Celso Lungaretti: ‘O mercado comprou gato por lebre: nem Guedes é Roberto Campos, nem Bolsonaro é Castello Branco

08/01/2019 14:42

Celso Lungaretti

Celso Rocha de Barros: A PREVIDÊNCIA NÃO VESTE AZUL

 

A primeira semana do novo governo mostrou que o caos da campanha de Bolsonaro persiste: muitos desmentidos, nenhum detalhe sobre qualquer sacrifício que será imposto à população —isto é, nenhuma conta que feche— e uma densa cortina de fumaça de papo furado sobre marxismo cultural, ideologia de gênero, empréstimo do Bolsonaro para o Queiroz e outras coisas que não existem.

Os dois meses de transição, ao que parece, foram completamente desperdiçados.

Relembrando: o presidente anunciou que havia assinado a criação de um novo imposto. Foi desmentido por Marcos Cintra, secretário especial da Receita Federal, e por Onyx Lorenzoni, chefe da Casa Civil.

O presidente também apresentou uma proposta para a Previdência Social que foi considerada fraca pelo mercado, e claramente não é a de Paulo Guedes, o superministro da Economia.

Contrariado, Guedes cancelou seus compromissos de 6ª feira (4) para não ter que dar explicações.

Para quem já perdeu o fio da meada: quatro meses atrás, qualquer dúvida de economia deveria ser tirada com Guedes, o Posto Ipiranga.

Também pode voltar depressa a ser nada…

Quando Guedes, durante a campanha, resolveu discutir aumento de impostos, Bolsonaro reivindicou de volta para si a palavra final. Agora não tem mais palavra final.

O que realmente preocupou os economistas foi a confusão sobre a Previdência.

Ao que parece, ao contrário de nossa bandeira, nossa Previdência poderá continuar vermelha. A Previdência não poderá voltar para o azul, talvez por ser a Previdência, e pairam dúvidas se lhe será permitido usar ao menos um tom de rosa mais claro.

Parte do problema parece ser a disputa entre o núcleo político do governo, liderado mais ou menos por Onyx Lorenzoni, e o núcleo econômico, liderado mais ou menos por Paulo Guedes.

Onyx é coautor de uma proposta de reforma da Previdência, elaborada em parceria com os irmãos Abraham e Arthur Weintraub. A proposta não agrada a Guedes.

Se as declarações de Bolsonaro sinalizarem uma aproximação com a proposta Onyx-Weintraubs, o superministro da Economia terá tomado um olé.

Por sua vez, Onyx precisa desesperadamente cavar espaços e recuperar influência. Antes da campanha, foi denunciado por corrupção, e fez uma tatuagem para se lembrar de nunca mais receber contribuições ilegais da JBS.

…se perder o braço-de-ferro contra Onyx Lorenzoni.

Perdeu influência quando o general Santos Cruz foi nomeado para dividir com ele as articulações com o Congresso. A função de Santos Cruz é impedir que Onyx faça algo qu justifique novas tatuagens

Guedes, por sua vez, continua sem paciência para a política. Declarou que o plano B, caso o Congresso não reforme a Previdência, é aprovar uma emenda constitucional desvinculando o Orçamento todo.

Se isso for feito, o governo, se quiser, pode não pagar funcionários, pode não pagar aposentadorias. Aparentemente, o ministro acha que aprovar isso é mais fácil do que aprovar a reforma da Previdência.

O problema por trás da briga entre Onyx e Guedes é real.

Os políticos do bolsonarismo sabem que seus eleitores não votaram no programa do Guedes. O mercado pode ter tido conversas entusiasmantes com o novo ministro, mas o grande público não teve esse privilégio. E, quando os cortes começarem, não vai ter WhatsApp que resolva. (por Celso Rocha de Barros)

Celso Lungaretti

TOQUE DO LUNGARETTI

 

Bastou uma semana de novo governo para ficar evidenciado que, tanto quanto o cidadão comum, o mercado também comprou gato por lebre, iludido pelos disparos de fake news do Bolsonaro.

Paulo Guedes foi vendido aos poderosos como um novo Roberto Campos, a quem o presidente neofascista, com a firmeza de um Castello Branco, daria poderes plenos para efetuar as reformas impopulares e impor todas as medidas polêmicas que Dilma Rousseff e Michel Temer não conseguiram viabilizar. 

Mas, agora com a faixa presidencial no peito, Bolsonaro volta a ser o que sempre foi: um político convencional, que não quererá perder prestígio identificando-se totalmente com os sacos de maldades exigidos pelos donos do Brasil, nem providenciar todas as privatizações e entregas com as quais eles sonham, pois os militares as encaram como medidas lesa-pátria.

Ou seja, começa a cair para o grande empresariado a ficha de que Guedes é outro Joaquim Levy, um economista de segundo escalão incumbido de uma missão que ultrapassa em muito sua competência.  

E, pior, que quem o grande empresariado colocou no Palácio do Planalto não passa de uma versão atualizada do Jânio Quadros, ainda mais inconsequente e destrambelhada que a original. Bem feito!