Gonçalves Viana: “Billy, ‘The Kid’, o Blanco”*

10/02/2019 21:03

William Blanco Abrunhosa Trindade, aliás, Billy Blanco, arquiteto e doutor em samba. Nasceu em Belém do Pará, em 08 de maio de 1924.”

Billy Blanco

William Blanco Abrunhosa Trindade, aliás, Billy Blanco, arquiteto e doutor em samba. Nasceu em Belém do Pará, em 08 de maio de 1924.

Muito cedo demonstrou inteligência musical e pediu um violão ao pai. Mas, o pai não concordou: ‒ Se você quiser aprender tocar violino, eu deixo. Violão, nunca! É coisa de desocupado, de malandro!

Ante a insistência do garoto, o pai acabou cedendo, e ele foi aprender com um famoso professor, novas posições no violão.

Seu ‘debut’ como violonista aconteceu durante a apresentação de um conjunto musical, no Cassino Marajó, o violonista teve um mal súbito e Billy o substituiu. Recebeu por isso, uma pequena fortuna, para a época. Mais que o triplo do que ganhava por auxiliar o pai que era professor e diretor na Escola Técnica de Comércio.

Em 1942, matriculou-se na Escola de Engenharia do Pará, mas cursou somente dois anos. Em 1945 já estava matriculado na Engenharia do Mackenzie. Era o cumprimento de um vaticínio que o pai vinha lhe fazendo há muito tempo:

Quando você crescer, meu filho, vai estudar no Mackenzie e se casar com uma paulista.

No ano seguinte, concluindo que engenharia não era o seu forte, mudou novamente, foi cursar arquitetura.

Nessa época estava acontecendo a Mac-Med, tradicional competição esportiva entre os alunos do Mackenzie e da Faculdade de Medicina da USP. Billy foi convidado a dirigir a parte musical do show de abertura. Sua fama foi crescendo no Mackenzie. Para ele – que já vinha compondo muitas músicas – se tornar um artista de verdade, só faltava ter uma música gravada.

Então, buscando mais oportunidade, em 1948 transferiu-se para a Faculdade de Arquitetura do Brasil – depois Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Então, sua música mudou de estilo, pois ao cantar seus amores pelo Rio e as peripécias da extensa galeria de tipos e coisas peculiares, que iam desde o malandro e a gafieira até o grã-fino e a boate, passando pelo camelô, os concursos de miss, as promessas de políticos candidatos, acabou por criar um tipo particular de samba.

Esse novo tipo, o seu amigo Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, batizou de “samba de costumes”. E isso, Billy sabia fazer como ninguém, com muita verve, picardia e com uma fina e irreverente ironia.

Certa vez, observando o andamento dos trabalhos no salão da Estudantina² no Rio, Billy assimilou e guardou na ideia, para ‘ruminar’ em outra oportunidade, qualquer coisa sobre o comportamento dos cavalheiros na gafieira.

Ele trabalhava no então Departamento de Correios e Telégrafos, e certa tarde, quando estava projetando e desenhando, uma nova agencia postal – naquela época, não existia computador com seus programas de Auto-Cad, então os desenhos eram feitos manualmente na prancheta em papel vegetal, com tinta nanquim – aflorou a inspiração.

Para não esquecer a letra e a melodia, escreveu no vegetal, com nanquim e tudo. É claro, teve que redesenhar o projeto que já estava quase pronto, mas valeu a pena. O “projeto” da música existe até hoje, enquanto aquela agência há muito já foi demolida.

O “projeto” musical ficou assim:

ESTATUTOS DA GAFIEIRA

Moço, olha o vexame,

o ambiente exige respeito,

pelos estatutos da nossa gafieira,

dance a noite inteira,

mas dance direito.

 

Aliás, pelo artigo 120,

o cavalheiro que fizer o seguinte:

subir na parede,

dançar de pé pro ar,

morar na bebida sem querer pagar,

abusar da umbigada de maneira folgazã,

prejudicando hoje o bom crioulo de amanhã,

será distintamente censurado,

se balançar o corpo

tá na mão do delegado.

(Billy Blanco)

Jorge Veiga

Esse samba foi gravado originalmente por Inezita Barroso, mas fez enorme sucesso na voz de Jorge Veiga.

Se a plebe mereceu o seu estatuto, a elite merecia um também, então Billy compôs, “Estatutos de Boate”. Foi procurar a Indústria Farmacêutica Sidney Ross, que ia lançar no mercado o Sonrisal e mostrou a letra, mas os experts acharam que o assunto iria prejudicar as vendas, porque falava em uísque, então em vez de Sonrisal, ele usou sal de fruta, mesmo. Que todo mundo sabe qual é. Conclusão, o Eno vendeu pra valer, os discos da música se esgotaram, e o Sonrisal ficou dois anos falando sozinho.

 

ESTATUTOS DE BOATE

Gafieira de gente bem é boate,

onde a noite esconde bobagem que acontece,

onde uísque lava qualquer disparate,

amanhã um sal de fruta e gente esquece.

 

Vamos com calma,

olha o respeito,

trate do corpo, que a alma

não tem mais jeito,

o estatuto não prevê, mas eu lhe digo,

traga sua mulher de casa

e deixe em paz a do amigo.

(Billy Blanco)

Dolores Duran

Esse samba foi gravado com grande sucesso por Dolores Duran, sua namorada na época, em março de 1958.

Billy Blanco faleceu em 08 de julho de 2011. Aos 87 anos, na cidade do Rio de Janeiro / RJ.

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