Carlos Carvalho Cavalheiro: Maria Quitéria e a luta pela independência

12/09/2019 09:13

Carlos Cavalheiro

Maria Quitéria e a luta pela independência

 

  Ao ver uma gravura com o retrato de Maria Quitéria, um leigo em História do Brasil poderia perguntar: “Por que essa mulher, vestida com uma farda do Exército, é considerada heroína da Independência se a mesma foi pacificamente proclamada por Dom Pedro?”. Ao contrário do que se pensa (ou do que por muito tempo foi difundido como verdadeiro) o processo de independência do Brasil não foi pacífico. Lutas intensas entre brasileiros e portugueses ocorreram antes e depois do grito do Ipiranga. Tampouco Dom Pedro I foi a figura primordial e essencial desse processo.

               Ele nem ao menos era um convicto adepto da separação do Brasil de Portugal como deixa transparecer em muitas de suas cartas:

               “Eu ainda me lembro, e me lembrarei sempre do que Vossa Majestade me disse, antes de partir, dois dias, no seu quarto: (Pedro, se o Brasil se separar, antes seja para ti, que me hás de respeitar do que para algum desses aventureiros). Foi chegado o momento de quase separação, e estribado eu nas eloqüentes e singelas palavras expressadas por Vossa Majestade, tenha marchado adiante do Brasil, que tanto me tem honrado”. (…) “Aqui consta-me que querem aclamar Vossa Majestade Imperador do Reino Unido, e a mim Rei do Brasil. Eu, Senhor, se isto acontecer receberei aclamações, porque me não hei de opôr à vontade de pedir licença a Vossa Majestade para aceitar, porque eu sou bom Filho, e fiel súdito. Ainda que isto aconteça, o que espero que não, conte Vossa Majestade que eu serei Rei do Brasil, mas também gozarei da honra de ser de Vossa Majestade súdito, ainda que em particular seja, para mostrar a Vossa Majestade a minha consideração, gratidão, e amor filial tributado livremente…”. (Carta de Dom Pedro a seu pai Dom João VI, datada de 19 de junho de 1822).

                  Três meses antes da “Proclamação”, Dom Pedro diz a seu pai que não é de sua inteira vontade tornar-se Rei do Brasil e tampouco que haja a separação entre os dois países! Bastaram noventa dias para ele mudar de ideia! 

Diversos grupos tinham interesse na independência do Brasil. Comerciantes que haviam enriquecido com a mudança do Brasil, de colônia para Reino Unido, bem como latifundiários – que poderiam, sem o Pacto Colonial, vender sua produção a quem pagasse melhor; e ainda, a Inglaterra – que preferia um Brasil sem a intermediação de Portugal – além de grupos políticos, maçons e tantos outros estavam entre os que se interessavam pela nossa emancipação política. Com o apoio desses grupos e pressionado pelas Cortes portuguesas, que exigiam seu retorno a Portugal, Dom Pedro não teve alternativa senão a de proclamar a Independência em 7 de setembro de 1822. 

               Entretanto, na Bahia, o clima entre brasileiros e portugueses era de tensão. Isso se acentuou quando Inácio Luís Madeira de Melo, comandante das armas da província, oprimindo o povo baiano que apoiava Dom Pedro (em especial no episódio do “Fico”), ordena que seus soldados invadam o convento da Lapa onde se acreditava estarem escondidos patriotas brasileiros. No dia 19 (alguns autores citam como dia 20) de fevereiro eles assaltam o convento. Sóror Joana Angélica num ato heroico tenta impedi-los, mas é covardemente assassinada.

                  Em 17 de junho de 1822 Dom Pedro escreve aos baianos: “os honrados brasileiros preferem a morte à escravidão, vós não sois menos: também o deveis fazer conosco, entoardes vivas – à independência moderada do Brasil – ao nosso bom e amável monarca El-Rei o senhor Dom João VI e à nossa assembleia geral constituinte e legislativa do reino do Brasil”.

                  Os baianos organizam seu exército e em 25 de julho de 1822 começa a guerra pela independência. 

                   A falta de documentos precisos faz com que pormenores da vida da heroína Maria Quitéria de Jesus sejam desconhecidos ou mesmo divergentes entre um e outro estudo histórico. Não encontramos data precisa de seu engajamento no Exército. Dos textos estudados alguns nos levam a crer que seu alistamento ocorreu antes do sete de setembro de 1822. Outros, porém, dizem claramente que ela participou somente da guerra para consolidação da independência, ou seja, depois de já haver sido proclamada.

                    Maria Quitéria nasceu (e aqui há algumas dúvidas quanto a data) em 1792, numa fazenda denominada de “Serra da Agulha”, próxima ao Rio Peixe, freguesia de São José de Itapororocas, hoje pertencente a Feira de Santana, no Recôncavo baiano. Era filha de Gonçalo Alves de Almeida e de Joana Maria de Jesus. Seu pai era criador de gado e cultivador de algodão.

                 Certo dia um emissário do Conselho Interino de Governo pernoitou na fazenda de Gonçalo de Almeida, a fim de obter adesão para a causa da independência. Porém, o velho Gonçalo não possuía filhos homens adultos que pudessem servir à causa. Quanto aos seus escravos acreditava que não havia interesse deles nessa luta.

                 As palavras do emissário sobre a independência, no entanto, deixam Maria Quitéria entusiasmada. Foge então de sua casa, vestindo roupas de seu cunhado e alista-se no Exército com o nome de José Cordeiro de Medeiros. Passou então a ser conhecida como “Soldado Medeiros”. Com as buscas de seu pai nos postos de alistamento é depois descoberta sua verdadeira identidade. Porém, não obstante os apelos do pai, ela continua na guerra da independência. Seu pai, magoado, considera-a morta e ameaça deserdá-la. Maria é irredutível.

                  Depois de descoberta a sua identidade é transferida para o batalhão dos “Periquitos”, assim chamados por sua farda com punhos e golas verdes. Maria destacou-se com bravura durante as batalhas. Capturou um oficial português na Ilha de Itaparica, sendo por isso promovida a 2º Cadete. Na Lagoa do Abaeté, em Itapuã, prendeu um sargento e um soldado português. Este ato rendeu-lhe a promoção a 1º Cadete. Nessa mesma batalha morreu o furriel João José Luiz, com quem estava casada. Durante as batalhas, Maria Quitéria vê um negro escravo amarrado a um tronco com o corpo besuntado de mel para que os insetos lhe comessem. Indignada, vai até a presença do senhor daquele escravo e consegue a sua libertação mediante um compromisso de pagar por ele certa quantia em dinheiro. Mesmo não possuindo esse dinheiro e sem expectativas de consegui-lo até o final da guerra, Maria aceita o acordo.

                   O auge de sua intrepidez ocorreu na foz do Paraguaçu, onde liderando um grupo de mulheres, com água até os seios, lutou contra os portugueses que ali tentavam desembarcar.                    No dia 20 de Agosto de 1823, Maria Quitéria chega ao Rio de Janeiro e na presença do Imperador comunica a consolidação da independência na Bahia. Nessa ocasião recebe a insígnia de Cavaleiro da Imperial Ordem do Cruzeiro e o soldo de alferes de linha. Consta ainda que ela pediu a Dom Pedro I uma carta de alforria ao negro escravo que ela conhecera durante as batalhas e também outra em que pede para que seu pai a perdoe.

                   Seu pai não a perdoou. Ela contraiu núpcias novamente, agora com Gabriel Pereira de Brito, um lavrador pobre. Teve uma filha – Maria da Conceição. Esquecida, pobre, cega e doente Maria Quitéria de Jesus “Medeiros” morreu em 21 de agosto de 1853. Até hoje, durante as comemorações de setembro, pouco (ou nada) se fala dessa grande heroína que não encontrou obstáculos que a impedissem de lutar por um Brasil livre. Sacrificou tudo o que possuía em prol de sua pátria. 

É na sua Bahia, no dia 2 de julho, que Maria Quitéria é lembrada. Nessa data, que os baianos comemoram a independência, alguém se lembra dessa valente heroína que lutou pela liberdade de seu país.

                

                    Carlos Carvalho Cavalheiro

carlosccavalheiro@gmail.com