Élcio Mário Pinto: ‘Os pequenos poderes corrompem, absolutamente’

13/12/2018 21:48

“O Barão de Acton, historiador britânico, que viveu entre 1834 e 1902, defendia que o poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente. Disto, concluímos que também os pequenos poderes caem nesta mesma armadilha.”

           Quando em 1997 Taylor Hackford dirigiu o filme “O Advogado do Diabo”, com Al Pacino e Keanu Reeves, na tradução da fala do primeiro, personificando o demônio, disse: “Vaidade, meu melhor pecado”. Nossa tradução para aquela “vaidade” é com o vocábulo “poder”, o que torna-se assunto deste escrito.

O Barão de Acton, historiador britânico, que viveu entre 1834 e 1902, defendia que o poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente. Disto, concluímos que também os pequenos poderes caem nesta mesma armadilha.

Não sem causas convincentes, mais que o papel-moeda, vestimentas, descobertas e produções escritas, o poder sempre fascinou a humanidade.

Viajando para o tempo das lutas nas arenas romanas com o polegar do imperador decidindo pela vida ou pela morte do perdedor até Charlie Chaplin (1899-1977) no filme “O Grande Ditador”, ironizando o autoritarismo de Adolf Hitler, dançando com o globo terrestre, o tema retratado é o Poder.

Mandar parece ser o objetivo humano ainda na infância com o dito: “Quando eu crescer” decidirei por… Seja na hierarquia da força policial ou do tráfico de drogas à cadeia alimentar da Biologia tão bem trabalhada por Charles Darwin (1809-1882) retrata-se o poder.

Afinal, a autoridade revestida de algum poder entende-o dentro de limitações para aplicá-lo em relação ao permitido ou proibido a si e a outrem?

Se respondermos que sim, teremos uma verdadeira compreensão do que seja o poder, diverso do absolutismo. Se respondermos que não, cairemos no entendimento da chamada “síndrome do pequeno poder”, que explica a identificação da autoridade com pequenas decisões compreendendo-as como importantíssimas!

Tal comportamento é conhecido em ambientes de trabalho ou vindo de agentes públicos que entendem-se detentores de muito poder. Seja para conceder algum horário extra, preenchimento de documento ou similares, a autoridade administrativa acredita-se com poder para decisões imprescindíveis, o que pode causar despotismo e sentimento de superioridade, mesmo que, verdadeiramente, não passem de caprichos pessoais, dadas as decisões que nada mudarão as estruturas de funcionamento da organização. É o mesmo que dizer: as decisões importantes já foram tomadas e sobraram as quimeras.

É nisto que identificamos a corrupção absoluta dos pequenos poderes: não alteram, substancialmente nada, mas criam no indivíduo a enganosa ideia de decisão fundamental sobre os demais. Além do engodo, a autoridade equivocada recobre-se de “superioridade” no sentido ruim do termo, qual seja, de negar e impedir por prazer em materializar seu pequeno poder. Isto é lastimável!

Se há alguma cura para tal, é preciso ter consciência e decisão, porque nos ambientes diversos e esparsos, sem vigilância para o melhor a se fazer de atendimento e prestação de serviços, os pequenos poderes alimentarão o egoísta e o autoritário na mesma medida de sua “fome” por manter dependência eterna, numa satisfação consciente do que faz.

Minha dica para combater tal desejo é esta: leia obituário.

 

ÉLCIO MÁRIO PINTO – elcioescritor@gmail.com

(13/12/2018)

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