Eduardo César Werneck: ‘Uma dívida…’

14/01/2019 21:01

“Na década de 60 havia uma mania entre os meninos. O ‘faroeste’… Hoje, as crianças nem imaginam o que seja. Mas, todos nós tínhamos: revólveres, espoletas, espingardas, cinturões com balas… afinal, precisávamos estarmos tais como nossos heróis do gatilho, Bat Masterson, Django, Wyatt Earp, etc…”

Então sonho de consumo da molecada… o Forte Apache !

Neste prédio, na confluência da rua Carlos Varela, com a Av. Nesralla Rubez se localizava a Casa Modesto…

Na rua Dr. Celestino se localizava a Ford, onde hoje por ironia está a Chevrolet…

O Chaparral que eu tanto queria e razão de um “quase” crime !

Na década de 60 havia uma mania entre os meninos. O “faroeste”…
Hoje, as crianças nem imaginam o que seja. Mas, todos nós tínhamos: revólveres, espoletas, espingardas, cinturões com balas… afinal, precisávamos estarmos tais como nossos heróis do gatilho, Bat Masterson, Django, Wyatt Earp, etc…
E principal, não havia menino que não tivesse o seu “Forte Apache” ou “Forte Comanche” para brincar !
Eu tinha o Forte Apache, ganho em um Natal, de meu pai. Em datas importantes sucessivas (natais seguintes e aniversários) fui ganhando outros componentes para o meu Forte. Carroças, índios, suas tabas, mais soldados, cavalos, e tudo o mais que a este brinquedo estivesse relacionado.
Um dia, um de meus amigos de sala (não me lembro seu nome) disse-me que chegara na Casa Modesto, já em seu endereço novo (um prédio na esquina da Carlos Varella com a Nesralla Rubez), a patrulha do “Chaparral”. Este era um dos muitos seriados do período dos “faroestes”.
Fomos juntos, porque ele queira comprar o mesmo, e assim o fez. Fiquei encantado com a patrulha… mais ainda, com o preço… Cr$ 6,50… possível para mim !
Na hora dele pagar, faltaram 10 centavos…
Nem ele e muito menos eu tínhamos tal quantia nos bolsos…
___ “Puxa…”, disse ele…
Então, a moça do balcão, lhe perguntou, onde ele morava, e rápido respondeu:  ____ “a dois quarteirões daqui”…
Ora, que felicidade ! A moça disse-lhe então, “depois você me traz…”… e fez-lhe o embrulho para que ele levasse a preciosidade !
Resolvido (pensei) ! Voltaria no outro dia, pois não poderia perder aquela oportunidade única ! Chaparral…
No outro dia… limpei o cofre (eu tinha um cofrinho), onde guardava minhas moedas… minhas economias… nem eram muitas… Cr 6,50 !
Logo que saí da escola, corri à loja. Peguei o saquinho do Chaparral, fui ao caixa e “derramei” minhas moedas para que a moça conferisse. Que desânimo… na correria na rua, certamente, perdera algumas moedas. Faltavam 70 centavos…
Suspirei… baixei meus olhos (que vontade de chorar)… senti-os úmidos… quase chorei…
A moça do caixa deve ter percebido.
___ “Onde você mora ?”.
Nossa, de repente, ela me deu esperanças ! Se dissesse a ela que morava perto, pegaria mais algumas moedas, mentiria a minha mãe que ia na casa da dona Juju (uma antiga vizinha que por este tempo se mudara do lado de casa para a rua Teodoro Quartim Barbosa), e voltaria para pagar a conta ! Não pestanejei…
___ “Moro pertinho daqui, do lado da Ford…”, que ficava na rua 7, há exatos três quarteirões de onde estava.
Quase pulei de alegria, pois ela falou para que eu trouxesse depois. E assim, cheguei em casa com a minha tropa do “Chaparral”. Juntei as moedas necessárias e pedi a minha mãe para ir à casa da dona Juju… mas…
___ “Hoje não !”…
E agora ?
Por uma estranha coincidência e conspiração maligna, por dias não consegui ir à “Casa Modesto” e pagar a minha conta. Ou minha mãe não me deixava sair, ou então, ela ou meu pai iam me buscar na escola…
A dívida ficou sem ser paga e minha consciência doendo !
Em um fim de semana, próximo, meu pai resolveu ir à Lorena. Viagem difícil. Não tínhamos carro. Íamos de ônibus e Cruzeiro nem Rodoviária possuía. Os ônibus da empresa Pássaro Marrom saíam da rua 2.
Este problema estava me atormentando…
Contei a minha avó, sobre minha situação. Disse-lhe que estava com uma dívida, e não estava conseguindo pagar. Havia um amigo da família presente – o sr. Oscar – então, proprietário da Casa Pacaembu, aqui em Cruzeiro. Ele me disse que conhecia o dono da loja e que iria falar com ele… e falou…
Fez mais, mandou dizer a minha avó (que posteriormente me comunicou) que minha dívida estava devidamente quitada.
Por via das dúvidas, logo que pude, voltei à loja, e procurei a mesma moça que comigo negociara e lhe dei o dinheiro que devia. Ela nem se lembrava de mim… não importava, eu lembrava, e agora para mim, a dívida estava finalmente quitada !

Eduardo César Werneck – drwerneck@uol.com.br