Gonçalves Viana: Crônica ‘Um anjo…’

13/05/2019 11:45

Gonçalves Viana

Um anjo…

Sou voluntário, faço parte de um grupo que realiza mediações, isto é, lê histórias para crianças internadas em Hospitais.

O meu turno é de sextas-feiras, das 19:00 às 22:00 horas, no Hospital Regional de Sorocaba.

Na última sexta-feira, já me preparava para voltar à nossa sala, guardar os livros e ir embora para casa, tranquilo e feliz por ter cumprido com a minha obrigação. Já eram 21:50 horas.

Passando pela Pediatria, vi aquele quarto mal iluminado e pensei comigo: “Não me recordo desse quarto, acho que nunca entrei nele”.

Resolvi dar uma olhada, havia apenas um leito ocupado. Uma garotinha de, talvez, uns cinco ou seis anos, loirinha, muito bonita, cabelos anelados, um verdadeiro anjo.

Como que um halo de luz destacava seu lindo rosto na penumbra do quarto. Ela olhou para mim e sorriu, e, apesar de já estar na hora de ir-me, perguntei: ─ Qual é o seu nome? Ela disse-me: ─ Ângela (“nome apropriado para um anjo, pensei comigo mesmo!”).

─ Você quer que eu leia uma historinha para você?

─ Sim, eu estava esperando pelo senhor, tio!

Então, li várias historinhas para ela e, a cada história, seu rosto se iluminava mais ainda e acentuava-se o sorriso em seus lábios. Fiquei 40 minutos com ela. Até que ela mesma falou: ─ Tá bom tio. Muito obrigada!

Aí, eu falei: ─ Então, tchau, fique com Deus!

Eu já estou com Deus, tio, tchau! – respondeu-me ela. Achei um pouco estranha a resposta, mas não disse nada.

Na saída, olhei o número do quarto: 364 e fui embora com uma sensação que não sabia definir o que era, mas sentia muita paz interior.

Na outra sexta-feira, quando voltei para as mediações, fui antes de tudo procurar a Ângela. Porém, não encontrava o tal quarto 364. Diante disso, fui até a enfermeira e perguntei pela menina. Ela falou-me com um ar triste: ─ Você não soube? Ela morreu na sexta-feira passada!

Um arrepio percorreu-me o corpo todo.

─ Mas, como? Não é possível, que horas foi isso?

─ Ela foi para a mesa de operação às 21:50; às 22:30, ela não resistiu e morreu.

Constatei, estarrecido, que era o mesmo tempo em que eu estive lendo histórias para ela!

─ Mas ela não estava no quarto 364? – perguntei?

─ Não, aqui não tem quarto com esse número, vai até o 362.

Não disse nada a ela e, trêmulo, fui embora para casa; não sei como consegui, só sei que não poderia mais continuar ali, faltava-me forças para tal!

Uma vez em casa, fui me recompondo aos poucos, pondo em ordem a balbúrdia e o turbilhão que se instalaram em minha mente. Fui concatenando as idéias.

E, retomando o controle, pude raciocinar melhor. Bom, se hoje é sexta-feira, dia 20, portanto, sexta-feira passada foi uma sexta-feira 13. Lembrei-me do número do quarto que não existia: 364, e, encabulado, verifiquei que a soma dos seus algarismos também dava 13. Nunca fui supersticioso, mas, sinceramente, não sei o que pensar de tudo isto.

Só não me sai da mente aquele rostinho de anjo sorrindo para mim enquanto eu lia as historinhas.

Fiquei algum tempo afastado sem conseguir realizar o meu trabalho voluntário. Fui voltando aos poucos, mas não mais naquela ala do hospital e nem às sextas-feiras, muito menos numa sexta-feira 13.

 

                                                        Gonçalves Viana (10/2013)

                                                        viana.gaparecido@gmail.com

 

 

                                                                  

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