Eduardo César Werneck: ‘Nas Guerras, as loucuras (e os loucos) exacerbam. Em 1932, não foi diferente…’

04/07/2019 09:28

Eduardo Werneck

… Não demora e este pede silêncio absoluto ao cabo. O ‘oriundi’ da velha ‘bota’ fazia pontaria. Quase não respirava…” 

No livro – “A Guerra de 1932” – disponibilizo uma história que inúmeras vezes meu avô Octacílio de Souza Werneck me contou.

Estava o cabo Werneck na trincheira, em Pinheiros (próximo a Cruzeiro), e ao seu lado um soldado com sobrenome italiano… Não demorou e este pediu silêncio absoluto ao cabo. O “oriundi” da velha “Bota” fazia pontaria. Quase não respirava…

O cabo não entendia o que realmente estava acontecendo, e de repente, o soldado aponta ao cabo, um inimigo enchendo seu cantil, no rio, poucos metros abaixo. Permaneceram em silêncio. O soldado sinalizou com o indicador reiterando: “silêncio absoluto”, e voltou-se ao seu fuzil…

Então, escutou-se um estampido. Inacreditável ! O cabo não teve tempo para nada. No rio, caiu o corpo sem vida do infeliz que naquela hora estava tão somente a pegar água para quem sabe matar a sede de alguém que estivesse em sua trincheira…

O cabo do Exército Octacílio de Souza Werneck foi um soldado em luta por um ideal e que “dava tiros para o alto”… Área de anexos

Por esta razão, inúmeras vezes crivei meu avô de perguntas. Tinha ânsia em verdadeiramente saber, se ele tinha matado ou ferido alguém. Se tivera medo… fome… saudades… e tantas outras coisas mais !
Em uma vez, de tanto lhe atormentar, ele me respondeu: “eu dava tiros para o alto”. Conhecendo-o como somente eu na família, como primeiro neto, e eterno primeiro ouvinte, posso afirmar não haver razões para desconfiar disto.

Ademais, na continuidade de sua vida começou a professar o espiritismo (Kardecista) sem nunca tentar convencer ninguém de coisa alguma, e sempre me dizendo “não há salvação sem a caridade”. Morreu pobre, com alguns poucos cruzeiros no bolso, sozinho em uma UTI em Lorena, e segundo a enfermeira que o acompanhou no derradeiro momento, rezando a “Ave-Maria”…

Meu inesquecível avô Werneck participou ativamente da Revolução Constitucionalista de 1932, mas não daquela Guerra suja, que corria em paralelo, e onde sempre povoam os covardes e imbecis…
Quanto ao soldado “oriundi”, faleceu em combate, com um tiro na garganta…

 

Eduardo César Werneck

drwerneck@uol.com.br

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