Celso Lungaretti: ‘O Dr. Frankenstein não sabia que estava fabricando um monstro’

16/01/2018 18:59

“Minha palavra final sobre um episódio deprimente: o linchamento virtual de Willian Waack.”

 

Foi uma tempestade em copo d’água que maquiavélicos produziram servindo-se de um mero desabafo de momento: a frase proferida a esmo por William Waack, para só quem estava junto escutar, sem nenhuma intenção de influenciar comportamentos e que naquele exato instante não provocou reação nenhuma nem indignou ninguém ao redor, mas cuja gravação foi desencavada e divulgada um ano depois, flagrantemente no contexto de uma ação concertada para assassinar a reputação de tal jornalista.

 Procurando um bom pretexto para tanto (receita que dá certo desde o incêndio do Reichstag), tais maquiavélicos vislumbraram a oportunidade de utilizarem o racismo, apostando em que muitos internautas rancorosos passariam batidos pelo fato de tratar-se de uma evidente armação e de uma gritante forçação de barra
Disponibilizaram um palco para quem nem sequer havia sido personagem ou testemunha presente (pois jornalistas dificilmente se disporiam um papel desses!) e dois técnicos da retaguarda sofregamente se colocaram sob os holofotes para ter seus minutinhos de fama espúria. 
Se não repudiarmos incisivamente uma canalhice dessas, estaremos dando ensejo ao primado da arapongagem, da vigilância policialesca em nosso cotidiano e do vale-tudo com relação àqueles de quem não gostamos. 
Querem viver num estado policial de novo tipo, em que a punição e a intimidação são executadas por linchadores civis organizados e não mais pelas autoridades do Estado? Eu não. Já vivi numa sociedade semelhante, em que todos tinham medo o tempo todo, durante a ditadura militar. Ninguém estava tranquilo para falar o que realmente sentia, nem mesmo ao tomar umas biritas no boteco. Desconfiava-se de tudo e de todos. Descobriam-se espiões a torto e a direito e muita gente boa foi alvo de suspeitas descabidas. Era a repressão introjetada. Era um pesadelo.

Esses patrulheiros cricris são, em certo sentido, até piores do que o menino que delata o pai à Polícia do Pensamento por exclamar Abaixo o Grande Irmão! durante o sono (na distopia 1984, de George Orwell), pois não sofreram uma lavagem cerebral imposta de cima para baixo pelos detentores do poder. Fizeram por vontade própria sua opção pela catarse, pelo rancor e pela intolerância. Lutarei até o fim, com todas as minhas forças, para que não tenham êxito na sua faina para extirparem definitivamente a cordialidade do cotidiano dos brasileiros. 

Nosso verdadeiro problema continua sendo o de superarmos a desumanidade capitalista da qual todos somos vítimas de um jeito ou de outro, dando um fim à exploração do homem pelo homem, à desigualdade e às injustiças sociais. 

De nada, absolutamente nada, adianta cada cidadão, por si só ou atuando covardemente em bandos, ficar pegando no pé de outro(s) para fazer seus valores e padrões de comportamento prevalecerem sobre os alheios, como se existisse solução para os grandes problemas da humanidades em escala individual. A dispersão do foco apenas ajuda a perpetuar a dominação de classe, que é o que realmente desgraça nossas existências.

Essa desatinada caça às bruxas só consegue tornar ainda mais infernal o dia a dia de todos. 

 

ACESSE AQUI AS CONSIDERAÇÕES DE WAACK SOBRE

O EPISÓDIO, EM ARTIGO DIVULGADO NO ÚLTIMO DOMINGO.

 

CelsoLungaretti – lungaretti@gmail.com

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