um misto de dramaturgo, escritor, poeta e jornalista. Ele retirou os recorrentes regionalismos portenhos das músicas de Gardel e fez com que as canções ganhassem as paradas de sucesso em outros países, principalmente os de língua espanhola.

Como ele era um homem muito discreto, não buscava o estrelato, preferia ficar sempre atrás das luzes que incidiam sobre Gardel. Bem diferente de muitos que só querem aparecer e procuram a fama a qualquer preço. Isso gerou um esquecimento sobre a importância dele na carreira de Gardel.

Além da já citada “Mi Buenos Aires Querido”, Le Pera é autor de outras músicas importantes e famosas, como: El dia que me quieras, Sus ojos se cerraron, Soledad, Cuesta abajo, Arrabal amargo, Por una cabeza, e muitas outras.

Os dois, Gardel e Le Pera, que foram parceiros em vida, também os foram  na morte. Ambos estavam no trimotor Ford da empresa SACO, que, ao decolar sobre a pista do Aeroporto Las Playas, da cidade de Medelin (Colômbia) desviou e chocou-se com outro avião similar da empresa alemã SCADIA que esperava seu momento para decolar. Era o dia 24 de junho de 1935.

Foram 17 mortos e apenas 3 sobreviventes. As causas do acidente nunca foram esclarecidas. Ambas as empresas aeronáuticas mantinham uma dura concorrência e, além do mais, por trás disso encontravam-se os interesses estratégico-militares dos Estados Unidos e Alemanha.

Criou-se uma lenda, nunca comprovada, que Gardel e Le Pera haviam brigado, talvez, por uma mulher e Le Pera atirou em Gardel, originando o acidente. O que colaborou para alimentar essa lenda, foi o fato de que na autópsia procedida no corpo de Gardel, foi encontrada uma bala. Essa bala realmente existiu, mas já estava há muito tempo alojada em seu corpo.

Na noite de 10 para 11 de dezembro de 1915, portanto quase 20 anos antes, quando ele completava 25 anos e acabara de fazer uma apresentação, envolveu-se em uma briga e acabou levando um tiro. Quem disparou foi ninguém nada mais do que Roberto Guevara Lynch, tio daquele que seria, décadas depois, herói da Revolução Cubana: Ernesto Che Guevara.

 

Gonçalves Viana – viana.gaparecido@gmail.com

 

EL DIA QUE ME QUIERAS

Acaricia mi esueño

el suave murmullo de tu suspirar

¡Cómo rie la vida

Si tus ojos negros me quierem mirar!

Y si es mio el amparo de su risa leve

que es como un cantar

Ella aquieta mi herida todo, todo, se olvida…

El dia que me quieras,

la rosa que engalana

se vestirá de festa com su mejor color.

Y al viento las campanas

dirán que eres mía,

y locas las fontanas se contarán su amor.

El dia que me quieras

No habrá más que armonia

será clara la aurora y alegre el manantial

Traerá quieta la brisa rumor de melodias

y nos darán las fuentes su canto de cristal.

La noche que me quieras

Desde el azul del cielo,

las estrelas celosas nos mirarán passar.

Y um rayo misterioso

Hará nido en tu pelo

luciérnaga curiosa que verá

que eres mi consuelo.

Música: Carlos Gardel

 Letra: Alfredo Le Pera

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