Celso Lungaretti: ‘ Será que, como durante a escalada do Hitler, ignoraremos o perigo até essa cambada nao poder mais ser detida?!’

02/07/2019 23:28

Celso Lungaretti

 ‘…MAS, O QUE EU QUERO É LHE DIZER QUE A COISA AQUI ‘TÁ PRETA!’

Não pude deixar de lembrar-me da canção Meu caro amigo, do Chico Buarque, ao acabar de responder a um e-mail do bom companheiro Rui Martins que, lá na Suíça, aflige-se com as novidades que lhe chegam do Brasil.

 

No caso, a sua inquietação era com o alerta que lancei nesta 2ª feira, 17 (vide aqui), por ele qualificado de “um pesadelo”.

 

A resposta que enviei ao Rui é o que tenho para dizer aos leitores neste momento, então a reproduzo na íntegra:

“…é triste mas continuo não conseguindo fazer com que esses indícios de grave perigo sejam levados a sério.

MBL e o Vem Pra Rua estão convocando para manifestações no país inteiro no dia 30, alegadamente em solidariedade ao Moro. 

Há duas possibilidades: 

1. a de o áudio provir de uma vertente secundária da extrema-direita que estaria tentando dar um direcionamento mais radical a tais manifestações; 

2. a de o áudio expressar a verdadeira intenção da extrema-direita com as manifestações e a solidariedade ao Moro ser apenas a versão maquilada, para uso externo.

O certo é que não se pode brincar com essas coisas e a imprensa, em primeiro lugar, deveria estar investigando esse áudio, até porque faz um tipo de pregação que pode ser enquadrado como crime virtual. Isto não tem interesse jornalístico?

Será que, como durante a escalada do Hitler, ignoraremos o perigo até essa cambada não poder mais ser detida?!”

alerta vermelho
QUASE UM SÉCULO DEPOIS DA MARCHA SOBRE
ROMA, OS FASCISTAS DAQUI A TENTARÃO
IMITAR NO DIA 30!  

Um amigo de décadas acaba de receber pelo WhatsApp e me repassar um áudio de 1’05”, no qual o locutor que se identifica como Beto Fontes, de Londrina, PR (seu perfil no Youtube o apresenta como “jornalista investigativo, analista de mídias sociais, ativista e coaching“), faz esta convocação para uma versão brasileira da Marcha sobre Roma de 1922, que marcou a conquista do poder por parte dos fascistas italianos:

“Este áudio é curtíssimo para que vocês possam compartilhar em todas as redes.

Dia 30/06/2019 voltaremos às ruas contra o crime político organizado.

A pauta será única e objetiva, ou seja, o tiro letal contra a corrupção que vem atravancando um governo que nós elegemos democraticamente.

Todo poder emana do povo, artigo 1º, é constitucional. E o povo irá às ruas ordenado para que o presidente Jair Bolsonaro acione o artigo 142 da Constituição Federal e faça uma faxina constitucional. 

[Que] Juízes e políticos corruptos, inclusive jornalistas criminosos, [sejam] julgados e condenados sem redução de pena.

Quem manda no Brasil somos nós e o governo que nós elegemos democraticamente está precisando do nosso apoio.constitucional.

E a pauta é objetiva e única: Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Eis o que estabelece o citado artigo 142:

“As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”.

Então, depreende-se que se pretenda colocar o povo nas ruas para dar ao presidente Jair Bolsonaro um pretexto para ele, presumivelmente em nome da defesa da lei e da ordem, ordenar às Forças Armadas que barbarizem o Judiciário, o Legislativo e a imprensa.


Isto se faz com anuência do próprio presidente ou à sua revelia? Não há como provar, mas se pode conjeturar, a partir deste relato de hoje (2ª feira, 17) do jornalista Reinaldo Azevedo:

“É de assombrar a sequência de ações destrambelhadas do senhor presidente da República em 96 horas. Entre a quinta, data em que o deputado Samuel Moreira apresentou o texto da Previdência, e este domingo, o chamado Mito se dedicou incontinente à tarefa de gerar crises. 

E não! Não se trata de coisas irrelevantes. Pior: em duas das invectivas contra o bom senso, contou com o auxílio de Paulo Guedes, tido por incautos como âncora da estabilidade do governo. 

…Atenção! Na mesma quinta em que se apresentou o texto da Previdência, Bolsonaro demitiu Santos Cruz da Secretaria de Governo e pôs em seu lugar um general da ativa: um paraquedista vai fazer articulação política. 

Na sexta, anunciou que vai pôr na rua o presidente dos Correios e criticou o STF, voltando a defender um evangélico no tribunal. No mesmo dia, Guedes disparou contra Joaquim Levy, então presidente do BNDES, e desferiu duras críticas ao Congresso e ao texto da reforma.

No sábado, o presidente disse que a cabeça de Levy estava a prêmio e que, para governar, precisa mais do povo do que do Parlamento. Adicionalmente, defendeu o armamento da população e, se preciso, a luta armada propriamente. 

E isso em meio ao escândalo das conversas de pornografia política e jurídica explícita entre Sergio Moro e Deltan Dallagnol”.

Ou seja, há fortes motivos para supormos que Bolsonaro esteja mesmo decidido a virar a mesa para obter poderes bem maiores do que a Constituição lhe concede. E que ele sonhe com uma reedição do êxito de Mussolini ao marchar com seus fascistas sobre Roma.

 

Mas, se todos que repudiam o golpismo e o autoritarismo reagirem firmemente, Bolsonaro pode, isto sim, bisar o fracasso retumbante que Jânio Quadros colheu em 1961 com sua renúncia que embutia um autogolpe. (por Celso Lungaretti)