Cláudia de Almeida Carvalho: ‘Sem escala’

01/11/2017 00:03

“Promessas eternas são verdades, a repousar na paz do berço do abraço coberto pelo véu do firmamento estrelado.”

 

O tempo. O vento. A tempestade.

As notas do planar das asas cortando o espaço em acordes, na velocidade da luz, fazendo do eco das nuvens melodia hipnotizante.

A decolagem do coração, dos sentidos, ao ritmo frenético da paixão, desafiando o discernimento, quebrando regras e afrontando a censura, fazendo apenas do seu presente a eternidade.

Nada é mais visto pelos olhos cegos da paixão, senão o reflexo do outro em si mesmo, pois o amor que escolhemos nos define.

Ninguém e nada mais existe para os protagonistas dessa verdadeira rendição existencial.

Apenas os sinos cantam ao vento e dançam sua própria música.

Sentimento efêmero, segundo doutos, mas de inegável intensidade tal, capaz de gravar para sempre uma vida.

Paixão, prelúdio de amor, ou derrota precoce pela própria efemeridade?

Não importa em qual dos moldes se encaixe, será sempre um acontecimento único e inesquecível.

É o instante da certeza do querer para todo o sempre.

Sentir-se apaixonado é estar vivo em toda a plenitude da existência, é receber uma carga máxima de energia vital a recuperar a motivação, então esquecida em um canto qualquer de nós mesmos.

A paixão é o despertar do dormente.

É a ressuscitação da morte em vida.

E, ao gemer dos amantes no espanto do reconhecimento, os olhos falam as sinceras palavras da alma e, fechados, todo o sentimento.

Promessas eternas são verdades, a repousar na paz do berço do abraço coberto pelo véu do firmamento estrelado.

E, no êxtase desse encontro, toda a regeneração da vida emerge aos sentidos da pele entorpecida, então, por sensações divinas.

O embarque nessa aeronave, nem sempre voluntário e consciente e nem sempre medido pelas suas consequências é, todavia, a passagem certa ao destino da salvação.

Sim, pois só a paixão tem a força da tempestade para nos subjugar em direção à vida antes que ofuscada , pobremente, ao ocaso do horizonte.

A mesma vida que relutamos, covardemente, em sorver até a última gota que nos é oferecida, arrimados na mediocridade do conformismo em darmos tão pouco para nós mesmos.

Nem sempre embalada em um pacote perfeito rotulado pelos costumes, a paixão tem vida própria e independente, cujo encantamento, por sua magnitude, a liberta para encenar-se nos mais variados formatos de incomparável beleza e autenticidade.

Apenas explosão de vida.

E os passageiros dessa nave, cortando no voo meteórico o céu das estrelas, percorrerão, em um diáfano instante, longas milhas de distância ao avanço existencial dos sentidos humanos, em uma verdadeira jornada de regeneração molecular e da alma.

A paixão é um voo sem escala, totalmente livre das paradas dos conceitos e dos preconceitos, dos dogmas, das leis e dos costumes, onde a emoção está no voo e não no destino final da aterrissagem.

Boa viagem !

 

Inspiração Poética, 24 de outubro de 2017.

Claudia de almeida Carvalho – claudiacarvalho.oab@gmail.com

 

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