Carlos Cavalheiro: ‘A nossa primeira médica’ – PARTE 3

15/01/2017 17:46

Carlos Cavalheiro Carlos Carvalho Cavalheiro: ‘Ursulina Lopes Torres, a nossa primeira médica’ – Parte 3 (última)

 

Há uma parte da pesquisa que não depende do pesquisador. Essa parte tem vida própria, escolhe seus caminhos, conduz o pesquisador até onde quer. Quando resolvi escrever sobre a doutora Ursulina Lopes Torres, encantado que estava com sua biografia, pensei que daria conta de tudo em um só artigo.

No entanto, as informações foram surgindo às pencas e o artigo se desdobrou em duas partes. O resultado pareceu-me razoável, mas havia uma pendência ainda: não conseguira descobrir a data de falecimento da notável médica. Por um desses caprichos da pesquisa, que nem sempre se submete ao pesquisador, ao entregar a segunda parte (a qual eu dava por encerrada, embora estivesse faltando a data do óbito), a amiga e pesquisadora Sonia Belon trouxe notícia nova de um artigo da internet que lhe fora enviado pelo Eugênio Motta Neto.

Pois bem, a leitura do trecho desse artigo em que é citada a doutora Ursulina Lopes abriu novas possibilidades de pesquisa e encontrei uma infinidade de informações, incluindo a data de falecimento.

Detalhes importantes foram esclarecidos e isso suscitou o desdobramento dessa terceira parte. Uma das informações encontradas, e de interesse, é o fato de que Ursulina começou a exercer a profissão de médica imediatamente após a conclusão da Faculdade no Rio de Janeiro. No “Annuario Administrativo, agrícola, profissional, mercantil e industrial do Rio de Janeiro e Indicador para 1908”, editado por Adriano Maury & C., na página 1778 aparece o nome dela, estabelecida como médica na rua Miguel de Frias. Na mesma rua aparece o nome de “A. Lopes Torres”, provavelmente seu pai Anastácio, com estabelecimento de “pharmácia”.

Muitos pesquisadores encontraram os originais da tese de doutoramento de Ursulina Lopes Torres. Naquela época, os médicos eram doutores porque defendiam tese de doutoramento. Sobre isso, Jeorgina Gentil Rodrigues citou em artigos de revistas científicas e acadêmicas: “TORRES, Ursulina Lopes. Semiologia do feixe de His (do bloqueio cardíaco). 1908. Tese de doutoramento (cadeira de clinica propedeutica) – Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Typ. do Jornal do Commercio, 1908. 104 p.: il., fot., estampas; 26 cm. Notas: Folhas de estampas intercaladas sem numeração. Citação de nomes ao longo do texto, com referência no rodapé. Ex-dono na página de rosto: “J. Fonseca”. Estado de conservação do exemplar: folha de rosto solta”.

As citações foram feitas nos artigos: “GÊNERO, CIÊNCIA & TECNOLOGIA E SAÚDE: UM OLHAR EXPLORATÓRIO A PARTIR DO ACERVO DE OBRAS RARAS DA BIBLIOTECA DE CIÊNCIAS BIOMÉDICAS DA FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ”, comunicação oral feita no XIV Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (ENANCIB 2013) GT 11: Informação e Saúde e “Apontamentos sobre a participação feminina na pesquisa no campo da saúde a partir do acervo de obras raras da Biblioteca de Manguinhos da Fundação Oswaldo Cruz”, publicado na Revista Perspectivas em Ciência da Informação (vol.21 no.1 Belo Horizonte Jan./Mar. 2016), em parceria com Maria Cristina Soares Guimarães. Nesse artigo, as autoras informam que foram 50 o número de teses inaugurais ou de doutoramento escritas por mulheres, sendo que dessas, apenas 20 foram escritas por brasileiras. A novidade é que se sabe, por meio desse artigo, que a referida tese de Ursulina Lopes está na Biblioteca de Manguinhos. Não valeria a pena envidar esforços para se conseguir uma cópia para o nosso Arquivo Público Municipal?

A mesma informação ainda foi citada pelas pesquisadoras Claudia Regina Cicon; Patrícia Pereira Almeida; Sandra Moitinho Lage e Rosane Alvares Lunardelli (todas da UEL), que apresentaram comunicação oral no mesmo XIV Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação.

De acordo com Antonio Valsalva, Ursulina Lopes Torres obteve a transferência da Faculdade de Medicina e Farmácia de Porto Alegre para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1904, graças a uma permissão dada pela Lei Rivadavia (http://antoniovalsalva.blogspot.com.br/2011/07/professores-emeritos-da-ufrgs-em-2009.html). Maria Lucia Mott e Olga Sofia Fabergé Alves, no artigo “Farmacêuticas em São Paulo (1901-1919)”, publicado Boletim do Instituto de Saúde Nº 38 – Abril de 2006, afirmam na página 27 que “A documentação sugere que a farmácia não teria sido a primeira opção profissional, como ainda hoje, para muitos estudantes da área da saúde que projetam seus sonhos para a medicina: Ursulina Lopes Torres, primeira farmacêutica registrada no Serviço Sanitário de São Paulo, se formou posteriormente em medicina tornando-se médica do Hospital das Crianças no Rio de Janeiro”.

Em 1909, um ano depois de formada, Ursulina ainda exercia medicina no Rio de Janeiro, com consultório na rua Frei Caneca, apresentando-se como especialista em moléstia de crianças (pediatria). A publicação em questão foi feita na famosa revista infantil “Tico Tico” e encontrada pela pesquisadora Luciana Borges Patroclo, apresentada na página 154 de sua tese de doutorado “AS MÃES DE FAMÍLIAS FUTURAS: A REVISTA O TICO-TICO NA FORMAÇÃO DAS MENINAS BRASILEIRAS (1905-1921)” (Programa de PósGraduação em Educação do Departamento de Educação da PUC-Rio). Na mesma tese, a pesquisadora apresenta a informação sobre a estada de Ursulina Lopes Torres na Europa: “Na edição do jornal Correio da Manhã, de 20 de novembro de 1914, foi publicado um anúncio sobre a volta da médica ao Brasil, após uma temporada de estudos de dois anos na Europa. “A DRA. URSULINA LOPES, de volta de uma viagem á Europa, onde permaneceu dois annos, freqüentando sempre os maiores hospitaes de Londres, Berlim e Paris, fazendo cursos especiaes de gynecologia, obstetricia, pediatria, electrotherapia, massagem manual e vibratória, gymnastica medica, cystocopia e catheterismos dos ureteres, anesthesia, tratamento moderno pelo ar quente, ar comprimido, ar rarefeito, participa ás suas dignas amigas e clientes que se acha novamente á sua disposição, á rua Miguel de Frias, sobrado (p.9). DRA URSULINA LOPES. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, p.9,20 nov.1914”.

Há registro dela como vogal no PREMIER CONGRES DE PARIS, no ano de 1912 (https://archive.org/stream/b21701799/b21701799_djvu.txt). Na década de 1920, Ursulina Lopes aparece trabalhando na Policlínica das Crianças, juntamente com o médico Antonio Fernandes Figueira. Nessa mesma década, dirigiu uma instituição de atendimento às crianças no Hospital Arthur Bernardes, no Rio de Janeiro. Conforme a pesquisadora Andréia Neves de Sant’Anna, nas páginas 4 e 5 de sua dissertação de Mestrado em Enfermagem, HOSPITAL JESUS: ESTRATÉGIAS E EFEITOS SIMBÓLICOS NA FORMAÇÃO DO QUADRO DE PESSOAL DA ENFERMAGEM (1935-1938), apresentada à Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro em 2009, “Neste mesmo ano (1924), ligada a Inspetoria de Higiene Infantil do Departamento Nacional de Saúde Pública, chefiada pelo Dr. Antônio Fernandes Figueira (1863-1928), foi criado o Hospital Arthur Bernardes, nos fundos do Hotel Sete de Setembro, para instalação de uma instituição destinada ao atendimento à criança dirigida pela médica Ursulina Lopes, por indicação de Antônio Fernandes Figueira (Seta, 1997, 31)”.

Em 1929, o nome de Ursulina Lopes aparece como vogal no 10º Congresso Brasileiro de Medicina, ocorrido nos dias 30 de junho a 7 de julho, no Rio de Janeiro (Archivos Rio grandenses de Medicina, nº 2, fevereiro de 1929).

É difícil entender, portanto, como Ursulina Lopes exercia a medicina em Porto Feliz desde 1916, conforme diz a tradição popular. Entre 1912 a 1914 ela esteve na Europa, mas nos anos seguintes, incluindo a década de 1920, aparece exercendo funções administrativas e médicas no Rio de Janeiro. Fica aqui a dúvida. Em todo o caso, Ursulina continua sendo a primeira médica a clinicar em Porto Feliz.

Ursulina aparentemente exerceu a medicina na década de 1940 em Sorocaba. No dia 14 de abril de 1949, a primeira médica de Sorocaba e de Porto Feliz faleceu. Residia em Sorocaba, mas foi sepultada em Porto Feliz, conforme a publicação de nota de falecimento no jornal Cruzeiro do Sul, dia 20 de abril daquele ano.

Foram realizadas, pelo menos, três missas por intenção de sua alma em Sorocaba. Uma foi realizada no dia 20 de abril, no altar mor da Catedral; a segunda no dia 22 na Igreja de Santa Clara e a terceira no dia 25, na Igreja de São Bento. Todos esses templos no centro da cidade de Sorocaba, um próximo ao outro e localizados perto da residência da falecida.

Em Porto Feliz, pelo que se sabe, não há rua ou qualquer outro logradouro em homenagem à nossa primeira médica. Seria o caso de se sugerir a realização de uma homenagem a essa mulher, sobretudo no dia 8 de março (dia internacional das mulheres), pioneira na medicina paulista. Em Sorocaba, há uma honraria da Câmara Municipal que é o “Diploma Mulher Cidadã Salvadora Lopes Peres”, que leva o nome de uma importante militante feminina. Porto Feliz poderia realizar algo similar, ofertando tal honraria, que levaria o nome da nossa primeira médica, Ursulina Lopes Torres, às mulheres de destaque e de lutas na cidade. Ou mesmo a nomeação de logradouros públicos. Fica a sugestão.

 

 

Carlos Carvalho Cavalheiro

03.01.2017

 

 

 

 

Cruzeiro do Sul, 20.04.1949, p. 1.

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