Celso Lungaretti: ‘em defesa da memória de Raulzito’

29/10/2019 09:31

Celso Lungaretti

PREFIRO DETONAR ESSA MERCANTILIZAÇÃO AMBULANTE DO QUE VER AQUELA VELHA CUPIDEZ PREVALECENDO SOBRE TUDO

O jornalista Jotabê Medeiros está lançando um livro sobre Raul Seixas que, como o de Rodrigo Janot sobre a própria imagem no espelho de seu narcisismo exacerbado, preencherá muitos espaços no noticiário não em função da obra em si, mas de um factoide suposto ou real.

 Janot fez com que se tornasse conhecida uma mirabolante tentativa não levada às últimas consequências de assassinar o ministro Gilmar Mendes em plena sessão do Supremo Tribunal Federal, só que a data alegada não bateu com detalhes factuais e sua versão caiu no mesmo descrédito que tudo referente ao ex-PGR nos inspira.
Fiquei contente em saber que a noite de autógrafos ficou às moscas e que alguém disponibilizou a auto-oniro-biografia na web, de forma que ele pouco deve ter lucrado desmoralizando a si mesmo e inspirando dúvidas sobre a própria sanidade mental.

O livro sobre o Raul contém elucubrações a respeito de o maluco beleza haver, de alguma forma, contribuído para a prisão e tortura de Paulo Coelho  por parte do DOI-Codi.

Mas, não há nada realmente conclusivo, fica tudo no campo das especulações e de uma ilação tirada a partir de um relatório da repressão que também não é taxativo.

Então, informo ao biógrafo fofoqueiro (e não é a primeira vez que escrevo isto) que tais relatórios e inquéritos eram verdadeiros sambas do crioulo doido. Primeiramente, porque condensavam informações arrancadas de torturados e estes, percebendo o que os inquisidores sabiam ou acreditavam saber, geralmente o corroboravam para evitar mais torturas. 

Depois, ao encerrarem os inquéritos, os responsáveis apresentavam tudo que haviam apurado como se tivesse sido afirmado por todos os réus, quando, na verdade, era a soma do que vários haviam admitido, um pouco cada um.

Porque coonestávamos tais farsas assinando embaixo? Porque as informações que tentávamos preservar no limite das nossas forças eram aquelas que poderiam levar à queda de militantes e ao desmantelamento de redes. 
Para informações que teriam uso apenas judicial não dávamos a mínima: sabíamos que nossas sentenças não dependeriam de provas, mas seriam previamente definidas pelos serviços de Inteligência das Forças Armadas e os pseudos-julgadores, nas auditorias militares, apenas dariam um jeito de fazê-las parecerem consistentes.

Ocultismo livresco e fantasia de Merlin

Na década passada, recebi um levantamento de tudo que havia a meu respeito nos arquivos do Deops. Parecia obra de ficção. Eu era citado como presente em episódios que nem sequer conhecia (caso de um tribunal revolucionário do qual não fui juiz, embora a propaganda enganosa das viúvas da ditadura até hoje repita tal fake news).

Como recebi aqueles depoimentos na íntegra e não apenas os trechos a mim referentes, também notei que em várias ações armadas a autoria era atribuída a um número excessivo (o dobro do real, ou mais) de companheiros. 

 Em alguns casos, eu sabia exatamente quantos e quais tinham atuado. Noutros, baseei-me nas características da ação, que nem de longe demandavam tanta gente no planejamento, execução e apoio. Preferíamos, por motivos de segurança, reduzir o pessoal envolvido ao mínimo necessário.

Minha conclusão, enfim, é de que algo tão nebuloso  e difícil de apurar tanto tempo depois como o que se está atribuindo ao Raulzito JAMAIS deveria ter sido incluído numa biografia. Por que e para que colocar sob suspeição, sem certeza nenhuma, um mito libertário da magnitude do Raul?

 Pior, a meu ver, foram as reticências de Paulo Coelho, que nem confirmou, nem negou tal indignidade, mas disse haver suspeitado disso e se mantido calado por 45 anos. Esta afirmação profundamente infeliz (e jamais acreditarei que tenha sido incidental, em se tratando de um profissional da palavra), evidentemente levou água para o moinho dos interessados em insuflarem uma polêmica artificial.

Daí a repórter que o entrevistou para a Folha de S. Paulo ter incluído esta pérola no seu texto: 


Medeiros, por sua vez, crê que Coelho não                               tem a menor dúvida, hoje, após ver o documento, de que Raul o entregou’.

Que documento? Aquele mesmo da repressão que, noutro trecho da entrevista, é assim mencionado pela entrevistadora: “Mas, mesmo os papéis oficiais não são conclusivos”. Durma-se com um barulho desses…

.OS MAGOS CARLOS CASTAÑEDA E PAULO COELHO EXIBIRAM O MESMO NÚMERO: A TRANSMUTAÇÃO DE LOROTAS EM OURO   De resto, já que Paulo Coelho habilmente ajudou a magnificar uma besteirinha dessas sem assumir francamente o ônus de acusar o ex-parceiro e receber o troco de quem acha tudo isso uma deplorável forçação de barra (meu caso!), vou lembrar o que me fez nunca mais levá-lo a sério.

Quando bebi e papeei algumas vezes com o Raul no início da década de 1980 (mais sobre isso aqui e aqui), muita coisa se apagou da minha mente por causa das disputas de levantamento de copos que travávamos, mas algo me chamou tanto a atenção que retive para sempre na memória.

Segundo Raul, ambos eram tão interessados em ocultismo que se davam ao trabalho de traduzir, apenas para uso próprio, livros quase desconhecidos de bruxos famosos do passado. Se bem me lembro, não só os que estavam publicados em idiomas vivos, mas até do latim.

Então, somando dois e dois, encontrei quatro. Percebi que Paulo Coelho de mago nunca teve nada e apenas utilizara essas informações que possuía para vestir uma fantasia de Merlin e enganar os otários com livros bem inferiores, p. ex., aos de Carlos Castañeda.

 Só que o mexicano e sua literatura fantástica sobre bruxos e cogumelos havia sido desmascarado por um jornalista investigativo. Embora fizesse tudo que podia para esconder-se da imprensa, um repórter mais teimoso acabou descobrindo que Castañeda não passava de um pesquisador que fora a fundo no resgate de cultos primitivos do país azteca. 

Aí, percebendo que faturaria muito mais fingindo ter vivenciado pessoalmente tais experiências ao invés de haver tomado conhecimento delas prosaicamente gravando depoimentos, jogou a tese acadêmica que estava escrevendo no lixo e lançou o ficcional A erva do diabo, em cuja veracidade tanto bicho-grilo acreditou piamente. 

 Paulo Coelho vendeu o mesmo peixe podre pela segunda vez. E, fantasia por fantasia, sempre achei mais fascinantes e bem escritas as do Castañeda. (por Celso Lungaretti, jornalista, escritor e ex-preso político)
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