Carlos Carvalho Cavalheiro: ‘Derrubar as estátuas’

19/06/2020 17:42

Carlos Cavalheiro

Derrubar as estátuas

 

Derrubar as prateleiras
As estantes, as estátuas
As vidraças, louças, livros, sim…

(É proibido proibir – Caetano Veloso)

 

Caetano Veloso e Os Mutantes – É Proibido Proibir – III Festival Internacional da Canção – 15/091968

Na década de 1960 o cantor e compositor Caetano Veloso chocava os jurados do III Festival Internacional da Canção com a música “É proibido proibir”, uma canção de protesto contra a censura e o recrudescimento do autoritarismo do governo militar. A canção exprimia bem o contexto de sua época, não somente no Brasil, mas de maneira generalizada. Era o tempo dos protestos estudantis da França de 1968, era o início das manifestações de jovens em todo o mundo, a época dos Festivais de rock, enfim, um momento de rebeldia e contracultura.

Caetano Veloso soube resumir toda essa rebeldia na letra da música em questão. Em um trecho ele sugere que se derrubem as estantes, as estátuas, as vidraças, as louças… Obviamente que ele recorreu a expressões simbólicas e não a um sentido literal. Derrubar as prateleiras poderia significar a mudança da estrutura econômica calcada no capitalismo, assim com as estantes simbolizam o conhecimento erudito – e, portanto, elitista e distante do povo – e as estátuas são, por excelência, a materialização da memória dos poderosos e dos opressores.

Com essa mentalidade e insuflados pela violência policial contra os negros, como nos casos do menino Miguel aqui no Brasil e o de George Floyd nos Estados Unidos, surgiu um movimento reivindicatório antirracista e antifascista. Afinal, o fascismo, por sua natureza excludente, sempre está associado ao racismo. Logo o movimento ganhou o mundo e na Inglaterra os manifestantes resolveram derrubar a estátua de Edward Colston, no Porto de Bristol, por sua ligação com o comércio de escravos.

O tema polêmico alcançou defensores de diversas opiniões e também incentivou a ataques a outros monumentos pelo mundo todo. Em reação, algumas pessoas se manifestaram em redes sociais – o mundo paralelo e sem restrições que criamos – para defender a derrubada de monumentos a Zumbi dos Palmares aqui no Brasil. E a polêmica somente cresce como se fosse fermento derrubado na massa.

Não tenho qualquer simpatia por quem alguma vez acreditou que pudesse ser proprietário de outra pessoa. Não me coaduno com ninguém que possa achar que a escravidão foi benéfica. Ou quem naturaliza as desigualdades, defende a tortura, prega a exploração do outro, desmerece qualquer um que não lhe seja semelhante, que oprime, que crê ter o direito sobre a vida dos demais. Por outro lado, ainda não me convenci de que derrubar estátuas seja o melhor caminho na construção de uma sociedade melhor.

Explico melhor. Ou ao menos tentarei. No final da década de 1990 entristeceu-me muito ver pela televisão a imagem da destruição de estátuas budistas pelos talibãs do Afeganistão. Não sou budista, não é esse o motivo que me leva a detestar tal ato. Penso no valor histórico daquelas esculturas, das centenas de anos que existiram e sobreviveram diante de intempéries, de ameaças tantas… e em segundos elas viraram pó. Os motivos que levaram os talibãs a realizarem tal ato são os mesmos usados por aqueles que derrubaram a estátua de Colston: não podemos admitir uma homenagem a alguém que consideramos como vil.

Nas redes sociais do Brasil, a estátua de Borba Gato em Santo Amaro foi uma imagem veiculada à exaustão para sugerir que também fosse derrubada. Temo que daqui a pouco alguém queira fazer uma fogueira com as obras de Salvador Dalí porque desconfia-se que pudesse ter alguma simpatia pelo ditador Franco.

A verdade é que se existe uma razão para destruir os vestígios materiais do passado, as ações que se escoram nessa justificativa nunca mais terão fim. Basta que um grupo se organize e resolva derrubar um monumento porque aquilo representa um valor que esse grupo despreza. O problema é que esse tipo de “linguagem” e ação sempre foi usado pelos piores opressores. Os espanhóis comandados por Francisco Pizarro destruíram as edificações incas para “mostrar quem manda”. Os asseclas de Hitler se deleitaram com a incineração de milhares de livros cujo conteúdo era contrário aos ideais nazistas. E isso nem foi original: Huang Di, o primeiro imperador chinês, ordenara a queima de livros duzentos anos antes de Cristo!

O problema de extirpar os patrimônios materiais é que ao mesmo tempo que você os tira de circulação apaga também os crimes associados a eles. Como “provar” a exploração dos trabalhadores se os prédios de todas as fábricas antigas forem derrubados? Como questionar os governos autoritários se os monumentos que erigiram já não mais existissem?

Penso agora no campo de concentração de Auschwitz. Alguém poderia, dentro da mesma lógica de se derrubar as estátuas, sugerir a implosão dessa construção, pois representou o poder dos nazistas e a opressão ao povo judeu. Sim, isso poderia ser feito. E daqui há uma década, os revisionistas e negacionistas, que já existem aos milhares, poderiam dizer que aquilo tudo foi uma fábula, que não existiu nunca um campo de concentração para eliminação dos judeus…

Criar memórias concorrentes, erigir nossos próprios monumentos e contar nossas histórias paralelamente às que já são contadas pela “oficialidade” parece ser um caminho muito mais seguro para se manter a criticidade da História do que tentar apagar os vestígios e a memória dos opressores.

 

Carlos Carvalho Cavalheiro

16.06.2020

 

 

 

 

 

 

 

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