Gonçalves Viana: ‘Ipanema’

09/08/2017 17:30

Gonçalves Viana: ‘IPANEMA’

 

Ipanema é um bairro do Rio de Janeiro que ficou famoso por sua praia recheada de mulheres lindas com seus sumários biquínis (fio-dental) e também por ter sido o berço daquela música que iria desbancar Aquarela do Brasil de Ary Barroso do primeiro lugar de música brasileira, como a mais ouvida e a mais gravada no exterior: Garota de Ipanema, composta por Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Em nível mundial ela perde apenas para Yesterday, dos Beatles.

Em tupi-guarani, Ipanema significa água ruim, fedorenta, imprestável, ou ruim para a pesca – o que não condizia com a realidade da época em que a canção foi composta. O nome do bairro veio do Barão de Ipanema, considerado o fundador da vila em 1894.

O produtor Abrão Medina pretendia montar uma comédia musical intitulada Blimp, nome do personagem principal: um ET que desembarca no Rio, em pleno carnaval, e se encanta com a carioca Umbiguinho. Medina convidou o Tom para musicá-la. Entretanto, a peça não aconteceu, e algumas das canções compostas em 1961 ficaram aguardando o momento de virem à luz, entre elas, Só Danço Samba, Samba do Avião e Garota de Ipanema que, evidentemente, não tinham esses nomes na época.

Tempos mais tarde, Tom voltou a trabalhar na canção, mas não conseguia encaixar uma letra. Então, pediu socorro ao parceiro Vinicius, cuja primeira versão, inicialmente chamada de Menina Que Passa, não satisfez à dupla:

 

Vinha cansado de tudo

De tantos caminhos

Tão sem poesia

Tão sem passarinhos

Com medo da vida

Com medo de amar

Quando na tarde vazia

Tão linda no espaço

Eu vi a menina

Que vinha num passo

Cheio de balanço

Caminho do mar

Vem depressa agora

Que vem vindo

E ela sorrindo

E o mundo está rindo

Por causa do amor

Ah! Por que estou tão sozinho.

Como surgiu a versão definitiva é uma história sobejamente conhecida por todos que gostam da nossa MPB. A dupla estava devidamente instalada a bordo do bar Veloso (hoje, Garota de Ipanema) com seus indefectíveis chopes à mão, quando uma estudante de dezenove anos passa com o uniforme colegial: blusinha branca, gravata azul e saia plissada, também azul. Pouco depois, ela volta já de maiô, para tomar banho de mar. Estava conclusa a canção.

 

 GAROTA DE IPANEMA

Olha que coisa mais linda

Mais cheia de graça

É ela menina

Que vem e que passa

Num doce balanço,

A caminho do mar.

Moça do corpo dourado

Do sol de Ipanema

O seu balançado

É mais que um poema

É a coisa mais linda

Que eu já vi passar.

Ah! Porque estou tão sozinho

Ah! Porque tudo é tão triste

Ah! A beleza que existe

A beleza que não é só minha

Que também passa sozinha.

Ah! Se ela soubesse

Que quando ela passa

O mundo sorrindo se enche de graça

E fica mais lindo

Por causa do amor.

(Tom Jobim – Vinicius de Moraes)

 

Essa música tem muitas histórias circulando ao seu redor, mas eu vou relatar uma, da qual eu me lembro, muito bem, pois eu a assisti na televisão, no momento em que aconteceu:

Na década de 1960, fazia muito sucesso na TV o programa Esta Noite Se Improvisa, no qual o apresentador dizia uma palavra e os competidores (sempre três) deveriam apertar uma campainha e o primeiro que o fizesse, tinha 15 segundos para cantar o trecho de uma canção que contivesse a tal palavra. Os campeões imbatíveis eram Caetano Veloso e Chico Buarque, seguidos de perto por Wilson Simonal. Vinicius, embora um exímio conhecedor de música, não tinha agilidade suficiente para apertar o botão antes dos demais. Em um dos programas o apresentador anunciou a palavra: garota. Os outros titubearam e Vinicius pressionou a campainha em primeiro lugar e lá foi todo fagueiro para o microfone e começou a cantar “Garota de Ipanema”.

A sua alegria durou até perceber que a palavra garota não faz parte da letra, mas só do título. Voltou desconsolado para o seu lugar e nunca mais tentou apertar a tal campainha.

                                                                                                 Gonçalves Viana

 

Tags: