Celso Lungaretti: ‘A temperatura política esquenta: ligações perigosas do clã Bolsonaro e Bebianno advertindo contra perigo de golpe’

31/10/2019 09:02

NÃO DÁ PARA DIZER QUE O BOLSONARO ESTEJA ENVOLVIDO. 
MAS, PODE UM ‘PARÇA’ DE MILICIANOS PRESIDIR O BRASIL?!

O que há de concreto, no atual estágio das investigações policiais, é o seguinte: um dos envolvidos no bestial extermínio da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes tinha algo muito urgente para tratar com o provável carrasco e, precisando entrar no condomínio onde também mora o hoje presidente da República, apontou-o como sendo aquele a quem visitaria. 

 O porteiro fez a consulta de praxe e afirma ter recebido do apartamento em questão a autorização para franquear-lhe o ingresso.
Há muito a ser esclarecido, antes de podermos chegar a qualquer conclusão sólida. P. ex., já que o Bolsonaro estava viajando, não terá a pessoa que respondeu no interfone simplesmente entendido mal? Como não pertencemos à força-tarefa da Lava Jato, devemos respeitar a presunção de inocência…
Mas há, desde já, uma conclusão inescapável: tal criatura do submundo sabia muito bem que Bolsonaro morava lá, tinha o número do apartamento e motivo para crer que o deixariam entrar.
Se não podemos ainda falar em conhecimento, cumplicidade ou participação nos homicídios, a promiscuidade com a escória do submundo do RJ fica mais do que evidenciada.
O que são as milícias, afinal, se não uma organização criminosa que, a pretexto de proteger a comunidade contra bandidos, na verdade os elimina para tomar-lhes o mercado, contando para tanto com a proteção da polícia e de políticos como os Bolsonaros?
Lembrem-se: Pablo Escobar chegou até a ser deputado, mas nem a Colômbia aguentou por muito tempo a humilhação mundial de manter um notório narcotraficante no seu Legislativo.
E o Brasil, até quando aguentará ter um parça de milicianos como presidente?(por Celso Lungaretti)

celso lungaretti / edson sardinha

BEBBIANO ADVERTE QUE ENTORNO DO BOLSONARO O PRESSIONA PARA QUE TENTE DAR UM GOLPE DE ESTADO

Celso Lungaretti

A possibilidade de o presidente Jair Bolsonaro, face ao fracasso acachapante de sua gestão, tentar dar um golpe de Estado foi o assunto mais importante abordado na longa entrevista ao Congresso em Foco do advogado Gustavo Bebianno, que presidia o PSL quando da campanha presidencial de 2018 e chegou a comandar a Secretaria-Geral da Presidência no novo governo, sendo exonerado já em fevereiro.

Ele foi entrevistado por Edson Sardinha neste momento em que ingressa no PSDB para trabalhar na campanha de João Dória Jr. em 2022.

Edson Sardinha

Por motivo de espaço, publicamos abaixo apenas suas respostas, que foram, ademais, condensadas, com a supressão de trechos repetitivos e de informações menos relevantes para os leitores do blog Náufrago da Utopia.

Às palavras de Bebbiano, pois!

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O governo do presidente Jair Bolsonaro é uma decepção para todos os brasileiros que pensam, raciocinam e que querem não uma dinastia, um sistema ditatorial, personalíssimo, baseado numa entidade suprema, num mito.

O Brasil precisa de um gestor. De um presidente que saiba exercer as suas funções em benefício do país. Infelizmente as promessas de campanha foram todas deixadas de lado, seja para proteger e favorecer os próprios filhos, seja porque infelizmente ele só olha para as eleições de 2022. 

Terá Bebianno (esq.) ajudado a fabricar um monstro?

É com muita perplexidade que eu e a maioria dos brasileiros assistimos a esse show de palhaçadas promovido principalmente por Carlos Bolsonaro. 

De uma maneira inconcebível, ele tem acesso exclusivo às redes sociais do presidente. Faz publicações cotidianas de forma infantiloide e irresponsável. Está destruindo o governo do pai. 
Não vejo como o governo dele possa chegar ao final de uma maneira normal, pacífica, porque ele e os filhos alimentam essa beligerância. Veja agora o episódio com o PSL e o vídeo do leão e das hienas. É um negócio tão beligerante e personalista, mesquinho, egoísta e tão burro, sem estratégia, sem nada. 
Se não fossem os presidentes Paulo Guedes e Sergio Moro – pode botar ipsis litteris –, o Brasil já estaria mais no fundo do poço que já está. Vejo a gestão Jair Bolsonaro como irresponsável e desgovernada. Se pegar a agenda presidencial, você vai ver que não tem trabalho nenhum em benefício do Brasil, zero. Por conta desse quadro muito preocupante, não vejo como ele possa chegar ao fim de maneira pacífica.
É impossível se manter mais três anos nesse ritmo. Ele entrou numa maratona de 40 e tantos quilômetros e está correndo como se fossem 100 metros rasos. Ninguém aguenta isso. 

“show de palhaçadas do Carlos Bolsonaro”

A primeira coisa [que Bolsonaro deveria fazer] é afastar os filhos. Em seguindo lugar, mudar o núcleo duro todo. Tem de afastar esse Filipe Martins [assessor especial da Presidência], trocar o ministro das Relações Exteriores [Ernesto Araújo], cortar relações com o Olavo de Carvalho, tem de ouvir pessoas normais. E não loucos. 

Ou ele muda radicalmente seu comportamento, afasta os filhos e passa a ouvir pessoas racionais e adultas, ou ele não vai terminar bem. Ou vai renunciar (dar uma de Jânio Quadros), ou vai sofrer impeachment ou ele próprio vai tentar ruptura institucional.
As pessoas vinculadas diretamente a ele [Bolsonaro] falam isso [em ruptura institucional]. Ele não diz o contrário. Esse Filipe Martins fala em ruptura institucional. O Olavo fala em ruptura. O Eduardo e o Carlos falam em ruptura institucional. O presidente em algum momento desdisse? Deu alguma manifestação contrária a isso? Não, ele silencia. 
O Brasil está caminhando para um lugar muito pantanoso, escuro e perigoso. Do jeito que esse núcleo duro do presidente se manifesta, vão fazer uma guerra civil? Olavo diz que tem de eliminar toda a oposição. O que significa eliminar a oposição? Diz que tem de fechar os partidos de esquerda. Como seria no mundo prático a operação disso? 
Naquela época [em que Bebianno apoiou a pretensão presidencial de Bolsonaro] os filhos dele pouco participavam. Eram contatos esporádicos.

“não precisava nem de jipe para fechar o Supremo”

Depois que ele chegou ao poder, os filhos Eduardo e Carlos grudaram de modo que não sobra espaço para nenhuma cabeça mais preparada, racional, ninguém mais, influenciar o presidente. O Brasil hoje é governado de fato por Carlos e Eduardo Bolsonaro. 

Quem votou em Jair esperava outra coisa. O poder acabou subindo à cabeça dele, que começou a mostrar um perfil muito autoritário. Eu esperava uma coisa completamente diferente, esperava que depois da vitória ele tivesse uma postura mais nobre, mais conciliadora e apaziguadora. 
Metade do Brasil tem uma cabeça diferente da dele. Faz o que com essas pessoas? Elimina? Mata? Joga dentro do mar? Não é assim, não é com agressão, briga e hostilidade que o Brasil vai ser unido. O Brasil é de todos, tem lugar para todo mundo. Precisamos de um movimento de conciliação. 
[Sobre o eventual apoio das Forças Armadas a uma tentativa golpista de Bolsonaro] É difícil dizer. Houve ali uma quebra de confiança no início da gestão. O que é até bom. Por conta desses mesmos filhos, o general Mourão foi muito agredido, o general Santos Cruz e o general Eduardo Villas-Boas também. As Forças Armadas olham com muita desconfiança para ele. 

“dar uma de Jânio Quadros”

Não acredito que ele conseguiria consolidar uma ruptura institucional, mas tudo indica que ele vai tentar. É muito preocupante. Uma simples tentativa pode gerar muito derramamento de sangue. O Brasil não precisa disso. É um risco real. É difícil precisar o momento, mas que essa hipótese é cogitada na cabeça dos filhos, dele, do entorno, isso é.

[Sobre se o vídeo em que o STF e outras instituições são tratados como hienas que atacam um leão, seria ele um indício da dita predisposição golpista] Sim, é um indicativo, assim como a fala do Olavo e do Filipe Martins sugerindo um novo AI-5, o extermínio de partidos de oposição. 
Isso tudo claramente. O Eduardo disse que bastava um cabo e um soldado, não precisava nem de jipe, para fechar o Supremo. Outro dia o Carlos disse que as coisas são muito lentas na democracia. Não são sinais que precisam ser traduzidos. As falas deles são explícitas.  (a entrevista é de Edson Sardinha e foi condensada por Celso Lungaretti para publicação no blog Náufrago da Utopia)
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