Glenda Brum de Oliveira: ‘Aprendendo com o Príncipe’

17/03/2022 21:52

Glenda Brum de Oliveira

Aprendendo com o Príncipe

Durante muitos anos critiquei o livro ‘O Pequeno Príncipe’. Achava-o fútil e sem maiores interesses além de uma fábula para crianças.  Eu precisei revisitá-lo, por conta de um trabalho escolar do meu filho. E alguns trechos do livro me despertaram para análises que há muito não fazia. Minha maneira de vê-lo modificou-se.

Algumas frases do livro têm efeito devastador, quando compreendemos sua profundidade. Passamos pela vida com o desejo de felicidade e amor. E por mais que se negue, temos a necessidade da aceitação do outro. Por vezes, ficamos tão centrados nas próprias necessidades e desejos egoístas, que esquecemos que temos responsabilidades, com aqueles que cruzam nosso caminho; com aqueles que andam ao nosso lado. Como diz o livro, “somos eternamente responsáveis por aqueles que cativamos”, por exemplo.

Essa responsabilidade é maior quando cativamos o afeto dos que convivem conosco. A vida não para, os cenários e o cotidiano mudam e as pessoas seguem seus rumos. E nem sempre são iguais aos nossos. Mesmo na distância, pequenos gatilhos de lembranças nos fazem recordar as pessoas que nos cativaram e foram por nós cativadas.

Impossível ser indiferente àqueles a quem o carinho ficou guardado no coração. Impossível não perceber que algo está errado só de olhar, quando olhamos com o coração. E não é de estranhar quando uma lágrima rola, pois somente nos emocionamos com aqueles que nós deixamos nos cativar.

A profundidade das nossas responsabilidades, com aqueles que cativamos, passa batida num mundo superficial e materialista. A Bíblia, há milênios, diz que devemos fazer aos outros aquilo que queremos que nos façam. Se a solidão nos assola, nos esmaga, e por vezes parece nos sufocar, porque não olhar para dentro e encontrar a quem perdemos pelo caminho!?

Podemos começar por encontrar a nós mesmos.  Depois, encontrarmos os afetos que ficaram pelo caminho da vida; nos interessarmos pelos seus caminhos; prestarmos atenção naqueles que partilham ou partilharam nosso caminhar.

Por que não abrirmos as janelas do coração e permitimos que o sol das emoções entre e aqueça? Que retire o bolor das mágoas e a sujeira dos rancores? Se nada há para ser resgatado, então plantemos novas mudas, cultivemos novos afetos, acarinhemos novos corações. Porque convivência trata-se de cultivar sentimentos, também muito bem colocado pelo livro. Muitos correm o mundo atrás de algo especial, sem perceber que tinham ao seu lado um tesouro. Às vezes é possível resgatar essas relações perdidas; em outras situações, as perdemos para sempre.

A dor pode durar uma noite ou uma vida inteira, depende de como a olhamos e cultivamos nosso coração. A dor pode originar muitos espinhos e multiplicar as dores, mas também pode suavizar o olhar e a cobrança sobre o outro; pode trazer o perdão e novas perspectivas. Podemos olhar as rosas, sentir seu perfume e nos encantarmos com suas diversas cores; ou vermos somente seus espinhos e as mágoas por eles causadas. A beleza ou a dor depende dos olhos que as miram.

Impossível não sentir dor, mas passado a aflição, é um sentimento que podemos abandonar a beira do caminho, a fim de superarmos. De cada dor,  deve-se carregar apenas a sabedoria. A amargura deve ser abandonada pela estrada, como pavimentação da nossa jornada de vida.  Apenas as rosas e seus perfumes das boas amizades, do companheirismo, do aprendizado e das vitórias devem ser levados, como bagagem de vivência. E somente o calor do amor deve aquecer nosso espírito.

 

Glenda Brum de Oliveira

glendabrum@gmail.com

 

 

 

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