Gonçalves Viana: ‘Cálice’

17/11/2018 14:36

Gil, então, compôs o refrão, insistente e obsessivo da súplica – retomada do grito de Jesus no momento da agonia, que antecede a Paixão: Pai, afasta de mim esse cálice.

Era maio de 1973, a Polygram planejava fazer um grande evento, com todos os seus contratados, seria chamado de Phono 73.

O show seria realizado no Anhembi, São Paulo, teria o formato de encontro entre os artistas, isto é, formariam duplas para se apresentarem. Foi dado a Gilberto Gil e Chico Buarque a incumbência de compor e cantar uma música em dupla.

Chico Buarque

Era Semana Santa e eles (Gil e Chico) combinaram de se encontrarem no sábado, no apartamento do Chico, na Rodrigo de Freitas. Gil queria levar alguma coisa já pronta, para desenvolverem juntos, então, na véspera, começou a dar tratos à bola, para ver o que conseguiria. Como era Sexta-Feira da Paixão, veio-lhe a ideia do calvário e do cálice de Cristo.

Então, seduzido pela imagem do Cristo pregado à cruz, dizendo estar com sede, e que lhe foi servido vinagre, o qual recusou, e desconsolado, questionou: Eli, Eli, lama sabactâni? Isto é, Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste? Gil, então, compôs o refrão, insistente e obsessivo da súplica – retomada do grito de Jesus no momento da agonia, que antecede a Paixão:

Pai, afasta de mim esse cálice.

Lembrando que sempre que ia à casa de Chico, este lhe servia uma bebida amarga chamada Fernet – de origem italiana – da qual ele, Chico, gostava muito, assim, com esse mote, fez a primeira estrofe:

Pai, afasta de mim esse cálice,

Pai, afasta de mim esse cálice,

Pai, afasta de mim esse cálice,

De vinho tinto de sangue.

Gilberto Gil

No sábado, quando Chico ofereceu-lhe a bebida, Gil apresentou o que tinha feito, cantarolando o refrão. Quando chegou à palavra cálice, imediatamente Chico intuiu tudo aquilo que a paronomásia podia render, a associação com cale-se, o que levava a um sentido de censura.

Eles trabalharam, então, na musicalização da estrofe que Gil havia feito. Chico acabou fazendo duas estrofes e Gil, mais uma, totalizando assim quatro estrofes, todas com oito versos decassílabos cada. Como não apresentavam um encadeamento linear entre si, decidiram intercalar as estrofes, ficando Gil com a primeira e a terceira, e Chico com a segunda e a quarta.

Muito bem, tudo pronto, foram para o show, onde ficaram sabendo que a música havia sido proibida. Decidiram cantá-la sem a letra, entremeada com palavras desconexas. Desta vez a Censura teve por aliada a própria gravadora que organizava o evento. Quando começaram a cantar, o microfone de Chico foi desligado, ele tentou outro, que também foi desligado – e assim sucessivamente, até que desistiu, dizendo: “Já que não pode, vamos ao que pode”, e cantou Baioque.

Pois sim, para que ninguém ouvisse “cale-se”, a censura levou aquelas três mil pessoas presentes ao show, a verem o “cale-se” dramaticamente concretizado nos microfones desligados.

Delfim Neto

Quando, em 1978, a canção foi liberada, Chico incluiu-a no seu LP “Chico Buarque”, tendo sofrido censura de lugares antes inimagináveis: bispos da mesma igreja que – através da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – criticava a existência, em toda a América Latina, de uma doutrina de segurança nacional que castrava as liberdades individuais, proibiram a execução da música em qualquer evento religioso.

Quinze anos depois, em uma entrevista ao jornal Correio Brasiliense, Chico comentou:

“Às vezes, eu mesmo não sei o que eu quis dizer com algumas metáforas de músicas como ‘Cálice’: por exemplo, disseram que o verso ‘de muito gorda a porca já não anda’, era uma crítica ao Delfim Netto, que era ministro e gordo”. Indagado sobre o real significado, respondeu: “Não faço a menor ideia [risos] esse verso é do Gil”.

Gonçalves Viana – viana.gaparecido@gmail.com

CÁLICE

Pai, afasta de mim esse cálice

Pai, afasta de mim esse cálice

Pai, afasta de mim esse cálice

De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga

Tragar a dor, engolir a labuta

Mesmo calada a boca, resta o peito

Silêncio na cidade não se escuta

De que me vale ser filho da santa

Melhor seria ser filho da outra

Outra realidade menos morta

Tanta mentira, tanta força bruta

Como é difícil acordar calado

Se na cidade da noite eu me dano

Quero lançar um grito desumano

Que é uma maneira de ser escutado

Esse silêncio todo me atordoa

Atordoado eu permaneço atento

Na arquibancada pra a qualquer momento

Ver surgir o monstro da lagoa

De muito gorda, a porca já não anda

De muito usada a faca já não corta

Essa palavra presa na garganta

Esse pileque homérico do mundo

De que adianta ter boa vontade

Mesmo calado o peito, resta a cuca

Dos bêbados do centro da cidade

 

Talvez o mundo não seja pequeno

Nem seja a vida um fato consumado

Quero inventar o meu próprio pecado

Quero morrer do meu próprio veneno

Quero perder de vez tua cabeça

Minha cabeça perder teu juízo

Quero cheirar fumaça de óleo diesel

Me embriagar até que alguém me esqueça

(Chico Buarque / Gilberto Gil)

 

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