Eduardo Céar Werneck: ‘Saúde no Brasil… sempre um problema… que diga o Marquês de Paraná…’

04/09/2018 12:11

“…bronquite catarral tratada com… óleo de rícino (um laxante !!!)…”

Comecei a pesquisar a vida de Honório Hermeto Carneiro Leão – Marquês de Paraná –, pelo fim, pois sua morte muito chamou a atenção ! Estranho, mas certamente entenderão…

A última aparição pública ocorreu em 16 de agosto de 1856, e tentou no Senado contraditar o marquês de Olinda, porém sucumbiu. Homem colérico, e famoso por isto (chegara a “bater boca” com o Imperador D. Pedro II !), levantou-se de sua cadeira para responder e, fulminado por violenta dor (seria abdómen agudo?), desmaiou…

A partir daqui, um verdadeiro calvário… e de nada adiantará a imensa fortuna construída ao longo de anos…

Era 18 para 19 de agosto quando acometido por uma bronquite catarral tratada com… óleo de rícino (um laxante !!!) por conselho médico do Dr. M. J. Barbosa.

No dia 20, um ataque hemorroidal (sofrimento antigo), e já neste momento o Dr. Paula Cândido aconselhou “dez sanguessugas ao ânus”… tempos de terapia denominada heroica…

Um dia após, ao quadro se adiciona uma impossibilidade urinária, e mais um médico se soma à equipe, agora o Dr. Antônio da Costa que examinado detidamente o doente conseguiu com “uma algalia de goma elástica” estendida até a bexiga, evacuar aproximadamente 300 ml de urina de cor ligeiramente amarelada.

Para piorar, os esforços feitos pelo “marquês” para evacuar e urinar proporcionou o prolapso do ânus (extravasamento de parte do intestino para fora do organismo). Coitado… não tratado…

No dia 23, o “pulso se tornou febril”… fígado congesto… pulmão direito com obstáculos à respiração, tratados com “12 sanguessugas ao ânus, repetição de óleo de rícino, e dieta de caldos”.

Em 25 de agosto, como nada surtia efeito, chamou-se mais um médico para participar da equipe – o Dr. Valadão Pimentel (profissional famoso à época), e este aumentou para 35 sanguessugas ao fígado e dieta de caldos, com 490cc de sangue, desta forma, sendo retirados daquele organismo extremamente débil.

Medicações laxativas, vomitivas, sangrias, caldos de todos os tipos, e até roletes de cana fervida foram administrados. Se apelou inclusive, para a homeopatia… nesta hora… mesmo assim, nada…

No dia 31, paciente inquieto, respiração oprimida, tosse, expectoração, febre recrudescendo… fizeram uma sangria… e no dia seguinte, repetiram o procedimento…

Em 2 de setembro, uma melhora… para morrer…

Finalmente, em 3 de setembro, duas horas da madrugada, tudo estava perdido… a religião veio prestar os seus sagrados socorros…

Doença de três semanas ! Escândalo à época ! Os melhores médicos que podiam trabalhar, lá estavam, contudo, o paciente morreu sem diagnóstico definido e nem terapia correta. Até hoje há quem afirme como febre tifoide ! No entanto, o paciente morreu de septicemia a partir de uma pneumonia nunca sequer cogitada. Sua morte virou um “case” médico.

A forma de morrer fez com que eu começasse a buscar um pouco sobre a vida deste homem, que pela primeira vez no Brasil (e única) conseguiu fazer uma eleição com voto distrital; que utilizou ideia hoje fartamente conhecida sobre o médico de família para enfrentar uma epidemia terrível de febre amarela “no Recife”, no verão de 1849-1850; e poderia fazer muito mais… poderia…

Sua morte encontrará um similar, décadas depois com Tancredo Neves, mas esta é outra história, para outro dia…, por enquanto, ficamos com as perdas sem sentido e mal explicadas, tal como o que aconteceu com o Museu Nacional…

Isto é o Brasil…

Os médicos que trataram Honório Hermeto. Sobre eles chegou o paciente o dizer: “Estes médicos me matam”.

 

D. Pedro II visitando os doentes na epidemia de cólera-morbo na Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro. Assepsia nenhuma. Loucura ! Honório Hermeto destacado ao seu lado.

 

A foto no leito de morte, com seu corpo em posição improvável, ostentando todas as Condecorações e Méritos recebidos ao longo da vida. Uma última tentativa de mostrar pujança em momento impossível embora necessária à política da Conciliação que vinha promovendo.

 

Honório Hermeto Carneiro Leão – Marquês de Paraná – pouco antes de sua morte.

 

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