Gonçalves Viana: ‘Carinhos & Rosas

10/04/2020 21:23

Gonçalves Viana

Carinhos & Rosas

Heloisa Helena

Em 1936, a então Primeira Dama  do país, Darci Vargas – Getúlio Vargas, após ter sido chefe do “Governo Provisório”, de 1930 a 1934, havia sido eleito presidente da república do “Governo Constitucional”, cargo que exerceu até 1937, quando tornou-se  ditador no “Estado Novo”, até 1945 – convocou a alta sociedade carioca para promover um espetáculo no Teatro Municipal, em benefício de uma obra social que atendia crianças carentes.

Esse espetáculo se chamaria: Parada das Maravilhas, onde as socialites que tinham algum pendor artístico se apresentariam. Entre elas estava a jovem e bela Heloisa Helena (1917-1999), que iniciava a sua carreira de atriz, cantora e compositora.

Braguinha – João de Barro

Sem saber o que cantar no espetáculo, ela pediu para o Braguinha, o João de Barro (1907-2006), fazer uma letra para Carinhoso, o samba-choro de Pixinguinha que era muito executado pelos conjuntos de choro nas emissoras de rádio. No entanto, Carinhoso já tinha uma letra, feita por um compositor paulista: Benoit Certain¹, que não recebeu a aprovação de Pixinguinha, que deu total aprovação para a letra do Braguinha.

Heloisa incorporou a música ao seu repertório e cantava-a aonde quer que se apresentasse, mas nunca chegou a gravá-la. Ante o sucesso da nova letra, Pixinguinha, tratou de mostrá-la a Mr. Evans, o todo-poderoso chefão da RCA Victor brasileira, para uma possível gravação. O primeiro a ser convidado foi o maior cantor de então: Francisco Alves (1898-1952), que não se interessou, pois julgava a letra muito simples para o seu gosto. Então, foi procurado Carlos Galhardo (1913-1985), que comprometeu-se a gravar, mas no dia marcado para tal não compareceu nos estúdios da gravadora.

Orlando Silva

Mr. Evans, fulo da vida, falou: — Não grava mais. Não veio gravar, não grava mais! E ele mesmo ordenou que um jovem cantor que estava começando a fazer sucesso, gravasse. Era Orlando Silva (1915-1978), no auge da sua juventude, com uma maravilhosa voz mulata e cheia de cor e som. Em princípio,  Orlando também relutou e chegou a encomendar uma nova letra ao compositor Pedro Caetano (1911-1992). Mas Mr. Evans insistiu na versão de Braguinha.

Ele gravou Carinhoso no lado A, e no lado B, outra música de Pixinguinha, a valsa-canção: Rosa. Eu reputo esse disco – o 78 rpm: nº 34.181 de 28/05/1937 –  o mais perfeito já lançado na nossa música popular.

Pois, normalmente, gravava-se no lado A a melhor música, a mais talhada, a que seria trabalhada para conseguir sucesso, e no lado B. a mais fraca ou seja, qualquer uma, apenas para preencher o espaço (ou “encher linguiça”). Mas nesse caso os dois lados foram de estrondoso sucesso.

Orlando Silva, que já estava sendo considerado um cantor muito popular, começou a granjear cada vez mais sucesso, sendo responsável por grandes audiências das emissoras de rádio, aglomerações impressionantes nas apresentações públicas e recordes de vendas de discos. Vem dessa época o cognome pelo qual ficou conhecido: o Cantor das Multidões.

Segundo o Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), Carinhoso é uma das músicas brasileiras com maior número de gravações, tanto dentro como fora do Brasil. Ao longo de mais de 80 anos, foi registrada por mais de 300 intérpretes.

Walt Disney

Em 1944, Walt Disney estava realizando o filme Você já foi à Bahia e ele gostava muito de Carinhoso, que conheceu quando visitou o Rio de Janeiro em 1941, e queria incluí-la no filme – seria interpretada por Aurora Miranda – mas Aloisio de Oliveira o convenceu a trocá-la por Na Baixa do Sapateiro, já que o filme seria ambientado em Salvador (Bahia), a música teria que ter relação com a Bahia.

Aloisio estava correto, pois essa música do Ari Barroso, também é muito bonita e casava bem com o enredo do filme. Mas, não fosse isso, Carinhoso teria tido um sucesso internacional muito maior.

Quanto à valsa Rosa, Orlando Silva era obrigado a cantá-la em todas as suas apresentações. Só deixou de cantá-la a partir da morte de sua mãe, Balbina Garcia da Silva que a considerava a sua predileta dentre todas as canções gravadas por Orlando. Ele não conseguia nem falar de Rosa sem se lembrar da mãe e chorar.

Realmente, certa vez, no inicio da década de 60 do século passado, Orlando apresentou-se no auditório de uma das rádios de Sorocaba e a platéia em peso pediu que ele cantasse Rosa; ele titubeou, mas começou a cantar: “Tu és divina e gra...” e desandou a chorar convulsivamente. Eu que estava ouvindo a rádio, quase chorei junto.

Em 1950, Carinhoso recebeu uma versão no idioma inglês chamada Love is Like This, composta pelo versionista-mor norte-americano, Ray Gilbert, para o filme Romance Carioca, interpretada pela atriz do filme, Jane Powell.

Já nos anos 70, alcançou grande sucesso romântico, quando foi a música tema da telenovela da TV Globo de mesmo nome: Carinhoso. Era interpretada pelo músico Márcio Montarroyos.

 

Gonçalves Viana – viana.gaparecido@gmail.com

 

CARINHOSO

Meu coração, não sei porque

Bate feliz quando te vê

E os meus olhos ficam sorrindo

E pelas ruas vão te seguindo

Mas mesmo assim foges de mim.

 

Ah, se tu soubesses

Como eu sou tão carinhoso

E o muito que te quero

E como é sincero o meu amor

Eu sei que tu não fugirias mais de mim.

 

Vem, vem, vem, vem

Vem sentir o calor dos lábios meus

À procura dos teus

Vem matar esta paixão

Que me devora o coração

E só assim serei feliz

Bem feliz.

(Pixinguinha / Braguinha)

 

 NOTA:

1- Benoit Certain é um compositor paulista, fez uma letra para Carinhoso e chegou mesmo a cantá-la em um programa radiofônico, mas não recebeu a aprovação do autor da música. Mais tarde, Benoit seria prefeito da cidade paulista de Jundiaí.

Ele não ficou triste com a opinião de Pixinguinha, porque um dos seus orgulhos era o de ter sido o primeiro a colocar letra em Carinhoso. Ele foi autor também de várias marchinhas de carnaval.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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