Gonçalves Viana: ‘Caprichos do destino’

06/08/2018 16:52

“… certa vez, Pedro Caetano foi a uma festa, onde um pequeno conjunto de baile fazia a animação, de repente, o baterista, que também era o crooner, começou a cantar Pedra Que Rolou. O amigo que acompanhava Pedro disse ao crooner: ─ Essa música que você está cantando é do meu amigo, aqui, Pedro Caetano!”

 

Ele nasceu em 1º de fevereiro de 1911, sua família morava numa fazenda em Bananal/SP, mas somente no dia 24 é que seu pai foi registrá-lo. Ele havia escolhido o nome de Pedro Waldyr Caetano, porém, o escrivão anotou o nascimento, na data do registro, e o nome como Pedro Walde Caetano. Seu genitor, homem do campo, que não ligava para esses detalhes, deixou por isso mesmo.

Pedro, com doze anos, foi para o Rio de Janeiro, onde começou a trabalhar numa sapataria, como vendedor, mantendo, também, o hábito de fazer músicas.

Silvio Caldas

Em 1934, Sylvio Caldas se interessou em gravar um samba-choro de sua autoria, Juramento Falso, e disse que iria gravá-la na semana seguinte, no entanto, essa semana seguinte foi se prolongando tanto que essa gravação só foi acontecer vinte anos depois.

Enquanto isso, esse samba foi gravado por muitos cantores, mas com o nome de Pedra Que Rolou, pois nessa época, Orlando Silva gravou, com muito sucesso, o samba de J. Cascata e Leonel Azevedo, Um Juramento Falso.

Pois bem, certa vez, Pedro Caetano foi a uma festa, onde um pequeno conjunto de baile fazia a animação, de repente, o baterista, que também era o crooner, começou a cantar Pedra Que Rolou. O amigo que acompanhava Pedro disse ao crooner: ─ Essa música que você está cantando é do meu amigo, aqui, Pedro Caetano!

No intervalo, o cantor, que se chamava Claudionor Cruz, foi até ele e, apresentando-se, disse que gostava muito de música, e que também compunha. Nascia ali, uma prolífica dupla de compositores, com inúmeros sucessos, que acabaram por se tornar clássicos da MPB.

Orlando Silva

Uma das primeiras composições da dupla – um megassucesso – foi a valsa Caprichos do Destino, magistralmente gravada por Orlando Silva, em 30/07/1937.

Claudionor havia composto uma valsa muito triste, e pediu para Pedro fazer uma letra para deixá-la um pouco mais alegre, mas Pedro construiu uma letra mais triste ainda. Pois o trecho “Sou um covarde bem sei / O direito é levar a cruz até o fim / Mas não posso / É pesada demais para mim”, sugere a intenção quase explícita de suicídio. Foi o que bastou para criar-se a lenda de que o autor havia se suicidado.

 

CAPRICHOS DO DESTINO

Se Deus um dia

olhasse a Terra e visse o meu estado

decerto compreenderia

o meu viver desesperado

E tendo Ele em suas mãos

o leme dos destinos não me deixaria

a cometer desatinos…

É doloroso

mas infelizmente é a verdade

eu não devia nem sequer

pensar numa felicidade

que não posso ter,

mas sinto uma revolta

dentro do meu peito

É muito triste não se ter

direito nem de viver

Jamais consegui um sonho ver concretizado

por mais modesto e banal sempre me foi negado

Assim, meu Deus, francamente devo desistir

contra os caprichos da sorte eu não posso insistir

Eu quero fugir ao suplício a que estou condenado

eu quero deixar esta vida onde fui derrotado

Sou um covarde, bem sei,

que o direito é levar a cruz até o fim

mas não posso, é pesada demais para mim!

 

Um dia, Pedro estava em um bonde, quando embarcou um grupo de colegiais, que se sentaram no banco em frente. Uma delas começou a cantar: “Se Deus um dia olhasse a Terra e visse o meu estado…” Outra a interrompeu imediatamente: “Não cante isso, pelo amor de Deus, eu fico toda arrepiada! O autor dessa letra suicidou-se, coitado.”

Pedro achou muita graça e resolveu fazer uma brincadeira. Inclinando-se, bem juntinho ao ouvido de uma delas, falou com voz rouca e cavernosa: “O autor dessa valsa sou eu!”

Elas se apavoraram e quase saltaram do bonde em pleno movimento, até que perceberam que não se tratava de nenhum fantasma.

Certamente o que contribuiu para o fortalecimento da lenda, foi a interpretação memorável de Orlando Silva. No dia 12 de setembro de 1937, um sábado, aconteceu a inauguração daquela que representaria, para a época, o que a Rede Globo significa atualmente: a Rádio Nacional. Esse evento se deu no edifício A Noite, um amplo auditório, uma novidade sem igual, no país. Tendo um palco feericamente iluminado ao estilo dos grandes teatros de variedades.

Os aplausos se repetiam a cada apresentação, transcorria o espetáculo de grandiosa produção e beleza. As atrações de maior brilho apresentar-se-iam após as 21 horas, entre elas, Orlando Silva e Francisco Alves, que fechariam o evento, com um grandioso recital.

Quando chegou sua vez, Orlando Silva aproximou-se do microfone, olhando-o com ternura e acariciou lhe a haste metálica, na deixa dos violinos e o arremate da harpa, ele entoou a canção com uma voz clara, muito bonita e de ampla sonoridade, que aqueles equipamentos moderníssimos – para então – valorizaram-na ainda mais.

O modo como percorreu os versos iniciais despertou a plateia, pois os números apresentados até aquele momento foram humorísticos ou dançantes. Agora aquele jovem, de ar grave, envolvido por uma vaga tristeza, soluçava, ao cantar os versos melancólicos, como nunca se ouvira antes. Um frisson parecia percorrer as pessoas da plateia.

Se Deus um dia olhasse a Terra e visse o meu estado…

O soluço que Orlando Silva, pela primeira vez, empregava com estudada intenção, servia para a formação de um clima sentimental. Nesta primeira parte da canção, todos perceberam o cantor se entregando ao delicioso delírio dramático, valendo-se desse recurso para obter um resultado muito sedutor.

No trecho “mas sinto uma revolta / dentro do meu peito…”, ele levou a plateia a uma profunda emoção, e uma mulher, sentada na segunda fila, mordia os lábios acompanhando a voz descrever a sequência em falsete de pura meia voz. Mas as coisas não ficariam por aí, o peso da letra era inegável, de forte apelo dramático, porém, pesou mais a sincera tristeza que emanava de sua figura frágil, olhar magoado, além da incrível inflexão de sofrimento real que conseguia imprimir nas modulações da voz.

A reação foi num crescendo até que várias pessoas eram vistas chorando na plateia, assim como as milhares que ouviam, em suas casas, conforme se constatou pela correspondência chegada, nos dias seguintes. Com a voz soluçando, quase em desespero, nas passagens finais, com seu fatalismo e sugestão explicita de suicídio, as pessoas foram levadas ao auge da comoção. E nada foi capaz de impedir a surpreendente reação da mulher da segunda fila, quando Orlando soluçou emocionado, a estrofe final: “é muito triste não se ter direito nem de viver”. Ela, num estado de completo descontrole emocional, gritou: “ ─ Não, não, não faça isso. Não se mate, não!’.

Entre lágrimas, explodiram os aplausos, que fizeram estremecer o enorme auditório, repercutiu no palco e em todas as dependências da rádio, onde muitos artistas e funcionários levaram um enorme susto, sem saber o que estava acontecendo. Alguns chegaram a pensar que estava começando um desabamento.

Era uma consagração pública, como jamais se vira um cantor conquistar com uma breve exibição. Atrás do palco, um fato inusitado, os companheiros e funcionários eram possuídos da mesma euforia, e aplaudiram delirantemente. Oculto do público, nas coxias, Francisco Alves batia palmas emocionado. Os músicos da orquestra socavam o chão com os pés e o maestro se espichava para apertar a mão do jovem cantor.

A festa prosseguiu, mas num nível bem inferior, embora com atrações de conhecidos artistas. No dia seguinte, era só do que se falava na cidade. Nas casas, nos botequins, nos bondes. Todas as conversas giravam em torno da inauguração da Rádio Nacional e a apoteótica apresentação de Orlando Silva, um pouco antes de ele completar 21 anos, e já fazendo jus ao cognome que lhe seria imputado posteriormente: “O Cantor das Multidões”.

 

Gonçalves Viana viana.gaparecido@gmail.com

 

 

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