Celso Lungaretti: ‘Sobre a memória de um livro, de um filme e de um dos lutadores quase anônimos que nos ajudaram a suportar anos terríveis”

06/05/2019 09:48

Celso Lungaretti

O JOGO DA VIDA ÀS VEZES É CRUEL DEMAIS CONOSCO:
MAIS UM COMPANHEIRO IMPRESCINDÍVEL NOS DEIXOU!

Bacanaço (Maurício do Valle) e Perus (Guarnieri)

 O filme para ver no blog de hoje é muito especial: trata-se de uma homenagem a um companheiro e amigo querido, falecido no final da tarde deste sábado.
De família abastada sergipana, José Mozart Pinho de Meneses (ou, simplesmente, Mozart Meneses) botou na cabeça que tinha de vencer às próprias custas em São Paulo. Cursou Direito no Mackenzie em meio a grandes apuros financeiros, aceitando todos os empregos que lhe apareceram pela frente, inclusive o de leão-de-chácara de casas noturnas e de um famoso salão de sinuca na avenida Ipiranga, quase esquina com a avenida São João.
O escritor João Antônio era frequentador assíduo deste último e lá presenciou um episódio marcante sucedido com o Mozart. Ficou tão impressionado  que o incorporou no conto Malagueta, Perus e Bacanaço (o principal de seu livro de estréia, a premiada antologia homônima).
Seria exatamente deste conto de 1963 que o cineasta Maurice Capovilla derivaria seu ótimo filme de 1977, O jogo da vida (clique aqui para assistir).
Uma das pérolas do cinema sério que também se fazia na boca do lixo de São Paulo (embora esta seja mais lembrada pelas pornochanchadas), mostra as peripécias de três perdedores contumazes nas batalhas da vida que saem pela noite paulistana depenando jogadores piores nos salões de sinuca, até que encontram um jogador muito melhor do que eles.

A exibição de Joaquinzinho: uma aula!

A exibição de Joaquinzinho: uma aula!

Um filmaço, com atuações inesquecíveis de Gianfrancesco Guarnieri, Lima Duarte e Maurício do Valle, ótimo tema musical de Chico Buarque e participação de um lendário campeão de snooker do passado, Carne Frita.
A performance de Joaquinzinho, na partida final, também é de arrepiar: foi filmada em plano-sequência (ou seja, sem truques nem artifícios de montagem) e ele simplesmente encaçapa de verdade todas as bolas, uma após outra.

Quanto ao Mozart, formou-se advogado e foi razoavelmente bem sucedido na profissão, conseguindo suas vitórias mais à custa de psicologia intuitiva, retórica dramática e blefes aplicados na hora certa que da pesquisa dos tediosos textos legais. Era um improvisador nato, capaz de tirar os mais inesperados coelhos da cartola.
Igualmente original foi seu desempenho no palco da vida. Começou formando a chamada Cacimba, um grupo de ajuda mútua dos nordestinos que vinham ganhar a vida em São Paulo; depois, quando mais a ditadura militar separava e intimidava as pessoas, mais ele se empenhou em aproximá-las por meio de atividades artísticas, espetáculos de poesia, edições independentes de livros, além de festas, muitas festas! [O nome de Grupo Cacimba foi mantido, embora sua tônica não fosse mais nordestina.]

O escritor João Antônio com os atores

O papel do Mozart, que hoje qualificaríamos como sendo o de um animador cultural, foi inestimável para que conseguíssemos manter o equilíbrio e a serenidade naquele período em que éramos tanto e tão rudemente golpeados pelo inimigo, além de bombardeados por notícias terríveis o tempo todo.
Nem que fosse só declamando nossos  versos para meia centena de pessoas na platéia, sentíamo-nos fazendo algo útil; e era importante que assim nos sentíssemos, para não cedermos à tentação de agir de forma temerária quando nada havia para ganharmos e a vida para perdermos.
Quem o conheceu, jamais o esquecerá. E os que vieram depois, tomara que nunca passem pelas situações que tornavam os Mozarts tão necessários naqueles tempos nefandos (que, aliás, pessoas nefandas  tentam trazer de volta, sendo fundamental nos empenharmos com todas as nossas forças para que elas fracassem!).