Carlos Carvalho Cavalheiro: ‘Sartana’

05/02/2020 11:09

Carlos Cavalheiro

Sartana

No início da década de 1960 o cinema italiano produziu um subgênero que ficou conhecido como “western spaghetti” ou “Bang-bang à italiana”. Sem o compromisso com a idealização de personagens e fatos históricos, os filmes retratavam o período da expansão do território estadunidense rumo ao Oeste. Enquanto os estadunidenses romantizavam esse episódio da sua história, os italianos procuravam contar suas histórias com personagens de moral duvidosa.

O cowboy produzido pelo cinema dos Estados Unidos era retratado sempre limpo, barbeado e penteado, vestindo roupas alinhadas e coloridas. Mesmo os bandidos eram “apessoados”, como se dizia antigamente. O italiano, mais próximo da realidade, era coberto de pó da estrada e com excesso de suor no rosto. A barba estava sempre para ser feita e geralmente suas roupas eram maltrapilhas, rasgadas e rotas. Em geral atravessavam a cavalo desertos – a maior parte deles filmados em paisagens de Almeria, na Espanha – e, por isso, não poderiam estar impecáveis.

Parece óbvio, mas no filme estadunidense “O céu mandou alguém” (3 Godfathers), estrelado por John Wayne e dirigido por John Ford, ele atravessa um deserto carregando uma criança de colo, mas quando chega ao vilarejo está impecável. O filme é uma produção da década de 1940. Vinte anos antes, praticamente, do surgimento do gênero italiano de faroeste, estrelado pelo diretor Sérgio Leone (que foi obrigado a assinar como Bob Robertson), no filme “Por um punhado de dólares”, estrelado por Clint Eastwood.

O fato é que o faroeste italiano criou uma legião de fãs que se espalham pelo globo. No Brasil há diversos blogs e páginas dedicadas ao assunto. Na Espanha, fãs desse gênero recuperaram o cemitério cenográfico de Sad Hill, realizando um trabalho hercúleo para trazer de volta a imagem icônica do lugar onde ocorreu o “trielo” entre Clint Eastwood, Eli Wallach e Lee Van Cliff no filme “O bom, o mau e o feio”, também de Sérgio Leone.

O cemitério cenográfico, localizado em Burgos, foi recuperado em 2016 e foi tema de documentário. Um dos mais famosos cineastas da atualidade, Quentin Tarantino, não esconde sua admiração pelas produções desse cinema italiano. Em 2012 lançou o filme “Django livre”, ressuscitando um personagem do western spaghetti, criado por Sérgio Corbucci e estrelado originalmente por Franco Nero.

Aliás, o faroeste italiano gerou diversos personagens icônicos. A começar pelo “homem sem nome”, apelido dado a Clint Eastwood na trilogia dos dólares, dirigida por Sérgio Leone. Depois veio Django, criado por Sérgio Corbucci em 1966. Há também o Trinity, interpretado por Terence Hill (Mário Girotti) e o “Estrangeiro”, interpretado por Tony Anthony (Roger Pettito).

Outro personagem bastante icônico foi Sartana, criado pelo diretor Gianfranco Parolini e interpretado por Gianni Garco (John Garco).  Sartana é jogador e caçador de recompensas, que se veste de preto e usa uma casaca também preta. É exímio no manejo das cartas e usa comumente um pequeno revolver de bolso de quatro tiros, comum entre os jogadores de pôquer daquela época. Gianni Garco o interpretou em quatro filmes oficiais. O ator George Hilton o interpretou uma vez.

Lançado no Brasil pela Versátil vídeos, o box “Sartana – a série completa” conta com os filmes SE ENCONTRAR SARTANA, REZE PELA SUA MORTE
(Se incontri Sartana, prega per la tua morte, 1968, dirigido por Gianfranco Parolini), SARTANA, O MATADOR (Sono Sartana, il vostro becchino, 1969), COM SARTANA CADA BALA É UMA CRUZ
(C’è Sartana… vendi la pistola e comprati la bara, 1970), BOM FUNERAL, AMIGOS!… PAGA SARTANA (Buon funerale, amigos!… paga Sartana, 1970), FUJAM, SARTANA CHEGOU!
(Una nuvola di polvere… un grido di morte… arriva Sartana, 1970) dirigidos por Giuliano Carmineo, que assina como Anthony Ascot. Desses filmes, apenas “Com Sartana cada bala é uma cruz” foi interpretado por George Hilton. Os demais, por Gianni Garco.

Esses cinco filmes oficiais de Sartana foram recuperados e estão disponíveis aos colecionadores em um box que conta com pequenos documentários extras que ajudam a valorizar as produções. Os filmes estão no áudio original em italiano e com legendas em português.

O lançamento do box DVD “Sartana” demonstra que a legião de fãs do faroeste italiano ainda é grande, mas também que muitos se ressentem da falta hoje de produções cinematográficas que valorizem mais a arte e o enredo do que os efeitos especiais.

 

 

Carlos Carvalho Cavalheiro 

carlosccavalheiro@gmail.com

29.01.2019

 

 

 

 

 

 

 

 

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