Carlos Carvalho Cavalheiro: ‘Talento da Terra: Eric Cobrah’

29/05/2020 11:25

Carlos Cavalheiro

Talento da Terra: Eric Cobrah

Eric Cobrah

             Há um ditado que diz que “santo de casa não faz milagre”. Jesus Cristo disse algo semelhante ao afirmar que um profeta não tem honra em sua casa e entre os seus. No entanto, é preciso entender que contextos diferentes promovem reações distintas. Existe sim uma tendência a não acreditar no potencial daqueles que estão próximos a nós. Mas nem sempre deixaremos de reconhecer o seu talento quando ele se mostrar.

Se um profeta do primeiro século não convencia aos seus parentes, isso não significa que um artista do século XXI terá a mesma sorte. E disso já tivemos inúmeros exemplos.

Quem procurar o nome de Eric Cobrah em vídeos pela internet talvez se surpreenda e não reconheça de imediato o cantor e compositor de Porto Feliz, vocalista da banda Porão 365. Não porque ele não tenha demonstrado o seu valor artístico já naqueles idos finais da década de 1990. Ao contrário, os elementos fundamentais do artista já estavam ali presentes.

Porém, há um salto enorme entre esse trabalho e o que Eric Cobrah vem produzindo atualmente. A começar pela produção áudio visual dos clips das músicas, com qualidade técnica impecável e cuidado estético primoroso. Sem receio de ousar, as cenas de “Blue Bird Man”, clip assinado por Alice Blake, contrasta a escuridão da noite com o bruxulear de chamas de uma fogueira. O resultado é um controle da iluminação, valorizando o que importa da cena, criando uma narrativa que nos empurra ao imaginário do longínquo “oeste selvagem” dos mitos estadunidenses. Sim, porque o trabalho de Eric Cobrah é baseado no folk, com influência de Bob Dylan, Woody Guthrie, Johnny Cash e Neil Young. “Blue Bird Man” foi composta em homenagem ao seu amigo Azulão. Neste vídeo, Alice Blake mostra todo o talento e conhecimento da linguagem cinematográfica, sem dever a nenhum clip musical feito por grandes produtoras.

Essa nova fase artística de Eric Cobrah surgiu há quatro anos, com canções em inglês compostas por ele em parceria com a esposa Alice Blake. O objetivo é gravar um álbum com 12 canções produzidas em estúdio. Paralelamente à gravação em homestúdio, algumas dessas músicas vêm ganhando a sua versão em vídeo. Além da já citada “Blue Bird Man”, foram produzidos os vídeos das canções quatro vídeos até agora: Walkway, Brothers, Blue Bird Man e Song to Tommy (The Scarecrow).

As imagens criadas para os clips não são meras ilustrações ou divagações descoladas do contexto musical. Ao contrário, são a perfeita complementação, como um texto que corre em paralelo para reforçar e ao mesmo tempo ampliar os sentidos. É esse o cuidado que se vê na escolha dos ângulos, da iluminação, da interpretação, do uso dos filtros no vídeo.

Quem não conhece o artista, poderia se surpreender ao saber que ele caminha pelas mesmas ruas que nós, na querida Porto Feliz. Ao presenciar uma produção de tamanha qualidade, com texto em inglês, a nossa vilipendiada autoestima – que sofre cada dia, a despeito da narrativa pseudo-patriota – induzirá, certamente, a acreditar que “só pode ser produto vindo de fora”.

Ocorre que, numa análise mais acurada, as pessoas hão de se lembrar do Cire (nome com o qual se apresentava no Porão 365, uma inversão de Eric), do Eric Zorob, seu nome de batismo, e irão perceber que se trata do mesmo Eric Cobrah.

Aliás, há uma história bonita na adoção desse nome artístico. Cobrah é o sobrenome da mãe de Eric. Há algum tempo, com a ameaça de uma doença grave, Eric prometeu que se a mãe se curasse, ele adotaria o seu sobrenome como nome artístico. Sucesso na promessa, sucesso também na carreira artística. Eric Cobrah é um dos talentos desta terra de Porto Feliz.

 

Carlos Carvalho Cavalheiro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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