Célio Pezza: ‘Os perigos de uma única história’

23/01/2021 17:23

Célio Pezza

Crônica # 450: Os perigos de uma única história

Certa vez, assisti pela internet o depoimento da escritora nigeriana Chimamanda Adichie, patrocinada pela fundação TED (Tecnologia, Entretenimento e Design), que promove palestras pelo mundo, sobre ideias que merecem ser disseminadas. Entre seus palestrantes, aparecem nomes de peso tais como Bill Clinton, Al Gore, Bill Gates e seus temas abrangem aspectos da ciência e cultura. Nesta palestra, Adichie mostra de uma forma clara os perigos de conhecermos somente uma história e, através dela, sermos impressionados e formarmos determinados conceitos e preconceitos. Ela fala sobre os perigos de uma única história. Em certo momento, contou ser de uma família de classe média na Nigéria e que seus pais tinham um empregado vindo de uma aldeia muito pobre. Ela cresceu ouvindo de sua mãe que a família deste empregado era paupérrima e todos viviam de uma forma miserável. Esta era a única história e, assim foi criada a imagem na sua cabeça. Pessoas pobres, sem nada na vida, que viviam em função de um prato de comida. Mais tarde, quando visitou a aldeia, viu que lá existiam pessoas com grande habilidade manual e faziam um artesanato lindo. Esta era outra história, que ela não sabia existir, sobre os habitantes da aldeia. Além de pobres, eles tinham aptidões e faziam coisas lindas! Eu me lembrei de uma vez em que estive nos Estados Unidos a serviço e um americano me levou até sua casa no final da tarde. Enquanto eu esperava por ele, sua mãe, uma senhora de seus setenta anos, me levou até a cozinha, onde me apresentou a sua geladeira e lava-louças, coisas que ela não sabia existir no Brasil dos anos oitenta. A princípio, achei que ela era meio louca, mas depois, vi que ela era desinformada sobre tudo que estava fora de seu ambiente. Hoje a vejo como uma vitima de quem passou uma vida com somente uma história. Ela não sabia outra história sobre o Brasil, quer seja por ignorância ou por outro motivo. Após conversarmos por meia hora, sua expressão era de assombro, bem diferente da inicial. Ela estava ouvindo outra história, bem diferente da única que tinha escutado durante toda sua vida. Durante a palestra de Adichie, eu me vi novamente dentro de uma cozinha, numa pequena cidade do interior dos Estados Unidos, com uma senhora de uma única história. Os perigos de se ouvir uma única história sobre uma pessoa, um grupo social, uma cidade, um país ou uma cultura, é o de gerar preconceitos e um sem número de mal entendidos. Nossas vidas são compostas de muitas histórias e, para entendermos um ser humano, temos que conhecer várias de suas histórias.

 

Célio Pezza, janeiro, 2021

 

 

 

 

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