Carlos Carvalho Cavalheiro: ‘Primórdios da luta antifascista em Sorocaba’

27/12/2019 19:32

Carlos Cavalheiro

Primórdios da luta antifascista em Sorocaba

O conservadorismo sempre foi uma marca presente na sociedade sorocabana. O controle permanente dos grupos de poder, mancomunados na intenção de reprimir qualquer mobilização social e reivindicatória de direitos, depõe contra a o discurso do liberalismo, utilizado por esses mesmos grupos.

Não é sem razão alguma que diversos grupos de extrema-direita floresceram ao longo da década de 1930, organizando-se em Sorocaba. Alguns desses grupos tinham trânsito entre os demais da mesma diretriz, demonstrando um espírito não só de colaboracionismo, mas, sobretudo, de identidade ideológica.

É também perceptível a presença de membros em alguma organização fascista migrando para outra por motivos diversos. O mais comum é quando uma organização deixa de existir e seus membros passam a buscar outra similar. Nesse sentido, fica clara a necessidade que essas pessoas viam de ter um canal de manifestação e de ação política, de modo a garantir a aplicação prática de suas ideias e de seus ideais.

Quando a Legião Revolucionária, por exemplo, se desintegra, consegue-se mapear a migração de alguns de seus asseclas para outras organizações como a Ação Integralista Brasileira.

Em Sorocaba, até o surgimento do Estado Novo, encontram-se em Sorocaba notícias da formação da Legião Revolucionária, do Partido Nacional Fascista Italiano de Sorocaba, o Dopolavoro, a Ação Integralista Brasileira, Falange Nacionalista de Sorocaba, Centro Operário Católico.

Apesar do conservadorismo e da abertura para as organizações fascistas em Sorocaba, verdade é que, também, havia organizações de esquerda ou progressistas, como a célula do Partido Comunista (que se instalou na cidade por volta de 1933), o Centro Cívico Pró-democracia, a União Democrática Brasileira, o Centro Republicano Espanhol, a União Democrática Trabalhista. Da mesma forma como ocorria com as organizações fascistas, essas também apresentavam em suas fileiras nomes que transitavam em mais de uma organização. É o caso do jornalista Hilário Correia. Essas organizações tinham um cunho ideológico voltado ao anarquismo e anarcossindicalismo, ao socialismo, ao comunismo, ao liberalismo (democracia liberal burguesa).

A luta antifascista iniciou-se em São Paulo, na Praça da Sé, no dia 7 de outubro de 1934, quando a Frente Antifascista (formada por anarquistas, anarcossindicalistas, socialistas, comunistas, intelectuais e operários) enfrentou e dissolveu uma gigantesca manifestação integralista, marcada para esse dia com o fito de demonstrar o crescimento e o poder dos fascistas brasileiros.

Com a dispersão dos integralistas da Praça da Sé, o evento passou a ser conhecido como “Revoada das Galinhas Verdes”. Os integralistas eram pejorativamente chamados de galinhas-verdes porque usavam uma camisa verde com o emblema do Sigma.

A resistência antifascista se espalhou por diversas cidades como ocorreu em Bauru, interior paulista. Em 1935 ocorreu a Intentona Comunista, liderada por Luís Carlos Prestes e Olga Benário. O malogro desse evento custou a prisão de diversos militantes e o desmantelamento do Partido Comunista.

Com isso, os integralistas ganharam terreno, até que os antifascistas pudessem se reorganizar. Em Sorocaba, a luta antifascista nasceu em 1937. Nesse ano surge na cidade o Centro Cívico Pró-Democracia que reagrupa em seus quadros os militantes antifascistas.

No dia 11 de julho de 1937, na Praça Coronel Fernando Prestes, os integralistas tentam realizar um ato manifestando sua força dentro de Sorocaba. Um grupo de antifascistas, que envolvia desde membros do Centro Cívico até operários e ferroviários ligados ao Partido Comunista, invadiu a Praça e dispersou o comício dos integralistas.

Nesse dia inaugurou-se a luta antifascista em Sorocaba. Logo depois ocorreram diversas manifestações e atos de repúdio ao fascismo (em todas as suas vertentes). Com a instalação do Estado Novo, entretanto, as organizações que não eram oficiais, ou seja, do governo, foram fechadas e impedidas de continuar suas atividades.

Com isso, tanto fascistas quanto antifascistas perderam seu espaço de manifestação. A diferença é que para os fascistas, o Estado Novo representava o modelo que se aproximava de seus ideais. No entanto, com o passar dos anos, a Guerra fez com que a razão retornasse às mentes humanas, execrando a ideologia nefasta do nazifascismo.

 

Carlos Carvalho Cavalheiro

carlosccavalheiro@gmail.com

18.12.2019