Élcio Mário Pinto: ‘Apelido’

21/05/2017 20:00

Élcio Mário Pinto: ‘Apelido’

 

Era tradição familiar colocar apelido logo que a criança nascia.

Para tentar escapar ao costume das gerações, às vezes, algumas mulheres decidiam dar à luz em outra cidade, de preferência, na capital. Assim, ninguém visitaria o recém-nascido nos primeiros dias.

Aquela família tinha uma máxima: “Nenê merece três coisas – que babem de orgulho, que a mãe seja a melhor babá que se possa ter e um nome bonito e forte para ser conhecido”.

– Você se lembra do meu bisavô?

– Mas, é claro! Quem poderia se esquecer de seu nome: Epaminondas!

– Isso sim é que é um nome forte!

– E do meu tio por parte da madrinha da vó Atília?

– Sempre gostei dele por causa do nome: Bartolomeu!

Era a conversa que papai e mamãe tinham enquanto pensavam num nome para o menino, que nasceria em breve, na capital, é claro!

E entre Humberto, Jerônimo e Plínio, o casal viajava, com certa pressa, para o hospital, onde a equipe médica esperava.

Assim que todos chegaram, porque a decisão era certa para eles e desconhecida de todos os demais – São Paulo –, com um carro emprestado e a garantia de que o motorista jamais diria qualquer coisa, mesmo que fosse “torturado”, na madrugada do chuvoso mês de março, lá estavam, em frente ao hospital.

Com recepção esperada, tão logo chegaram. A mãe foi para a maca e de lá, nem passou pelo quarto, sendo levada, diretamente, para a sala de cirurgia.

Esta sala também era utilizada para os partos, afinal, vai que alguma complicação acontecesse e ali, o médico contaria com todos os instrumentos para qualquer emergência.

Foi tudo tão bem!!!

O parto normal, a mãe passando bem, o pai desmaiado na cadeira improvisada, tudo como sempre acontece em sala de parto.

Tão logo o médico segurou o pequenino, disse:

– Sem dúvida, mamãe, é um menino cheio de saúde!

A mãe, suando e exausta, assistida por uma enfermeira e muito feliz, só respondeu:

– Obrigada, doutor!

A enfermeira, então, foi acordar o papai na cadeira. Assim que despertou, cambaleando, foi em direção à mamãe, enquanto o médico olhava diferente para o nenê.

Sem que a mamãe percebesse, até pelo seu cansaço, o papai falou:

– Está tudo bem com ele, doutor?

– Com o nenê, o senhor quer dizer?

– Sim, claro, com o nenê!

– Bem, está, mas…

– Mas, o quê doutor?

– Ele não chorou.

– Isso é problema?

– Seria, se…

– Se o quê?

– Senhor papai, sem o choro, os pulmões não se enchem de ar, a criança não respira e como não está dentro da mãe, não há como sobreviver. Ou respira, ou…

– Doutor do céu, nem me diga isso!

– O que foi que aconteceu com o meu pequeno?

Era a mamãe, com suas últimas forças de vida cansada a se recuperar.

– O doutor disse que o nenê não chorou.

– Minha nossa!!! – gritou a mamãe, num sopro de energia acumulada que se acabava.

– Calma, vocês dois! – a fala do médico foi impositiva.

– Como ter calma?

– Senhor papai, eu disse que o menino não chorou, mas, não disse que não respirou.

– Ah, é!?

– É!

– E o que significa?

– Que ele está vivo.

– E viverá?

– Mas, é claro!

– Como pode ser, doutor?

– Bem, ele não chorou como as outras crianças, mas, reagiu com uma tossinha, uma espécie de pigarro.

– Isso é bom?

– Pelo menos, garantiu-lhe a vida. Então, tenho certeza que, por ora, é ótimo!

Quando a mamãe ouviu, já acordada e mais calma, rindo de alegria pelo nenê que passava bem, chamou o papai para perto e disse:

– Ainda bem que não tem ninguém de casa para ouvir isso tudo!

– É verdade. Qualquer um inventaria um apelido para o nosso menino.

Os dois carregando o nenê, olhando para seus traços tão sensíveis e delicados, sorriam um para o outro, enquanto ouviam do médico, que deixava a sala de partos:

– Cuidem bem do nosso “pigarrinho!”

 

ÉLCIO MÁRIO PINTO

21/05/2017

 

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