Geraldo Bonadio: ‘A ordenação de homens casados na Amazônia’

04/11/2019 09:52

Geraldo Bonadio

A ordenação de homens casados na Amazônia

A resistência, velada ou aberta, de alguns segmentos do catolicismo ocidental, ante a sugestão feita pelo Papa Francisco aos bispos reunidos no Sínodo da Amazônia, de se ordenar,  como sacerdotes, naquela área, homens casados, com longa e comprovada experiência como maridos e chefes de família, demonstra, antes de tudo, um enorme desconhecimento daqueles católicos com relação à estrutura de  sua igreja.

A ordenação de diáconos casados é realidade antiga e sólida, em muitas das igrejas católicas orientais, parte das quais se acham presentes e atuantes em nosso país.

Vejamos uma das mais povoadas circunscrições da Igreja Católica em nosso país: a Província Eclesiástica de São Paulo.

Nela encontramos, ao lado da Arquidiocese paulipolitana e de várias dioceses de rito ocidental, a Eparquia de Nossa Senhora do Líbano, que cuida dos católicos pertencentes a Igreja Maronita; a Eparquia de Nossa Senhora do Paraíso, cujo templo principal situa-se muito próximo da Estação Paraíso do metrô Paraíso, a que se vinculam os  Greco-Melquitas e o Exarcado Apostólico para os Fiéis de Rito Armênio. Todas elas vivem em plena comunhão com a igreja Católica Romana, dispõem de governo e ritos litúrgicos próprios e sua jurisdição não se circunscreve aos limites daquela Província Eclesiástica, alcançando  comunidades esparsas por diferentes pontos do continente. Habitualmente, nas celebrações, os fiéis oram em pé e não de joelhos e, no caso dos maronitas, veneram santos – São Charbel, São Maroun – pouco conhecidos dos católicos latinos.

A maioria das igrejas orientais antecedeu à organização da igreja latina, como se verifica pelas viagens de Paulo, narradas nos Atos dos Apóstolos. Tais narrativas se encerram com sua chegada a Roma, ao cabo de intensa atividade focada nos grupos cristãos do Oriente e da Grécia. O cristianismo ali floresceu e se consolidou antes de se difundir no Ocidente. Em muitas dessas comunidades nascidas da pregação dos apóstolos, desde as origens, a formação para o sacerdócio contempla a ordenação de diáconos casados, selecionados, na maioria dos casos, entre os chefes de família mais velhos. A palavra presbítero, hoje utilizada como sinônimo de padre, tem o significado original de ancião, pessoa experiente e, por isso, respeitável. Com a ordenação de homens provados na vida matrimonial e familiar, a igreja na Amazônia, além de atender as necessidades religiosas dos ribeirinhos e indígenas que a povoam, fará de seus novos  sacerdotes inspiração e referência para suas respectivas comunidades.

Sendo a Amazônia um território de enorme extensão, que se estende por diferentes países, com grande parte de sua população dispersa por povoados e aldeamentos muito distantes entre si, a ordenação de presbíteros casados cria, para os católicos que a habitam, a possibilidade de contar com presbíteros que possam celebrar a Eucaristia e atender confissões, funções não delegadas às mulheres. Será, pois, um carinhoso gesto de cuidado e misericórdia, cuja extraordinária importância dispensa demonstração.

Em livreto de 24 páginas sobre “As Igrejas Católicas Orientais”, publicado em 1962 pela Vozes, o teólogo Patrick J. Hamell invoca, logo no início (p. 4) o ensinamento do papa Bento XV (1914-1922):  “A Igreja de Jesus Cristo não é nem latina, nem grega, nem eslavônica, mas católica; portanto não faz diferença entre seus filhos Gregos, Latinos, Eslavos e membros de outras nações que são iguais aos olhos da Sé Apostólica. ”  Pio XII (1939-1958), por seu turno, destaca a importância de os católicos conheceram, na Igreja, “sua beleza arrebatadora na diversidade dos seus ritos. ”

Em resumo: o que o Papa Francisco propõe é apenas e tão somente, que se considere a possibilidade de se estender, aos parâmetros geográficos, históricos e sociais da contemporaneidade, uma diretriz viabilizadora do perene e essencial mandato evangélico do ide e pregai.

 

Geraldo Bonadio

geraldo.bonadio@gmail.com

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