Elza Francisco: ‘O porão da humanidade’

13/04/2019 15:11

Elza Francisco

‘O porão da humanidade’

 

Escola Agrícola – Antônio Arthur de Castro Rodrigues

Há quatorze anos, eu deixava Lavrinhas, Estado de São Paulo, para assumir um novo desafio na Cidade de Itapetininga, no mesmo Estado. Quase quatrocentos quilômetros, longe das minhas raízes.

Ao chegar à Cidade, recebi um diagnóstico da Escola onde seria a minha morada, a minha Missão: a Escola Técnica ‘Professor Edson Galvão’, conhecida como Escola Agrícola. O cenário não se apresentava muito colorido.

Ao chegar ao Bairro Capão Alto, encontrei-me com um belíssimo prédio neocolonial,  inaugurado no dia 05 de junho de 1945, no Governo do Interventor do Estado Fernando Costa, para sediar a Escola Prática de Agricultura “Carlos Botelho” (EPA), na cidade de Itapetininga, Estado de São Paulo.

O Projeto educacional não permaneceu no belíssimo prédio por muito tempo. De 1955 a 1959 o Estado esteve sob o Governo Jânio Quadros e o prédio da Escola foi utilizado para o Instituto Penal. Mais tarde, o prédio abrigou uma FEBEM, com quatrocentos menores infratores.

Em 1969, a Escola da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, foi novamente inaugurada, com a denominação Escola Técnica Agropecuária Estadual “Professor Edson Galvão”.   Atualmente, a Escola Técnica “Professor Edson Galvão”,  da Rede Educacional do Centro Paula Souza.

A importante Escola faz parte do patrimônio histórico educacional de Itapetininga, a Cidade das Escolas.

Faz limite com o Complexo Penitenciário de Itapetininga, incluindo a Fundação Casa e o Assentamento do Bairro Capão Alto.

Trabalhei durante cinco anos na gestão da Escola e residi na casa construída,  para a morada do Diretor da Escola. Foram anos de trabalho incansável e árduo, junto com a equipe pedagógica, administrativa e com os inúmeros e importantes parceiros dos setores público e privado. Ao final, as metas foram alcançadas e a Escola ocupa o seu respeitável lugar na “Atenas do Sul Paulista”.

Longe da minha família, dos meus amigos, da minha terra, com a responsabilidade da gestão da Escola, com alunos de diversos Municípios, morando nos alojamentos, vivi momentos tensos e complexos ao lado do Presídio. Da casa onde eu morava ouvia a conversa dos presos, no silêncio da noite. O medo não foi  um bom companheiro!

Na minha solitude, buscava nas leituras o alento para a insegurança.

Um dia, fui presenteada pelo Vice Superintendente do Centro Paula Souza com um livro de poesias de sua autoria. Esse foi o momento do despertar da minha verve para a escrita, longe dos protocolos formais da burocracia do trabalho.

Comecei a escreve, escrever… começava um novo tempo! Um belo dia, escrevi um texto que me conduziu a um poema.

Assim, nasceu o meu Poeta, que foi chegando de mansinho, devagarinho e, timidamente, tomou o seu lugar na minha vida.

Este é o momento, de muitas alegrias, congratulações e, acima de tudo de gratidão ao Jornal ROL, nas Pessoas dos queridos Hélio Rubens de Arruda e Miranda e Sergio Diniz da Costa. Parabéns pelos vinte e cinco anos do Jornal  ROL!

Às Pessoas que me concederam os seus votos, muito obrigada!

Quero deixar registrado o agradecimento pela acolhida recebida  na  Terra que me tornou sua filha honorária, Itapetininga  e  me possibilitou olhar o mundo com as cores da Prosa e  da Poesia.

Estou muito feliz, agradecida e muito honrada por este especial momento.

Meus agradecimentos, também, à Câmara Municipal de Sorocaba.

Deixo aqui, o meu primeiro texto escrito sob a angústia de viver a escuridão da noite, sem pirilampos, mas povoada pelos assombros dos vizinhos ao lado.

 

O Porão da Humanidade

É sombria a noite.

Sombria e bela.

Reina a magia.

As estrelas brilham,

piscam,

umas mais,

outras menos.

Pura alquimia.

Vou à janela.

Aparece a lua fininha.

É minguante!

Ilumina, junto com as estrelas,

o inferno que esconde

no porão da humanidade.

Três mil homens.

É a crueldade!

A sombra

vai se espalhando.

O medo toma conta

das criaturas que

aqui habitam.

A lua vai minguando.

As estrelas, ainda, piscam.

A sombra paira

no recanto mais bonito,

povoado de mito,

que abriga…

o amor,

a dor,

o terror!

 

(Escrito em 30/05/2006)

Elza Francisco – elza.francisco@uol.com.br

 

 

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