Cláudia de Almeida Carvalho: ‘O voo’

12/04/2019 21:42

Cláudia de Almeida Carvalho

Crônica: ‘O voo’

 

Engoli em silêncio a minha súplica. Não vá!

Preparando o voo desde os primeiros passos, é chegado o momento.

A jornada foi longa na tecelagem das asas, que agora estão prontas e agitam-se na ansiedade de domar os céus.

Com minhas asas imensas, resisto para não recortar as nuvens, rasgar o céu e abrir passagem para o meu pássaro voar.

Ele mesmo deve desbravar seu caminho e viver a experiência de suas escolhas.

Sentimentos contraditórios se apoderam de mim.

Algo me foi roubado, esvaziei-me, e sinto flutuar em emoções até então desconhecidas.

Ao mesmo tempo, me pacifico na maré mansa que embala a missão cumprida.

De repente sobrou-me tanto espaço, e todo o tempo em horas dobradas.

Como um astronauta, banido da terra, imagino meu planeta à distância, perdida no espaço agora todo meu.

Há silêncio no meu mundo ecoando do ninho vazio.

Nos sentimos distantes a tudo que não se encontra ao alcance de nossas mãos e na mira de nossos olhos.

A saudade sufoca minhas palavras e ansiosa, como uma criança à espera de um presente, preparo o ninho para lhe acolher.

No baú das esperas vou armazenando mimos para lhe receber.

Até que o pouso do pássaro restabelece a gravidade aos meus pés.

O sol ressurge rompendo as cortinas, aquecendo a alma que se espreguiça em meu sorriso largo.

E a presença cotidiana cede seu lugar para abraços demorados de chegadas e despedidas.

A voz embargada pelas lágrimas contidas diz:

─ Vai com Deus, minha filha!

 

 

Cláudia de Almeida Carvalho

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