Gonçalves Viana: ‘A vingança de Lupicínio’

18/02/2019 13:35

Como vimos anteriormente, Lupicínio Rodrigues é a quintessência da “cornitude”. Um dos criadores da música de fossa, da dor-de-cotovelo.”

Lupicínio Rodrigues – Caricatura

Como vimos anteriormente, Lupicínio Rodrigues é a quintessência da “cornitude”. Um dos criadores da música de fossa, da dor-de-cotovelo.

Ele que cantava todas essas dores, chegou até mesmo a classificá-las, quanto à intensidade com que destruíam os corações. Se a dor era pequena, daquelas que no dia seguinte nem lembramos mais, era uma dor municipal. Se fosse mais agressiva e durasse algum tempo para superarmos, era classificada como dor estadual. Já, aquelas que nos atingem mortalmente, que não se esquecem jamais, e nos deixam um sentimento de morte e de dor, essas são as federais.

Diz ele que sofreu muito nas mãos das mulheres. Era um sentimental. Teve muitas namoradas, umas lhe fizeram bem, outras muito mal. As que fizeram mal foram as que mais renderam dinheiro para ele, pois elas inspiravam suas músicas. Das que lhe faziam bem, ele as esquecia-se facilmente. Mas as decepções amorosas, ele as transformava em moedas.

Uma das ‘federais’ que muito rendeu, e foi um enorme sucesso, aconteceu com “Vingança”. Ele estava namorando uma moça, Mercedes, a carioca. Eles viveram juntos por cinco anos. Porém, ela acabou se apaixonando por um rapaz que era empregado dele. Um dia, ela mandou um bilhete para esse rapaz, e este o mostrou a Lupicínio. Sua reação foi juntar suas coisas numa mala e ir-se embora.

Linda Batista

Era época de carnaval. Mercedes endoidou, vestiu uma fantasia de dominó e saiu por toda parte à procura de Lupi, sem o encontrar. Numa madrugada, ela entrou em um bar onde costumavam beber e comer. Foi obrigada a retirar a máscara para comer e o pessoal ali presente a reconheceu e perguntaram: ─ Ué, Carioca, o que você está fazendo aqui, a esta hora? Cadê o Lupi? Aí ela começou a chorar. O Lupicínio estava num bar do outro lado da rua, os amigos chegaram e disseram a ele que encontraram a carioca num “fogo” tremendo, e chorando, perguntava por ele. Aí, ele rogou a pior praga que já tinha rogado na vida. Depois se arrependeu, mas na hora saiu. Estava feito mais um grande sucesso, que foi gravado, em 1951, por Linda Batista.

Um jornal da época comentou sobre essa música: “Acabamos de saber que ‘Vingança’, essa magnífica interpretação de Linda Batista, possui o dom de preparar o clima para a morte. Primeiro uma moça ligou a vitrola e deixou o disco ‘Vingança’ tocar até que, influenciada pela música, abriu o bico de gás e esperou que a morte terminasse com a tristeza de sua vida. Agora soubemos que um rapaz, ainda moço, abandonado pela namorada, que fugiu com outro, fez o mesmo, e com a mesma música. Será que ‘Vingança’ provoca o estado de espírito próprio para o suicídio?”.

 

VINGANÇA

Eu gostei tanto, tanto,

Quando me contaram

Que lhe encontraram bebendo e chorando

Na mesa de um bar

 

E que quando os amigos do peito

Por mim perguntaram

Um soluço cortou sua voz

Não lhe deixou falar

 

Eu gostei tanto, tanto

Quando me contaram

Que tive mesmo que fazer esforço

Pra ninguém notar

 

O remorso talvez seja a causa do seu desespero

Ela há de estar bem consciente do que praticou

Me fazer passar esta vergonha com um companheiro

E a vergonha é a herança maior que meu pai me deixou

 

Mas enquanto houver força em meu peito

Eu não quero mais nada,

Só vingança, vingança, vingança aos santos clamar

Você há de rolar qual as pedras que rolam na estrada

Sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar.

 

Sobre esta música, Augusto de Campos, fez a seguinte análise, que faz parte do ensaio “Lupicínio Esquecido?” publicado no livro “Balanço da bossa e outras bossas”

 

Augusto de Campos

Em Vingança, a fenomenologia da “cornitude” tem todo um desenvolvimento elaborado. Na primeira parte, o tom é de conversa, quase monólogo interior. Raras letras conseguiram tanta criatividade (Garota de Ipanema, de Vinicius, por exemplo).

Eu gostei tanto, / Tanto, / Quando me contaram / Que lhe encontraram bebendo e chorando / Na mesa de um bar. / E que quando os amigos do peito / Por mim perguntaram / Um soluço cortou sua voz / Não lhe deixou falar. / Eu gostei tanto, / Tanto, / Quando me contaram, / Que tive mesmo que fazer esforço / Pra ninguém notar.” Escanção perfeita, cortes justos, como flui!

Na segunda parte, a explosão do ciúme, subindo na escala: “O remorso talvez seja a causa do seu desespero / Ela há de estar bem consciente do que praticou”, e a frase patética: “Me fazer passar essa vergonha com um companheiro / E a vergonha é a herança maior que meu pai me deixou!”

E a maldição final: “Mas enquanto houver força em meu peito / Eu não quero mais nada, / Só vingança, vingança, vingança aos santos clamar / Você há de rolar como as pedras que rolam na estrada / Sem ter nunca um cantinho de seu prá poder descansar.

Augusto de Campos, 1968

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