Claudio Bloch: 10 moleques morreram queimados e nós precisamos falar sobre isso!

11/02/2019 14:55

Claudio Renato Bloch

10 MOLEQUES MORRERAM QUEIMADOS. E NÓS PRECISAMOS FALAR SOBRE ISSO!

O Flamengo tem um dos times mais caros do Brasil. Neste começo do ano trouxe os maiores reforços do país, investindo alto não só nos jogadores mas no marketing que esses jogadores potencialmente trazem.

Os moleques de 14 a 17 anos moravam em containers. De ferro. No meio do sol do Rio. Os containers eram divididos por uma divisória de madeira e plástico temporária, que faziam os quartos.

A camisa do Gabigol, antes mesmo dele estrear, já é a mais vendida do país. Bonecos do tamanho real exato do atleta foram colocados nas lojas e as vendas atingiram recordes.

Os containers tinham instalações elétricas com tomadas e ar condicionado instalados manualmente, todos conectados à mesma fiação. Pegaram fogo e eram de ferro: viraram um forno! As janelas eram mínimas, os moleques foram assados, literalmente assados.

Os salários do Flamengo estão entre os mais altos do país. O time titular varia com salários de 300 mil a 1,5 milhão. Ou seja, uma pessoa, o Arrascaeta, ganha um salário de um ano como se ganhasse duas vezes na Mega-Sena por ano.
Além de pegar fogo, as divisórias tinham plástico, que derrete e gruda na pele, causando a dor mais intensa das queimaduras. Quando queima, o plástico derretido gera monóxido de carbono (CO – CAS 630-08-0) substância que, quando inalada, asfixia rapidamente e diminui muito o tempo de reação da pessoa.

O Flamengo, em 2019, destinou 200 milhões do orçamento total de 750 milhões de reais em futebol, sendo 100 milhões para contratações; é o clube que mais investiu no time no continente inteiro neste ano.

O alojamento teve o alvará negado pelo Corpo de Bombeiros e estava lacrado pela prefeitura, proibido portanto de ser utilizado. Desde 2012, tendo o clube sido multado 30 vezes e não tendo pago nenhuma das multas. O valor da multa em 2012 era de R$ 399 reais.

O Flamengo continua investindo em contratações, tentando trazer atletas consagrados do futebol europeu, como Daniel Alves, Rafinha, entre outros. O salario mensal desses jogadores atualmente chegam aos 2,5 milhões, o que não é problema para o Flamengo.

Os corpos demoraram mais de 7 horas para serem retirados e reconhecidos em virtude da alta temperatura que carbonizou cada um dos jogadores, dificultando o reconhecimento. Incluindo Athila, esse da foto, de 14 anos que mandou uma mensagem momentos antes, dizendo que ia realizar o sonho de treinar no Maracanã.

Estamos falando do Flamengo. Clube com a maior torcida, e atualmente o mais rico. Já acabou a discussão de futebol moderno. Não estamos falando de pedalada e chuteira colorida. Estamos falando dessa disparidade que mata o futebol.

Como esse é o país do futebol, temos mais de 500 mil jogadores profissionais no Brasil. 82% deles ganham menos de mil reais. Um jogador só ganha um milhão e meio
Outros mais de 3 milhões de empregados são sustentados pelo futebol, direta ou indiretamente.

Alimentar essa disparidade gera um esquema bola de neve onde um jogador meia boca ganha mais do que 500 mil jogadores (que também querem ganhar mais!), que arrebentam os clubes menores,  que são obrigados a ficarem sem pagar os 3 milhões de funcionários,  que não investem na base, que não vendem nem lançam jogadores e não tem mais receita, que fecham as portas ou seguem sub existindo, que abre espaço para clubes grandes na base, que dá chances pra muito poucos jogadores que tem sorte, que os poucos que sobem exigem salários cada vez maiores, que são contratados por outros clubes como reforços com salários absurdos, que gasta o dinheiro desses clubes, que devido a essa importância dada pra esses reforços, ligam menos pra base (que gera cada vez menos talentos!) e não dão prioridade pra estrutura de base.

Mais uma vez, não é questão de futebol moderno x antigo. Não estamos falando de chuteira colorida, de Neymar ou dessa ridícula escola Benjamin Back Tiago Leifert de jornalismo esportivo.

Quando você aplaude e comemora no zap que seu time tem condições de trazer um jogador por um salário de um milhão e meio, você está apoiando um mercado completamente desregulado da realidade. E esse mercado fecha portas de times menores, esse mercado tira chance de meninos, esse mercado tira empregos, esse mercado tira investimento em estrutura e esse mercado mata.

10 moleques morreram queimados por morarem em um container no maior clube do país. O que sentimos não é luto com tristeza.

É ódio com bom senso.

 

Obs.

o Conrado pensa como eu. O Flamengo cometeu um crime inafiançável e as pessoas dizem ‘Força Flamengo!. 31 multas, projetos falsificados, onde tinha o alojamento eles (os diretores) diziam que era um estacionamento e assim por diante. Criminosos os diretores, os fiscais da prefeitura, os bombeiros, a CBF, as instituições que deveriam defender as crianças, alem da imprensa que exaltava o ninho do Urubu. O Flamengo vai dar um cala boca às famílias enlutadas e morre por aí

Pensando pelo outro lado, ainda bem que temos uma imprensa investigadora e livre que vai fundo nos problemas, porque, se assim não fosse, o Flamengo seria agora uma instituição preocupada com o bem estar das crianças, vindas de lares carentes e que oferecia a eles, casa, comida e segurança.

Dizer quanto o Flamengo e outros clubes ganham quando surge um craque e é negociado, isso não faz parte da discussão.

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