Cláudia de Almeida Carvalho: ‘A semente’

05/07/2018 12:59

 

“Ainda sinto a suavidade da pele macia que resistia aos calos da dura batalha pela vida, ao roçar dos dedos da mão delicada pelas linhas da feição infantil, em movimentos de vai e vem como nos passos da dança pela vida.”

 

Espiei pela fresta da porta entreaberta.

Lá estava ela.

A acarinhar em redemoinhos os cabelos de uma criança deitada no abrigo morno do conforto de seu colo.

Não posso distinguir-lhes as feições, embaçadas que estão pelos raios do sol a escapar pelos vãos do forro que cobre as memórias antigas.

Mas a intuição da alma sabe reconhecê-las.

Fecho os olhos para sentir onde está a linha invisível a me costurar na dimensão acolhedora que me acena.

Reino da inocência de um tempo simples e de gostos singelos, antagonismo de uma vida modesta, mas de olhos grandes vorazes de sonhos coloridos pela fantasia que veste a infância.

Descubro na memória olfativa a conexão, e no envolver da fragrância doce e suave me desloco para os carinhos daquelas mãos.

O passado agora me encontra no toque amoroso do afago materno.

As lembranças rodopiando a trazerem do barro aquela criança.

O afago daquelas mãos.

Ainda sinto a suavidade da pele macia que resistia aos calos da dura batalha pela vida, ao roçar dos dedos da mão delicada pelas linhas da feição infantil, em movimentos de vai e vem como nos passos da dança pela vida.

Por tantas histórias passearam aquelas mãos no compromisso de amor pela família.

Bordaram panos e pintaram cabelos, dançaram na velocidade por teclas a compor músicas ritmadas, rabiscaram papéis, organizaram arquivos.

Quando folgadas, deitavam-se nos tantos afazeres domésticos com olhos no conforto do benquerer.

O esmero da casa contrastando com a simplicidade da moradia.

A delícia das receitas da infância, o cheiro bom sugado pelos narizes gulosos.

Incansáveis, distribuíam gestos de carinho cobertos por tantos cuidados e, unidas, palma a palma e em direção ao infinito, essas mãos ainda arrumavam tempo para se darem em oração e me apresentarem à fé.

Essas mãos, eu as reconheço, são embarcação de um coração de infinita bondade, de um caráter íntegro, de uma alma nobre.

São mãos que me embalaram, me firmaram e que ainda me sustentam agora nos soluços da alma, das quais eu nunca estarei pronta para soltar.

Minha mãe e seu olhar amoroso me vendo além do que quero revelar.

Seus gestos macios na compreensão de minhas escolhas.

A maternidade, áurea conexão com o cosmos ao tempo do infinito.

Minha mãe, presença viva, memória eterna no refúgio de minha alma.

De repente, o relógio do presente desperta o som de suas promessas aos meus ouvidos e as lembranças fogem para seus esconderijos.

E o tempo lança o pião que rodopia veloz no vazio, trepidando sobre o apoio da ponta metálica no movimento hipnótico.

Ouço um ranger de portas.

Sinto cheiro de infância.

Espio pela fresta da porta entreaberta.

Lá está ela.

Em meu abraço sorridente e refletida no espelho d´água dos meus olhos, minha cria, minha criação.

A minha herança de vida.

A mais fantástica aventura a humanizar o meu ser.

A semente de minha descendência germinada, a florescer e a frutificar no pomar da grandiosa experiência de amor da existência humana.

 

Cláudia de Almeida Carvalho, sorocabana, é advogada atuante e  escritora. Em sua plataforma literária predominam crônicas e contos, construídos sobre escrita poética inspirada nas experiências, nos sentimentos e nas sensações humanas. Colunista do JORNAL ROL-Região Online e da  Revista TOP DA CIDADE.  Seu hobby é a fotografia registrando suas observações do cotidiano.

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