Crônica tema ‘Minha mãe e eu’, da colunista Adriana Rocha

13/05/2017 15:58

 

CRÔNICA TEMA ‘MINHA MÃE E EU’:

Nesta emocionante crônica, a colunista Adriana Rocha aponta, nas falhas, defeitos e tropeços exacerbados de sua mãe, justamente a divindade dela

 

‘Minha mãe e eu’

 

Preciso da distância para vê-la melhor! Somos tão diferentes que nos tornamos parecidas e talvez resida neste ponto a minha dificuldade de conviver tão próximo: não é fácil ver no outro (espelho) o reflexo do que somos…

Para longe dos clichês, a relação mãe e filha não costuma ser tranquila, tampouco pacífica. Não foi e não é diferente conosco. Amor e frustração se mesclam de forma escandalosa.

Não acredito no sentimento incondicional: mães têm condições sim,   mas são impedidas de exigi-las, porque foram cobertas pelo “manto cultural”  da santidade. Mas minha mãe sempre foi tão humana! E foi exatamente em sua humanidade exacerbada pelas falhas, defeitos e tropeços que ela se tornou divina para mim…

Aprendeu a tocar violão e fizemos belas canções juntas. Brincou comigo debaixo da mesa, na minha caverninha secreta na sala (mesmo que comprometesse toda a estética). Contou histórias belíssimas e me ninou muitas vezes.

Mas, de toda nossa trajetória, o que mais me marcou foi sua capacidade em me ouvir. Eu, a menininha tagarela, que “falava pelos cotovelos”,  nunca ouvi de minha mãe um “cala a boca”. Tenho certeza que essa postura me levou para os caminhos do diálogo.

Nice não é uma mulher que fala muito (talvez porque meu pai e eu dificultássemos sua manifestação). Alguns a acham séria e fechada, até mesmo carrancuda, porém quem a conhece sabe o quanto nada disso se revela no dia a dia. Sua rotina é de cuidados e sempre para o outro: para meu pai, meu irmão, meu avô, meus tios, a comunidade em que participa e a quem mais precisar. Não é sem razão que minha avó Aparecida quis estar com ela no momento em que deixou este mundo: elas estavam conversando!

Precisei cortar o cordão umbilical para entender a importância da maternidade. Optei por não ser mãe, mas jamais abdicaria do meu posto de filha! Porque Nice é intensa, ainda que calada. Quer entender o que está muito longe e quer deixar tudo bem perto, para ser sentido, vivido e experimentado.

Ela, ainda que o faça com carinho, não é das que se destacam pelo alimento que preparam. Ela não teve uma profissão, embora pudesse exercer, brilhantemente, qualquer uma que escolhesse.

Seu potencial controlador (que mãe não o tem?) se esvazia na ação carinhosa de quem quer simplesmente amar.

Saiba, Nice, que não foi você quem me escolheu para ser sua filha, FUI EU quem a escolheu para ser minha mãe!!!

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