Célio Pezza: ‘Só morre gente boa?’

20/09/2020 08:57

Célio Pezza

Crônica # 437: ‘Só morre gente boa?’

Se observarmos os velórios dos artistas, políticos e celebridades de todo o mundo, os comentários são de que todos eram pessoas amáveis, prestativas, bondosas, ótimos pais ou filhos e exemplos a serem seguidos. O mundo sentirá muita falta, não será mais o mesmo e assim por diante. Pessoas que muitas vezes nem se falavam na vida real, correm aos velórios com cara de tristeza lamentando a perda do grande amigo. Nunca vi alguém falando que o falecido era um mau caráter, falso, enfim, que o mundo vai ficar melhor sem ele. Se todos os comentários fossem verdadeiros, chegaríamos à conclusão que só morre gente boa e os pilantras vão ficando para semente. Mas fica a questão de porque transformar em gente boa os que morrem. Será que é medo de que o morto volte para se vingar de quem falou a verdade sobre ele? Será que é para aparecer ao lado da celebridade morta?

A História muitas vezes se encarregou de transformar homens maus em heróis e temos inúmeros casos de gente que não valia nada, mas que virou quase um herói depois de morto. Se a morte foi com muito sofrimento, pode até virar santo, mesmo que tenha tido uma vida de bandidagem.

Temos exemplos no mundo do cinema, nos EUA, onde um grande empresário de sucesso na verdade explorava seus funcionários, plagiava personagens de seus filmes, era um agente do FBI, delator dos seus amigos, e a História o transformou em um ícone do cinema e filantropo. Aqui no Brasil, tivemos o caso recente de um MC funkeiro que enaltecia a bandidagem e, após sua morte trágica, virou um mártir da música brasileira. Traficantes de drogas viram vítimas, e por aí vai. De acordo com a lei brasileira, ofender a memória dos mortos não é crime, mas pode constituir um dano moral, contra a honra da pessoa. Os crimes contra a honra são a calúnia, a injúria e a difamação. Calúnia, quando imputa a alguém um fato definido como crime; difamação, quando é contra a sua reputação e injúria contra a sua dignidade. Somente a calúnia está prevista, quando praticada contra os mortos. Se um morto sofre uma calúnia, os seus herdeiros podem exigir uma reparação, pois esse direito é transmitido por herança aos herdeiros. Talvez por essa razão, ninguém fala mal de uma pessoa morta, por pior que ela tenha sido. Seja por medo do fantasma do morto, seja por medo das leis dos Homens, o fato é que basta morrer para virar gente boa ou então, só morre gente boa.

 

Célio Pezza     setembro, 2020

 

 

 

 

 

 

 

 

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