Gonçalves Viana: ‘À minha maneira…’

20/03/2019 08:02

Gonçalves Viana

Gonçalves Viana: ‘À minha maneira…’

Frank Sinatra

Corria o ano de 1968. Num restaurante de luxo, em Nova York, dois senhores jantavam e conversavam. Um deles, com seus cinquenta e poucos anos, e seus incríveis olhos azuis; o outro, aparentando a metade da idade do primeiro, pertencendo ambos ao mundo do show business.

O mais velho dizia: ─ Tudo bem!  Eu atingi a fama, muitos discos, muitos filmes, muita badalação, mas, e daí? Tudo isso cansa, desgasta. Eu estou enfarado com tudo, não aguento mais, vou abandonar tudo, vou embora. “The end is near…”.

O mais velho era conhecido como “Old blue eyes” ou ainda “The Voice”, era, nada mais, nada menos que, Frank Sinatra. O mais jovem, um dos maiores ídolos da juventude que, aos quinze anos, já havia composto e gravado um disco, até então, um dos mais vendidos na história musical dos EUA, com mais de dez milhões de cópias. Uma canção que ele havia composto para uma garota, da qual gostava muito, mas que não ligava a mínima para ele. Ela se chamava Diana – o mesmo nome da canção – e ele Paul Anka.

Muito bem! O jantar terminou, e cada qual seguiu o seu caminho. Paul foi embora pensando na frase dita por Sinatra, ‘the end is near…’ (o fim está próximo). Então, lembrou-se de que no ano anterior (1967), durante uma tournée na França, ele ouvira uma canção, “Comme d’habitude” com Claude François que, juntamente com Jaques Revaux e Gilles Thibaut, eram os autores. Vendo potencial na canção, comprou os seus direitos, para posteriormente fazer uma versão em inglês.

Claude François

Chegando à sua casa, tendo em mente Frank Sinatra e a sua frase, resolveu fazer uma letra para a aquela canção francesa. Era uma hora da manhã, sentou-se à frente da sua máquina de escrever IBM, e começou com ‘And now the end is near…’. Às cinco da manhã terminou a música e ligou para o Blue Eyes, dizendo entusiasmado: Tenho uma coisa muito especial para você!

No dia 30 de dezembro de 1968, Frank Sinatra entrou nos estúdios da Reprise – gravadora, alias, de sua propriedade – em Los Angeles, e soltou a voz: “And now the end is near…” O nome da canção era My Way, a música mais representativa da carreira de Sinatra.

Elvis Presley

My Way foi regravada à exaustão. Pelo próprio versionista Paul Anka, Elvis Presley, Robbie Williams, Os Três Tenores, Gipsy Singers e, entre outras, existe até uma versão punk, por Sid Vicious, vocalista do Sex Pistols.

No Brasil, também foi sobejamente gravada, em várias versões com diferentes letras: Chitãozinho e Chororó, Cauby Peixoto, Agnaldo Rayol, Demônios da Garoa (versão instrumental, em ritmo de samba), Marcelo Nova, vocalista do grupo Camisa de Vênus (calcada na versão do Sid Vicious) e mais uma infinidade de versões.

Chitãozinho e Chororó

Uma história muito interessante, também sobre essa música, foi protagonizada por um brasileiro. É o seguinte, em 2002, o cineasta Eduardo Coutinho dirigiu um filme documentário chamado “Edifício Master”. Era sobre um antigo e tradicional prédio situado em Copacabana, composto de doze andares, vinte e três apartamentos por andar; portanto, 276 apartamentos conjugados e, em média 500 moradores no prédio todo.

Eduardo Coutinho

Com esse filme, Coutinho ganhou diversos prêmios. Em novembro de 2015, entrou para a lista da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) como um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Para a sua produção, Coutinho e sua equipe ficaram durante três semanas no edifício e entrevistaram trinta e sete moradores, extraindo histórias intimas e pessoais de cada um deles. Apesar de estar localizado em Copacabana, a maioria dos seus moradores pertenciam às classes média-baixa e baixa.

Dentre os entrevistados, chegaram ao Sr. Henrique. É ele o nosso personagem. Quando tinha dezessete anos, um dos seus tios arrumou-lhe um documento como se tivesse 18 anos. Tirou, então, o passaporte e foi para os Estados Unidos, onde começou lavando pratos para sobreviver. Certo dia no aeroporto Idlewild (atual Pres. Kennedy), perguntaram-lhe se ele era porto-riquenho, ao que ele respondeu dizendo ser brasileiro. Avisaram-no, então, que ali eles estavam precisando de alguém que falasse português. No dia seguinte ele já estava trabalhando na Panamerican.

E assim ele foi levando sua vida. Gostava muito de cantar, e seu ídolo maior era Frank Sinatra.

Quando os astronautas voltaram da primeira viajem à Lua, foram recepcionados no Astrodome de Houston e, o Sr. Henrique foi um dos convidados para o evento. Qual não foi a sua surpresa e sua maior alegria, pois, quatro ou cinco cadeiras à sua frente, estava lá, em carne e ossos (mais ossos que carne) o seu idolatrado Frank Sinatra. Apesar dos dois enormes armários que faziam a segurança do ídolo, ele não poderia deixar passar essa oportunidade, chegou e disse: “How are you Mr. Blue Eyes”. Foi muito bem atendido por Frank, e disse-lhe que gostava muito dele, e a música dele que mais adorava era My Way, ao que Frank respondeu: então você vai subir ao palco e cantar pelo menos alguns versos comigo.

Não deu outra, quando Frank Sinatra subiu ao palco, cantou uma ou duas músicas e anunciou: “Bem, agora vou receber para cantar My Way comigo o meu amigo brasileiro, Mr. Henri!”. Foi a glória para o nosso Henrique.

Residindo ainda nos Estados Unidos, Henrique teve três filhos que por lá ficaram. Quando sua esposa faleceu, ele voltou para o Brasil e foi morar sozinho no Edifício Master, onde Eduardo Coutinho o encontrou e tornou pública a sua história, no filme.

Instado por Coutinho, por que razão gostava tanto de My Way, ele respondeu: por que essa música representa a minha vida, “eu fiz tudo o que devia ter feito/ cometi erros, levei pancadas/ viajei por todas as estradas/ vivi uma vida completa/ mas sobretudo, fiz do meu jeito”.

No seu apartamento, no Edifício Master, ele montou um pequeno sistema de alto-falantes, e religiosamente, em dois sábados por mês, às dez horas, ele põe o My Way e canta junto com o Sinatra, para quem quiser ouvir. Se você quiser ouvir também, é só assistir ao filme-documentário “Edifício Master”.

A seguir, transcrevo a letra da versão gravada por Chitãozinho e Chororó, que não é muito fiel à letra que Paul Anka fez para My Way, porém, esta, tampouco, foi totalmente fiel à letra da original Comme D’habitude.

                                                           Gonçalves Viana – viana.gaparecido@gmail.com

 

A MINHA VIDA (My Way)

Eu sei, eu aprendi a me aceitar do jeito que eu sou

Deixei meu coração falar por mim na vida e na canção

Amei até demais, libertei paixões contidas

Mas fiz do teu amor a minha vida

 

Sofri e maltratei, mas insisti nos mesmos erros

E até na solidão eu me agarrei num resto de ilusão

Talvez, fosse melhor deixar pra trás mágoas sofridas

Mas, fiz do teu amor a minha vida

 

Você não vê que eu sou assim, meu coração é dono de mim

Não quer saber se eu vou sofrer,

E o que vai ser se eu te perder

Só quer fazer do teu amor a minha vida

 

Tentei viver pra mim e, te arrancar do pensamento

Busquei novas paixões pra enganar meu sentimento

Voltei e hoje eu sei que para mim não tem saída

Eu fiz do teu amor a minha vida

 

Não quer saber se eu vou sofrer,

E o que vai ser se eu te perder

Só quer fazer do teu amor a minha vida

 

(Claude François-Jacques Revaux-Gilles Thibaut/Paul Anka/

Eduardo Lages-Paulo Sérgio Valle)

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