CELSO LUNGARETTI - SãoPaulo
VEJA COMO O RELATÓRIO FINAL DA CNV RELATA O CALVÁRIO DO "BACURI"

Eduardo Collen Leite foi preso pelos agentes da equipe do delegado Sergio Fernando Paranhos Fleury, em 21 de agosto de 1970, na cidade do Rio de Janeiro, quando chegava em casa. Foi levado a um centro clandestino de tortura, em São Conrado, ligado ao Centro de Informações da Marinha (Cenimar), onde foi visto por Ottoni Fernandes Júnior, também preso na casa.

 

Ottoni chegou a afirmar, em denúncia feita à Justiça Militar e também na 1ª audiência pública da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva, que os agentes da repressão já haviam declarado que Bacuri seria morto após as torturas. Na casa de São Conrado, ainda no início do período em que permaneceria sendo torturado, ele já apresentava dificuldades para se locomover sozinho.

 

Posteriormente, Bacuri foi levado ao Cenimar/RJ e ao Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) do I Exército, no Rio de Janeiro, onde foi visto por Cecília Coimbra que declarou, em 2 de outubro de 1995, na Secretaria da Comissão de Direitos Humanos e Assistência Judiciária da Secretaria do Estado do Rio de Janeiro da Ordem dos Advogados do Brasil, ter visto Bacuri nas instalações do DOI-CODI/RJ e que dado seu “estado precário físico motor”, era impossível a versão da fuga.

Nas duas primeiras semanas de sua prisão nas dependências do DOI-CODI ao pedir a um agente da repressão para que acendesse seu cigarro verificou por uma fresta da porta que aguardava que: Eduardo leite, codinome Bacuri estava sendo levado por agentes da repressão tendo marcas de torturas em sua face e braços e, com dificuldade de caminhar, sendo auxiliado por agentes da repressão [...]

Em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, em 28 de maio de 2013, a ex-militante da ALN Dulce Pandolfi também relatou o estado físico de Bacuri em uma de suas passagens pelo DOI-CODI/RJ:

Dulce Pandolfi hoje é historiadora

No térreo tinha a sala de tortura com as paredes pintadas de roxo e devidamente equipada. Tinha outras salas de interrogatório com material de escritório, essas às vezes usadas também para torturar, e algumas celas mínimas, chamadas de solitárias, imundas, onde não havia nem colchão. Aliás, vários aqui presentes passaram por essas celas e essa sala. Nos intervalos das sessões de tortura os presos eram jogados ali. No segundo andar do prédio havia algumas celas pequenas e duas bem maiores, essas com banheiro e diversas camas beliches. Foi numa dessas celas que passei a maior parte do tempo. [...]

Uma noite, que não sei precisar quando, desci para a sala roxa para ser acareada com o militante, também da ALN, Eduardo Leite [pausa em virtude de choro] conhecido como Bacuri. Lembro até hoje dos seus olhos, da sua respiração ofegante e do seu caminhar muito lento, quase arrastado, como se tivesse perdido o controle das pernas. Num tom sarcástico o torturador dizia para nós dois na presença de outros torturadores: “viram o que fizeram com o rapaz? Essa turma do Cenimar é totalmente incompetente. Deixaram o rapaz nesse estado, não arrancaram nada dele e ainda prejudicaram nosso trabalho”. No dia oito de dezembro daquele ano, mataram Bacuri.

Bacuri foi torturado por 109 dias consecutivos e passou por diferentes instalações dos órgãos de repressão. Depois do DOI-CODI do I Exército, Eduardo foi transferido para o 41o Distrito Policial (DP) de São Paulo, cujo delegado titular era Fleury. Do 41º DP foi novamente transferido para o Cenimar/RJ, onde foi torturado até setembro, quando retornou para São Paulo. Dessa vez foi levado para o DOI-CODI do II Exército e removido em outubro para o Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (DEOPS/SP), onde ficou isolado na cela 4 do chamado fundão.

Câmara Ferreira: vítima de duas ditaduras.

 

Foi então quando os órgãos da repressão começaram os preparativos para camuflar a execução de Eduardo, que teria ocorrido em uma suposta fuga durante ação policial para prender Joaquim Câmara Ferreira. Eduardo teria sido levado para identificar Joaquim Câmara e, durante um tiroteio, teria escapado.

 

Há, entretanto, diversos depoimentos de ex-presos políticos que atestam que, após a notícia de sua fuga, Bacuri, na verdade, continuava preso e sob tortura. No documento de denúncias dos presos do Presídio da Justiça Militar Federal, em São Paulo, entregue ao Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, em 23 de outubro de 1975, registra-se que:

[...] no DEOPS seus torturadores planejavam matá-lo [...] quando se divulgava sua fuga, Eduardo sequer havia saído de sua cela. Seus torturadores chegaram a olear as portas enferrujadas das celas para que pudessem retirá-lo em silêncio.

Nesse documento, que ficou conhecido como Bagulhão, foi registrado que Bacuri foi retirado de sua cela no dia 27 de outubro de 1970, diante de protestos dos prisioneiros. Segundo relatos, ele estava impossibilitado de andar em virtude dos ferimentos da tortura. A partir de então, Eduardo não foi mais visto por nenhum preso político, permanecendo sob custódia de seus torturadores até 8 de dezembro de 1970, quando foi divulgado que teria morrido em tiroteio na cidade de São Sebastião, no litoral paulista.

 

Segundo o jornalista Elio Gaspari, no livro A Ditadura EscancaradaBacuri teria sido assassinado no forte dos Andradas, na cidade de Guarujá (SP). De acordo com o autor, Eduardo estaria preso em um banheiro quando um major teria entrado, pedido ao soldado Rinaldo Campos de Carvalho, que vigiava o militante, que saísse, e executado Bacuri. Segundo relato do próprio soldado, ao sair do cômodo teria escutado um barulho forte, que poderia se assemelhar tanto ao de um tiro quanto ao som de uma cabeça batendo na parede.

Sequestro de Bucher precipitou execução

 

Em entrevista à revista Veja de 18 de novembro de 1992, o ex-agente Marival Chaves também afirmou que foi forjada a versão da morte de Eduardo Collen Leite em tiroteio, um teatrinho para esconder as gravíssimas e continuadas violências que sofreu.

 

A execução de Bacuri teria ocorrido também a fim de evitar que ele fosse incluído na lista de prisioneiros a serem trocados pelo embaixador da Suíça no Brasil, Giovanni Enrico Bucher, sequestrado em ação conjunta da VPR e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) no dia anterior, 7 de dezembro. A troca de Bacuri poderia gerar constrangimento, já que, além de ter sido oficialmente declarado foragido, apresentava marcas evidentes de tortura.

 

Em documento enviado em 22 de setembro de 1970 pelo chefe da 2ª Seção do II Exército, em São Paulo, coronel Erar de Campos Vasconcelos, ao chefe da Operação Bandeirantes (Oban), já se previa a possibilidade de ser realizado um sequestro visando a libertação de Eduardo Collen Leite. De acordo com o documento, a medida sugerida pelo coronel para evitar os danos ao regime diante de um possível resgate foi a de “tomadas as devidas providências, no sentido de evitar possíveis explorações sobre seu estado físico”. Essa declaração comprova não só que Eduardo Leite foi torturado, mas evidencia também o contexto em que se deu sua execução.

 

Apesar dos relatos que comprovam as marcas visíveis de tortura em Bacuri, o laudo do exame necroscópico, solicitado pelo delegado José Aray Dias de Melo, atestou não haver indícios de tortura no corpo. O documento foi assinado pelos médicos-legistas Aloysio Fernandes e Décio Brandão Camargo.

 

As torturas sofridas por Bacuri foram denunciadas também perante a 2ª auditoria da Justiça Militar de São Paulo, mas nunca foram levadas adiante pelo juiz Nelson Guimarães Machado da Silva. Questionado sobre a omissão em relação às torturas de Bacuri, o juiz Nelson Guimarães respondeu, em depoimento prestado à Comissão Nacional da Verdade (CNV) em 31 de julho de 2014:

[...] havia uma guerra. Havia mentiras também. Tempo de guerra, mentira como terra, um velho provérbio, aliás, português. [...] nem tudo que o interrogando diz em juízo, o juiz ou o Ministério Público não pode sair dizendo: “Ah, ele disso isso. Vamos apurar”. Não há apuração que chegue. E não eram as circunstâncias do momento.

Quando o corpo de Bacuri foi entregue à família, as denúncias de tortura e execução se confirmaram. Segundo o testemunho de sua esposa, Denise Crispim, Eduardo tinha hematomas, escoriações, marcas de queimadura, dentes arrancados, orelhas decepadas e os olhos vazados.

 

Obs: transcrito do relatório final da Comissão Nacional da Verdade, que já está disponível neste endereço (clique p/ abrir).

O DESTINO FOI CRUEL DEMAIS COM ELE
Por Celso Lungaretti, no seu blogue.

Um ótimo livro sobre o Eduardo

É como  Basílio que eu me lembro de Eduardo Collen Leite. Bacuri foi um codinome que usou antes de abril/1969, quando o conheci no Congresso de Mongaguá da VPR.

 

Deve tê-lo mudado porque era mais um apelido; um tanto gordo, ele lembrava mesmo um porquinho. E, claro, assim o nome de guerra descumpria a finalidade de dificultar a identificação do companheiro que o utilizava.

 

Eu era um secundarista de 18 anos, um tanto deslumbrado por ter sido repentinamente admitido no círculo dos revolucionários mais procurados do Brasil. Olhava a todos e a tudo com muita atenção, fazia  minhas avaliações, queria entrosar-me o quanto antes com os novos companheiros.

 

Basílio não parecia o combatente  da pesada que depois fiquei sabendo ser. Nem de longe. Fiquei surpreso quando o  Moisés (José Raimundo da Costa) me contou algo de sua história.

 

Estava com o cabelo curto e um farto bigode, que o deixava com um jeitão de português, além de envelhecê-lo um pouco. Nunca adivinharia que ele tinha só 23 anos.

 

Era simples, afável, simpático. Quando se alterava, gaguejava um pouco. Foi o que aconteceu ao comunicar que deixaria a Organização.

 

Minhas recordações, quatro décadas e meia depois, são nebulosas. Lembro-me de que ficou muito emocionado, talvez tenha até chorado.

 

Notícia de sua morte num jornal alinhado com a repressão

Desentendera-se com outros companheiros a respeito do encaminhamento dado a operação(ões) armada(s); devido às regras de segurança fiquei sabendo disso muito superficialmente, então não pude então (nem posso agora) estabelecer quem tinha razão.

 

Montou uma pequena organização, a Rede, que se manteve bem próxima da VPR, sendo nossa parceira em várias ações.

 

Quando o Moisés e eu vimo-nos ameaçados de expulsão da VAR-Palmares, no curso da luta interna que desembocaria na recriação da VPR, ele consultou o Basílio a respeito do nosso ingresso na Rede, recebendo sinal verde.

 

Bem ao seu estilo -- conservava sempre uma carta escondida na manga --, o Moisés só me falou dessa sondagem quando o racha estava consumado e nós, os precursores, reabilitados.

 

É minha última reminiscência envolvendo o Basílio, até ficar sabendo de sua prisão e martírio -- um dos episódios mais chocantes dos anos de chumbo. "Nenhum tormento conseguiu arrancar qualquer informação do Bacuri", garante Jacob Gorander.

 

Até hoje não me passa pela garganta que a vítima de tão terríveis e prolongados suplícios tenha sido aquele gordinho boa gente que batia bola comigo na praia de Mongaguá, durante os intervalos do congresso da VPR. As duas imagens não casam.

 

O destino foi cruel demais com ele.

 

Obs. ainda sobre o Eduardo Collen Leite, leia aqui (clique p/ abrir) a descrição do seu martírio no relatório final da Comissão Nacional da Verdade.

 

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