Celso Lungaretti: ‘O rumo que tracei para minha……(..) por nenhum outro”

08/10/2019 12:23

Celso Lungaretti

“O RUMO QUE TRACEI PARA MINHA EXISTÊNCIA ME CONDUZIU ÀS ESTRELAS E TAMBÉM AOS ABISMOS, MAS NÃO O TROCARIA POR NENHUM OUTRO”

 AOS 69 ANOS, SEM ESMORECIMENTO

Agradeço a todos os companheiros e amigos que estão postando/enviando palavras amáveis. Essas manifestações de respeito e carinho me sensibilizam, sim. E muito!

Nunca almejei ser um homem de ferro, imagem que alguns revolucionários buscam projetar  (equivocadamente, no meu entender). 

Olhando para trás, um grande mérito que vejo na geração que pegou em armas contra a ditadura militar foi o esforço que todos fizemos para colocarmo-nos à altura de um desafio para o qual bem poucos estávamos preparados e que quase sempre excedia nossas forças.

Se fôssemos super-homens nietzschianos, que méritos teríamos? Mas, não éramos; longe disto. Ainda assim, tentamos desempenhar nosso papel da melhor forma possível, assumindo todos os riscos e dispondo-nos a todos os sacrifícios. 

Havia grandeza na nossa fragilidade humana e em como fazíamos das tripas, coração para evitar que ela prejudicasse a causa que considerávamos maior e mais importante do que nós.


Este aniversário está mexendo com meus sentimentos como há muito não ocorria. 


No mês em que completei 68 anos, uma tempestade perfeita me fez temer que os fantasmas do passado nos assombrassem de novo, impondo às novas gerações de brasileiros os mesmos horrores contra os quais a minha lutou.

Chego aos 69 aliviado. Não havia fascistas perfeitos para aproveitarem a oportunidade que lhes caiu no colo e, embora o destrambelhado Governo Bolsonaro ainda vá durar algum tempo (minha previsão é de que será atirado à lixeira da História durante 2020), já está desmascarado e desmoralizado o suficiente para o impedir de alçar voos mais altos. 

Enquanto perdurar, tende a causar estragos e retrocessos em nossa vida social, e a acarretar grandes transtornos para aqueles a quem persegue com seus desmandos, mas não conseguirá mergulhar o país noutros 21 anos de arbítrio e atrocidades.

Dentre as situações particulares acima referidas encontra-se a minha, pois a última mudança de governo e sua hostilidade burocrática para com os antigos resistentes acabou sendo o estopim de uma crise financeira e familiar que há muito se esboçava.


Também neste sentido o que hoje sinto é alívio.  Passei por situações dramáticas no último semestre e consegui sair incólume, inclusive por não ter-me faltado o apoio de companheiros solidários em alguns momentos críticos.

Estava em dúvida sobre se conseguiria reconstruir mais uma vez minha vida e agora tenho certeza de que a perda de vários confortos e mesmo a falta de uma convivência familiar (exceto nos fins de semana alternados que minhas filhas passam comigo) não me derrubarão. 

Meio século depois ainda me viro bem sozinho, embora não seja a forma como prefiro levar minha vida. Mas, tanto então como agora, não havia alternativa. E sobrevivência foi uma das lições que o destino me ensinou.

Tenho, ademais, fortes motivos para sobreviver: zelar por minhas filhas até que encontrem seu caminho na vida e dar minha contribuição para que não seja em vão tudo que os brasileiros idealistas vimos sofrendo desde 2016.


A maré de ultradireita era (parafraseando Shakespeareuma tempestade de som e fúria significando nada: já podemos vislumbrar no horizonte o momento em que vai morrer na praia.

Mas, nossa tarefa não acabará aí; pelo contrário, é onde realmente vai começar. 


Ou conseguimos superar o círculo vicioso da alternância entre autoritarismo e populismo, ou continuaremos joguetes da História, que é como a burguesia nos quer ver.

Já temos todos os elementos necessários para uma conclusão definitiva: nem os Bolsonaros nem os Lulas oferecem solução para o impasse brasileiro.


Motivo? É que a crise do sistema chegou a um ponto em que não há mais governo sob o capitalismo capaz de proporcionar abastança para países periféricos como o nosso. As nações poderosas estão tentando é salvar a si próprias.

Então, a retomada do crescimento econômico se tornou uma meta que, no nosso caso, transcende o capitalismo. Até porque marchamos para uma depressão global que se desenha como muito pior que a da década de 1930.


Chega a ser até risível a pretensão de que, com alguma reformas neoliberais, o Brasil iria sair da penúria enquanto os gigantes capitalistas nela estivessem entrando. Paulo Guedes nunca passou de um mercador de ilusões.

 


Se trocarmos um governo selvagem na esfera do capitalismo por um governo bonzinho na esfera do capitalismo, nada realmente se resolverá. Continuaremos desperdiçando um tempo que cada vez mais nos é escasso.


Depende de nós erguermos, sobre os escombros dessa esquerda que tem perdido todas as batalhas importantes ao longo da década atual, uma esquerda realmente revolucionária, que coloque como prioridade estratégica nº 1 a superação do capitalismo. 

[E não uma enésima tentativa de conviver harmoniosamente com ele, desde já fadada ao mesmo insucesso de todas as anteriores, pois deveríamos estar carecas de saber que, em algum ponto do caminho, qualquer governo popular nos moldes dos de Lula e Dilma receberá sempre um inglório pé na bunda.]

Contribuir para a gestação de uma nova esquerda, com líderes bem diferentes desses que pavimentaram o caminho para a vitória de Bolsonaro, é o último serviço que me proponho a prestar para a sociedade brasileira.

E é o que manterá minha determinação não só aos 69 anos, mas enquanto tiver forças e lucidez para continuar perseguindo meus objetivos maiores. Como diziam Gil e Caetano outrora, “é preciso estar atento e forte / não temos tempo de temer a morte”.

Estarei tentando, até o fim, legar aos pósteros o Brasil com que sonhava em 1967, quando tracei o rumo que queria dar à minha existência. 

Ele me conduziu às estrelas e também aos abismos, mas não o trocaria por nenhum outro. Como Neruda, confesso que vivi. 

(Celso Lungaretti)

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