Carlos Carvalho Cavalheiro: ‘Triste sina’

05/07/2019 08:34

Carlos Cavalheiro

Triste sina

Dentro de uma viagem conturbada, marcada por notícias de tráfico de drogas em avião da comitiva presidencial, fiascos e de agendas desmarcadas, o presidente Jair Bolsonaro comemorou, ao final da reunião do G 20, o acordo comercial entre União Europeia e o Mercosul. Na expectativa do presidente, a assinatura do acordo, que segundo alguns vinha sendo negociado há 20 anos, produzirá um “efeito dominó” estimulando outros países como o Japão a comercializar mais com o Brasil.

O presidente Jair Bolsonaro sempre apontou para uma política externa voltada para o que chama de “interesses da Nação” (ou algo que o valha) em detrimento do que ele também chama de “viés ideológico”. Para Bolsonaro, realizar acordos comerciais com países governados por políticos contrários aos EUA é tratar a economia com viés ideológico. O contrário, segundo ele, não é. Paradoxalmente, Bolsonaro não dispensa acordo comercial com a China comunista. China é o maior parceiro comercial. Queremos aprofundar esse relacionamento para desfazer certas coisas que falavam ao meu respeito desde lá atrás”, disse. Pois bem. O que diz o acordo comercial entre o Mercosul, bloco do qual o Brasil não somente faz parte como também é liderança, e a União Europeia? Uma das primeiras exigências do acordo, por parte dos europeus, é a inclusão de mais de 350 produtos como propriedade intelectual, o que impede o uso e a fabricação de outros países (no caso, os do Mercosul). Por exemplo, o queijo Roquefort é uma das sete propriedades intelectuais reconhecidas hoje pelo Brasil como sendo exclusivo da França. Nenhuma fábrica brasileira, portanto, pode usar o nome do queijo Roquefort. O mesmo ocorre com o vinho do Porto, que é reconhecido como marca exclusiva de Portugal.

O Brasil, como sempre, em sua submissão ao Velho Mundo, pediu o reconhecimento por parte da União Europeia de apenas 61 produtos, como a cachaça de Paraty, o queijo canastra de Minas Gerais e a própolis vermelho dos manguezais de Alagoas. De acordo com a Revista Veja (versão on line), “A partir da ratificação do acordo, outros 350 produtos também ganharão essa proteção no Mercosul, aumentando em muito as restrições a determinados setores da indústria, sobretudo para fabricantes de queijos, embutidos e bebidas”.

Já os europeus só precisarão se preocupar com 61 produtos brasileiros. Somos modestos, e abaixamos a cabeça a quem tem mais potencial do que nós. O acordo prevê redução gradual – que poderá chegar a zero – de impostos de importação e exportação dos dois blocos. 

Com isso, carros produzidos na Europa poderão chegar ao Brasil com preços competitivos. A nossa indústria já anda mal das pernas, agora será o seu fim. A Toyota, que é uma empresa japonesa, instalou duas fábricas em nossa região: Sorocaba e Porto Feliz. Há algumas semanas anunciou demissões em massa. Como ficarão os outros trabalhadores dessa fábrica quando o acordo for ratificado?

A questão é essa: não temos tecnologia que interesse aos europeus. Portanto, voltaremos aos tempos coloniais de fornecimento de matéria-prima e produtos tropicais e, em contrapartida, continuaremos sendo consumidores de tecnologia desenvolvida em outros países. Triste sina nossa de sermos sempre colonizados.

Cortes nos investimentos em educação, facilitação na liberação do porte de armas, agressiva reforma de Previdência para os trabalhadores (basta ver que setores corporativistas já estão buscando a sua saída da reforma. A mesma que querem vender como sendo benéfica a todos. Só que ninguém quer para si) e, agora, esse acordo que nos levará ao buraco infinito da recessão e da pobreza.

Aliás, do ponto de vista da economia, o tão falado ministro Paulo Guedes parece que não consegue realizar nenhuma ação antes da reforma da previdência. E, com isso, a recessão econômica e o desemprego só aumentam. 

Só não há como o eleitor dizer que foi enganado. Tudo o que esse governo tem feito já estava predito em seus discursos e promessas. Aliás, Bolsonaro foi, talvez, o candidato mais honesto de todos. Disse o que pretendia fazer e está fazendo. Tolo de quem votou nele acreditando em algo diferente das suas promessas de campanha.

 

Carlos Carvalho Cavalheiro

02.07.2019

carlosccavalheiro@gmail.com

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