Carlos Carvalho Cavalheiro: ‘Walter Franco’

30/10/2019 22:17

Carlos Cavalheiro

Walter Franco

“Lá vai uma vela aberta, se afastando pelo mar…”. Esses versos talvez sejam uns dos mais lembrados da carreira artística do cantor e compositor paulistano Walter Franco. Num processo de releitura, são esses mesmos versos que anunciam a viagem dele para outro plano. No dia 24 de outubro de 2019 Walter Rosciano Franco faleceu vítima de complicações de um AVC. 

Filho do poeta e deputado socialista Cid Franco, o cantor e compositor fez parte da geração de vanguarda paulista das décadas de 1970 a 1980, chamada de “Malditos da MPB”. Dessa geração participaram o tieteense Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Eliete Negreiros, Jards Macalé, Sérgio Sampaio, Tom Zé, Aguilar e Banda Performática entre tantos outros.

Polêmico, crítico, provocador, talentoso… Walter Franco reunia todas as qualidades daqueles que carregaram a pecha de “Malditos da MPB”. Em 1973 lançou o seu primeiro LP intitulado “Ou não”. Até hoje é considerado, ao lado de “Araçá Azul”, de Caetano Veloso, como o disco mais experimental da Música Brasileira. Uma espécie de “Sargent Pepper’s” tropical.

Com letras inusitadas, algumas em forma de poesia concreta, com efeitos sonoros avançados para a época e música experimental em que se percebia a presença de atonalidades e microtonalidades, o artista logo se destacou no cenário musical brasileiro chamando a atenção do público e da crítica especializada. Provavelmente, como muitos de seus contemporâneos, Walter Franco foi influenciado pelos estudos do maestro Hans-Joachim Koellreutter. No entanto, Walter Franco foi se reinventando ao longo do tempo e seus discos traziam sempre uma inovação e uma surpresa sem, contudo, perder a essência.

Após o lançamento de “Ou não”, disco que traz em uma das faixas a música “Cabeça”, defendida por Walter Franco no Festival Internacional da Canção de 1972, o cantor e compositor brindou os fãs com o disco “Revolver”. Como o anterior, esse disco trazia algo próximo ao psicodelismo, mas também muita influência do Rock (por exemplo, na música “Feito Gente”) e o uso de poesia concreta com toques de musicalidade brasileira, como em “Eternamente”. Nessa música, um coro ao fundo parece competir com o cantor, aumentando o volume durante a sua execução, chegando ao mesmo tom da voz principal. 

O disco seguinte, “Respire Fundo” traz um Walter mais “zen”, com canções que incorporam o espírito da época, com toques de misticismo e linguagem religiosa: “Abra os braços / Respire Fundo / E corte os laços / Todos deste mundo/ Com a sua imagem e semelhança/ Nos mesmos traços/ De uma criança / Muito mansa e muito louca/ Com a sua voz na minha boa/ Um segundo, Jesus Cristo/ Por todos nós, por tudo isto”. Há um certo tom de hippie brasileiro, com mais canções e menos experimentalismos dos discos anteriores.

Ainda assim essa reinvenção agradou ao público e aos fãs. Na sequência, Walter Franco lançou “Vela Aberta”, álbum que se aproximava mais da MPB, apesar de contar numa das faixas com a música “Canalha”, com guitarra e baterias pesadas, num rock que procurava denunciar as torturas cometidas durante a ditadura militar: “É uma dor canalha / que te dilacera / É um grito que se espalha / também pudera / Não tarda, nem falha / Apenas te espera / Num campo de batalha / É um grito que se espalha/ É uma dor… CANALHAAAAAAA!”. 

Walter Franco lançou ainda gravou outros dois discos: “Walter Franco” (1982) e “Tutano” (2001). Há tempos realizava shows com seu filho Diogo Franco. Em Sorocaba, apresentou-se em 1994 no Bar Koisa Nossa e no Salão Fundec, num evento promovido pelo SESC Sorocaba, em outubro de 2013, já acompanhado pelo Diogo. Estive presente nas duas oportunidades. Na primeira, por oportuno, lembro que o entrevistei para um jornal cultural alternativo, o Sepé-Tiaraju.

Walter Franco é um daqueles seres humanos que faz falta em qualquer contexto. Agora, no momento em que vivemos, muito mais. Empobrecemos sem a sua presença entre nós. 

 

Carlos Carvalho Cavalheiro

carlosccavalheiro@gmail.com

29.10.2019

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