Carlos Cavalheiro: ‘A promessa para a Educação’

16/04/2019 15:46

Carlos Carvalho Cavalheiro

A promessa para a Educação

 

Não decolou. Esse foi o resultado final de cerca de três meses de gestão de Ricardo Vélez Rodríguez na pasta do Ministério da Educação. Uma longa série de desgastes, equívocos e crises demonstraram o descompasso do comando de Vélez e a expectativa criada, tanto pela população quanto pelo próprio governo.

No final do mês passado, numa audiência pública com deputados federais, o então Ministro da Educação foi sabatinado pela deputada estreante Tábata do Amaral, que teria dito a ele: “Em um trimestre, não é possível que o senhor apresente um powerpoint com dois, três desejos para cada área da educação. Cadê os projetos? Cadê as metas? Quem são os responsáveis? Isso daqui não é planejamento estratégico, isso e uma lista de desejos”.

Ao mostrar o despreparo do ministro, a deputada abriu para a opinião pública aquilo que já se desconfiava: o despreparo de quem estava à frente do Ministério da Educação era evidente.

Preocupado muito mais com questões ideológicas, como o revisionismo histórico do Golpe de 1964 nas apostilas e livros didáticos e com o ufanismo nacionalista, Vélez não compreendia – assim como muitos de seus asseclas e gurus – que o problema da educação no Brasil não está enraizado numa suposta doutrinação marxista.

Ao contrário, o que os índices da educação apontam é que significativa parte dos estudantes brasileiros não compreenderiam sequer uma linha dos escritos de Marx e Engels simplesmente porque saem da escola sem que o processo de alfabetização tenha sido completado.  Os números oficiais apontam, ainda, que muitos dos alunos que terminam o Ensino Médio não possuem sequer o nível básico dos conhecimentos que deveria ter adquirido nos 12 anos em que esteve na escola.

Dados divulgados pelo MEC, oriundos do SAEB de 2017, indicam que 7 de cada 10 alunos que concluem o 3º ano do Ensino Médio possuem nível insuficiente do domínio da Língua Portuguesa e da Matemática. Da análise desses dados conclui-se que a maioria dos estudantes não consegue sequer localizar informações que estão explícitas em textos escritos como artigos de opinião.

Se Ricardo Vélez tivesse consultado a fonte de dados produzida em sua própria pasta, quiçá estivesse menos preocupado em caçar bruxas e bichos-papões e, como gestor, tivesse apresentado propostas claras e objetivas de como atacar os problemas já revelados.

No entanto, a cegueira, o fanatismo e fundamentalismo que se têm mostrado a marca desse governo impede que o óbvio seja percebido. Não existe doutrinação partidária ou comunista nas escolas – a bem da verdade, nem mesmo a maioria dos professores leram algum livro escrito por Marx – e, ainda que existisse, não é esse o problema real da Educação do Brasil.

Na última terça-feira, dia 9 de abril de 2019, Vélez foi demitido. Não havia mais como se sustentar. Em seu lugar foi nomeado Abraham Weintraub, que, como seu sucessor, parece se assustar com fantasmas da enterrada Guerra Fria.

Entretanto, Weintraub prometeu uma gestão de resultados, focada nos problemas cruciais da educação, mostrou-se aberto ao diálogo com a sociedade e até reconheceu o trabalho do educador Paulo Freire! Diz que não é filiado a nenhum partido político, o que é um alívio, e que é professor universitário.

De tudo, portanto, ainda resta a esperança. O tempo dirá, mas é justo que se permita que antes de dizer, o tempo possa ser livre para deixar acontecer. Aguardemos, então.

 

 

Carlos Carvalho Cavalheiro

09.04.2019

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